segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sonho n.7 A Aldeia histórica ano 2006

                             
Estávamos viajando, eu e minha mulher, à procura de “ igrejas e capelas ”, quando
encontrámos uma aldeia.
Era uma aldeia um pouco estranha, pois era todo construída  com as pedras, que tinham pertencido a uma época passada.
Vimos  nas casas, na igreja e em várias capelas, achados arqueológicos pertencentes
à era romana, visigótica e árabe.
Era como se os romanos tivessem destruído aquilo que tinham encontrado, para
depois reconstruírem à sua maneira; e depois, tinham feito o mesmo os visigodos,
os árabes e os portugueses .
Ficámos impressionados.
Se antes tínhamos pensado fazer umas tantas fotografias e partir para casa, agora,
depois do que viramos, pensámos ficar pelo menos mais um dia.
Não encontrando nem hotéis nem pensões, perguntámos onde poderíamos dormir
aquela noite e disseram-nos para nos dirigirmos ao Presidente do Centro para 
Anciãos. 
Assim fizemos; fomos acolhidos calorosamente e foi-nos oferecido um quarto para todo o tempo que quiséssemos, e ainda por cima, não quis que pagássemos o alojamento.
No dia seguinte era sábado e estava programada uma festa com música e danças
folclóricas.
A festa era em honra de Nossa Senhora e terminava no domingo à noite com fogo
de artifício.
Decidimos ficar para a festa.
Estava tudo pronto: tinham já montado o palco para o espectáculo.
Só que...na manhã seguinte, começou a chover; passou o dia e não chegou ninguém
para fazer o espectáculo: foi uma desilusão total.
Nós, não podendo passear, ficámos no Centro a fazer companhia aos velhotes.
No domingo fomos à Igreja para assistir à Missa.
Não obstante, no ar havia qualquer coisa de estranho (como se, reunidos para a função, não estivesse só o povo da aldeia, mas os espíritos daqueles que os tinham precedido), os fiéis estavam recolhidos, e algumas mulheres rezavam silenciosamente.
Na Igreja havia um velho órgão, mas não havia ninguém a tocar.
Maria sentou-se no banco, olhou para as partituras, e começou a tocar.
Mas como? Não se sabe...
Era uma música dedicada a Nossa Senhora.
Depois ela começou a cantar, eu segui-a e pouco depois também os fiéis cantavam.
No final da Missa, eu cantei a Ave Maria de Shubert com voz de barítono.  
Ao almoço, no Centro, o Presidente deu-nos os parabéns e  perguntou-nos se podíamos alegrar a festa com os nossos cantos, visto que não tinham vindo os convidados para o espectáculo. Acrescentou também que nos pagaria o incómodo.
Respondemos que o faríamos de boa vontade, para retribuir a hospitalidade.
Perto das 16 horas, foi levado, para o palco, o órgão da igreja. 
Já lá  estavam também  várias  pessoas com diversos instrumentos.
Pouco depois, com as partituras que tínhamos encontrado, tocou-se, cantou-se,
algumas mulheres e alguns velhotes cantaram canções populares e exibiram-se em
danças locais.
Cantei muitas canções italianas melódicas e  de operetas.
Toquei trompete (como foi, não sei), mas exibi-me tocando “ O silêncio “ e a “ A montanhesa”.
Foi um sucesso; até porque de tarde tinha deixado de chover e tinha-se reunido muita gente.
Depois da ceia, no final da festa, houve o fogo de artifício.
No dia seguinte estando bom tempo, andámos às voltas para completar as fotos, e
por onde passávamos, as pessoas davam-nos os parabéns, e ofereciam-nos de beber.
Nas nossas voltas, passámos diante de uma loja de antiguidades e, na montra, vi
uma ocarina; disse a Maria para esperar por mim.
Entrei na loja e pedi ao dono para me mostrar a ocarina.
Depois de tê-la limpado do pó, levei-a à boca e... milagre! saiu uma melodia.
Nunca tinha tocado nela; mas bastava-me soprar e ela tocava coisas que não conhecia; tocava sozinha.
