Estávamos
viajando, eu e minha mulher, à procura de “ igrejas e capelas ”, quando
encontrámos
uma aldeia.
Era
uma aldeia um pouco estranha, pois era todo construída com as pedras, que tinham pertencido a uma
época passada.
Vimos
nas casas, na igreja e em várias
capelas, achados arqueológicos pertencentes
à
era romana, visigótica e árabe.
Era
como se os romanos tivessem destruído aquilo que tinham encontrado, para
depois
reconstruírem à sua maneira; e depois, tinham feito o mesmo os visigodos,
os
árabes e os portugueses .
Ficámos
impressionados.
Se
antes tínhamos pensado fazer umas tantas fotografias e partir para casa, agora,
depois
do que viramos, pensámos ficar pelo menos mais um dia.
Não
encontrando nem hotéis nem pensões, perguntámos onde poderíamos dormir
aquela
noite e disseram-nos para nos dirigirmos ao Presidente do Centro para
Anciãos.
Assim
fizemos; fomos acolhidos calorosamente e foi-nos oferecido um quarto para todo
o tempo que quiséssemos, e ainda por cima, não quis que pagássemos o
alojamento.
No
dia seguinte era sábado e estava programada uma festa com música e danças
folclóricas.
A
festa era em honra de Nossa Senhora e terminava no domingo à noite com fogo
de
artifício.
Decidimos
ficar para a festa.
Estava
tudo pronto: tinham já montado o palco para o espectáculo.
Só
que...na manhã seguinte, começou a chover; passou o dia e não chegou ninguém
para
fazer o espectáculo: foi uma desilusão total.
Nós,
não podendo passear, ficámos no Centro a fazer companhia aos velhotes.
No
domingo fomos à Igreja para assistir à Missa.
Não
obstante, no ar havia qualquer coisa de estranho (como se, reunidos para a
função, não estivesse só o povo da aldeia, mas os espíritos daqueles que os
tinham precedido), os fiéis estavam recolhidos, e algumas mulheres rezavam
silenciosamente.
Na
Igreja havia um velho órgão, mas não havia ninguém a tocar.
Maria
sentou-se no banco, olhou para as partituras, e começou a tocar.
Mas
como? Não se sabe...
Era
uma música dedicada a Nossa Senhora.
Depois
ela começou a cantar, eu segui-a e pouco depois também os fiéis cantavam.
No
final da Missa, eu cantei a Ave Maria de Shubert com voz de barítono.
Ao
almoço, no Centro, o Presidente deu-nos os parabéns e perguntou-nos se podíamos alegrar a festa com
os nossos cantos, visto que não tinham vindo os convidados para o espectáculo.
Acrescentou também que nos pagaria o incómodo.
Respondemos
que o faríamos de boa vontade, para retribuir a hospitalidade.
Perto
das 16 horas, foi levado, para o palco, o órgão da igreja.
Já
lá estavam também várias pessoas
com diversos instrumentos.
Pouco
depois, com as partituras que tínhamos encontrado, tocou-se, cantou-se,
algumas
mulheres e alguns velhotes cantaram canções populares e exibiram-se em
danças
locais.
Cantei
muitas canções italianas melódicas e de
operetas.
Toquei
trompete (como foi, não sei), mas exibi-me tocando “ O silêncio “ e a “ A
montanhesa”.
Foi
um sucesso; até porque de tarde tinha deixado de chover e tinha-se reunido
muita gente.
Depois
da ceia, no final da festa, houve o fogo de artifício.
No
dia seguinte estando bom tempo, andámos às voltas para completar as fotos, e
por
onde passávamos, as pessoas davam-nos os parabéns, e ofereciam-nos de beber.
Nas
nossas voltas, passámos diante de uma loja de antiguidades e, na montra, vi
uma
ocarina; disse a Maria para esperar por mim.
Entrei
na loja e pedi ao dono para me mostrar a ocarina.
Depois
de tê-la limpado do pó, levei-a à boca e... milagre! saiu uma melodia.
