Quando
dávamos uma volta de carro pelo Norte, de noite, fomos apanhados por
um temporal.
Chovia torrencialmente, tanto
que os limpa - brisas não conseguiam tirar toda a água; e a visibilidade era
muito reduzida.
Queríamos parar; mas, onde
nos encontrávamos, parecia um rio, tanta era a água que corria.
Deveríamos encontrar um lugar
habitado e possivelmente num alto.
De repente, vi à direita uma estrada
ligeiramente em subida.
Deixámos a estrada nacional e
metemos por aquela.
Andámos, andámos, até que a
subida acabou e aonde chegámos vimos uma casa.
Era uma casa isolada, mas
sempre uma casa.
Aproximámo-nos
da porta de entrada e, deixando a minha mulher no carro, fui lá bater. Ninguém
respondeu.
Debaixo da porta vislumbrava-se
um clarão, sinal de que era habitada.
Voltei a bater com mais força...e
a porta abriu-se.
A porta abriu-se, mas ninguém
a abriu.
Dado
que água continuava a cair a cântaros, fiz sinal a Maria para sair do carro e
entrar em casa.
Teríamos esperado os donos,
abrigados do mau tempo.
Dentro
havia uma lareira acesa, da qual emanava um bom calor; no meio da casa, havia
uma mesa posta (simplesmente) para dois; por isso supusemos que naquela casa
viviam duas pessoas.
No
meio da mesa estava uma panelinha de onde saía um cheirinho, que abria o
apetite.
Fazendo
de mal educado, levantei a tampa e vi uma sopa não sei de quê, mas que parecia dizer:
come-me...come-me...
Esperámos
ainda um pouco mais, pela chegada dos donos da casa.
Como não chegou ninguém,
decidimos comer um pouco de sopa.
Comemos, mas ao mesmo tempo
com temor da reacção dos donos.
Acabámos de comer e pensámos
partir.
Tinha parado de chover e o
céu tinha aclarado.
Deixei 10€ sobre a mesa a
entrámos no carro.
Meti a chave, mas o motor
fazia vuu, vuu, vuu, mas não trabalhava.
Experimentei mais que uma vez
até que o motor se afogou.
E agora?
Fazia frio e não tínhamos
nada para nos cobrir.
A única coisa a fazer era
voltar àquela casa.
Tornámos a entrar. A mesa
estava levantada, havia uma toalha e no meio...os meus 10€.
Quando tínhamos voltado para
o carro, tinham voltado os donos.
Mas onde estavam agora?
Chamámos, chamámos; ninguém
respondeu.
Naquela casa havia dois
quartos de dormir, ambos com cama de casal.
Se ocupássemos um, não daríamos
incómodo.
Deitámo-nos e pouco depois
adormecemos.
Na manhã seguinte, havia um
belo sol (entrevia-se pelas persianas).
Levantámo-nos, lavámo-nos e
dirigimo-nos para a cozinha.
Naquela casa havia uma
cozinha, dois quartos e uma casa de banho.
Na mesa estavam duas chávenas
de café com leite, pão torrado ainda quente e um tigela de marmelada.
A mesa estava preparada para
nós; mas por quem? Se não estava lá ninguém!
Maria disse que os donos se
deviam ter levantado antes de nós e, depois de nos terem preparado o pequeno
almoço, foram trabalhar.
Comemos com prazer, e depois
de acabarmos, levantámos a mesa. Maria lavou as chávenas e, antes de sair, deixei
20€.
Saímos, mas...o carro não
estava lá.
Mas eu tinha a certeza de o
ter deixado diante da porta de entrada.
Onde é que tinha ido parar?
Maria disse:”Certamente foi o
dono da casa que o mudou de sítio, e pô-lo protegido debaixo de um alpendre”.
Demos a volta à casa, mas...nem
alpendre, nem carro.
Tinham-no-lo roubado!
De novo defronte da casa fiz
uma descoberta: não havia estrada.
E no entanto tinha que haver.
Lembrava-me de, embora fosse
escuro, ter seguido por uma estrada, que não era asfaltada mas sempre estrada
era.
E agora onde é que estava?
Via-se somente erva. Erva, a
perder de vista...
Começámos a andar, e afastando-nos
aí uns 200 metros,
sempre tendo a casa debaixo de olho, demos a volta.
Não se via mais nada; só erva
....era um nunca acabar...
Mas, onde é que tínhamos
vindo parar?

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