Perguntei o preço, e o dono disse não querer nada; sentiu-se pago com a música que
eu tinha tocado.
Saindo da loja, Maria perguntou-me quem tinha tocado aquela linda música.
Mostrei-lhe a ocarina, dizendo-lhe o que tinha feito.  
Não queria acreditar.
Disse-lhe para experimentar soprar; ela assim fez e imediatamente saiu uma música.   
Maria, olhou de novo para a ocarina, e deu-ma dizendo “ Tem bruxedo ”.
E eu respondi-lhe: ” É como se tivesse armazenado todas as músicas, que o seu antigo proprietário tinha tocado. Depois, por qualquer motivo a nós desconhecido, foi parar àquela loja, quem sabe desde quando, à espera de um novo dono. Eis porque, quando experimentei tocá-la, saiu a música que tu ouviste ”.
Continuámos a nossa volta fotográfica; Maria tirando as fotografias e eu soprando na
ocarina.
Algum tempo depois, Maria disse para olhar para trás: estava um bando de rapazinhos, atraídos pela música da ocarina.
De tarde sucedeu-me uma outra coisa estranha.
Estava sozinho a passear, quando vi três pessoas: duas estavam a tocar guitarra e uma
tinha um banjo, mas não o estava a tocar.
Aproximei-me do terceto e perguntei se podia ver o banjo.
Quando peguei nele e comecei a dedilhar, senti qualquer coisa.
As minhas mãos começaram a mexer-se sozinhas.
Os outros dois viam-se em dificuldade para me acompanharem com as guitarras.
Começámos com blues, pois uniu-se a nós um outro com um trombone e depois um
outro com um saxofone, e assim pusemo-nos a tocar jazz.     
Como  a um sinal, tinha-se juntado quase toda a gente da aldeia e entre eles estava
também a minha mulher. Maria observava-me, e eu, olhando também para ela, fiz-lhe
perceber, que estava a acontecer a mesma coisa do trompete e da ocarina.                                                                                                                                        
Teríamos tocado toda a noite, e quem sabe a que horas iríamos parar.
Mas depois, a música quis dar-nos um pouco de descanso, e tudo acabou com imensos aplausos.
Uma manhã, enquanto fazia a barba, ouvi na rádio uma ária de ópera, e seguindo a
música, pus-me  a cantar; era ” Una furtiva lacrima...”
Não tinha reparado que estava a janela aberta; e quando acabei, ouvi alguém aplaudir; debrucei-me  e uma senhora  chamou-me “ Maestro.”
Expliquei que não era nem Maestro, nem cantor; se cantava era sem querer, era assim
como calhava.
Ela não quis acreditar; e quando saí para dar uma volta, todos me chamavam “Maestro.”
Estavam fazendo troça de mim, mas eu não fiz caso.
Tinha já passado uma semana desde que chegáramos àquela aldeia;  estava na hora de
nos irmos embora e voltar para a nossa casa em Vale de Figueira; por isso começámos a arrumar a bagagem.
Estava a meter a mala no carro, quando se aproximaram várias pessoas, entre as quais o Presidente do Centro e o Presidente da Junta de Freguesia daquela estranha aldeia.
Perguntaram-nos porque íamos embora; respondemos que a nossa casa não era ali, mas sim um pouco mais longe.
O Presidente da Junta fez-nos então uma proposta:
Oferecia-nos uma casa com muito terreno.
Recusámos.
Ele pediu que a víssemos antes de recusar a oferta.
A casa tinha um primeiro andar, estava vazia, sem mobília, era em pedra e quando
entrámos ficámos presos pela casa; tanto que, mesmo que quiséssemos sair, não éramos capazes; a casa queria que nós ficássemos como novos habitantes.
Olhámos um para o outro e... não fomos nós a decidir.
Foi a aldeia a decidir por nós.
E respondemos simultaneamente: ” Aceitamos”.

                                                                                    

                                                        

Sem comentários:

Enviar um comentário