Nunca
tinha tocado nela; mas bastava-me soprar e ela tocava coisas que não conhecia; tocava
sozinha.
Perguntei
o preço, e o dono disse não querer nada; sentiu-se pago com a música que
eu
tinha tocado.
Saindo
da loja, Maria perguntou-me quem tinha tocado aquela linda música.
Mostrei-lhe
a ocarina, dizendo-lhe o que tinha feito.
Não
queria acreditar.
Disse-lhe
para experimentar soprar; ela assim fez e imediatamente saiu uma música.
Maria,
olhou de novo para a ocarina, e deu-ma dizendo “ Tem bruxedo ”.
E
eu respondi-lhe: ” É como se tivesse armazenado todas as músicas, que o seu
antigo proprietário tinha tocado. Depois, por qualquer motivo a nós
desconhecido, foi parar àquela loja, quem sabe desde quando, à espera de um
novo dono. Eis porque, quando experimentei tocá-la, saiu a música que tu
ouviste ”.
Continuámos
a nossa volta fotográfica; Maria tirando as fotografias e eu soprando na
ocarina.
Algum
tempo depois, Maria disse para olhar para trás: estava um bando de rapazinhos, atraídos
pela música da ocarina.
De
tarde sucedeu-me uma outra coisa estranha.
Estava
sozinho a passear, quando vi três pessoas: duas estavam a tocar guitarra e uma
tinha
um banjo, mas não o estava a tocar.
Aproximei-me
do terceto e perguntei se podia ver o banjo.
Quando
peguei nele e comecei a dedilhar, senti qualquer coisa.
As
minhas mãos começaram a mexer-se sozinhas.
Os
outros dois viam-se em dificuldade para me acompanharem com as guitarras.
Começámos
com blues, pois uniu-se a nós um outro com um trombone e depois um
outro
com um saxofone, e assim pusemo-nos a tocar jazz.
Como
a um sinal, tinha-se juntado quase toda
a gente da aldeia e entre eles estava
também
a minha mulher. Maria observava-me, e eu, olhando também para ela, fiz-lhe
perceber,
que estava a acontecer a mesma coisa do trompete e da ocarina.
Teríamos
tocado toda a noite, e quem sabe a que horas iríamos parar.
Mas depois, a música quis dar-nos um pouco de
descanso, e tudo acabou com imensos aplausos.
Uma
manhã, enquanto fazia a barba, ouvi na rádio uma ária de ópera, e seguindo a
música,
pus-me a cantar; era ” Una furtiva
lacrima...”
Não
tinha reparado que estava a janela aberta; e quando acabei, ouvi alguém aplaudir;
debrucei-me e uma senhora chamou-me “ Maestro.”
Expliquei
que não era nem Maestro, nem cantor; se cantava era sem querer, era assim
como
calhava.
Ela
não quis acreditar; e quando saí para dar uma volta, todos me chamavam “Maestro.”
Estavam fazendo troça de mim, mas eu não fiz caso.
Tinha
já passado uma semana desde que chegáramos àquela aldeia; estava na hora de
nos
irmos embora e voltar para a nossa casa em Vale de Figueira; por isso começámos
a arrumar a bagagem.
Estava
a meter a mala no carro, quando se aproximaram várias pessoas, entre as quais o
Presidente do Centro e o Presidente da Junta de Freguesia daquela estranha
aldeia.
Perguntaram-nos
porque íamos embora; respondemos que a nossa casa não era ali, mas sim um pouco
mais longe.
O
Presidente da Junta fez-nos então uma proposta:
Oferecia-nos
uma casa com muito terreno.
Recusámos.
Ele
pediu que a víssemos antes de recusar a oferta.
A
casa tinha um primeiro andar, estava vazia, sem mobília, era em pedra e quando
entrámos
ficámos presos pela casa; tanto que, mesmo que quiséssemos sair, não éramos capazes;
a casa queria que nós ficássemos como novos habitantes.
Olhámos
um para o outro e... não fomos nós a decidir.
Foi
a aldeia a decidir por nós.
E respondemos
simultaneamente: ” Aceitamos”.

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