Não
sei como, nem porquê, fui a Marrocos.
O
que é certo é que estava em Marrocos, mais precisamente em Marrakech.
De
Marrakech, eu com um grupo de turistas, dirigimo-nos a Quarzazate para
depois
embarcarmos para um cruzeiro no rio Oum er Draa, chamado também o
Nilo
do Sul.
Enquanto
subíamos o rio e os turistas tiravam fotografias aos barcos, que cruzávamos e aos crocodilos, fui atraído
por qualquer coisa ,que acontecia no rio. Era num barco; não percebi bem o que
aconteceu, mas a um certo momento, alguém caiu à água.
Quando
aquela pessoa caiu na água, um crocodilo
dirigiu-se na sua direcção.
Naquela
mesma altura, um criado passava com um
tabuleiro de queijos com uma faca.
Sem
pensar duas vezes, como se fosse um " Indiana Jones ", agarrei a
faca, pu-la entre os dentes e atirei-me borda fora.
Quando
caí na água, nadei desesperadamente até ao crocodilo que se dirigia
para
a presa; mas, quando me coloquei à sua frente, o crocodilo abriu a boca para me
comer. Tinha-se enganado: enfiei-lhe a faca na boca, com a ponta para cima e,
quando a fechou, ficou espetado.
Podeis
imaginar a dor que sentiu; no entanto
tinha mais em que pensar, pois os outros crocodilos aproveitando a ocasião,
atiraram-se a ele e comeram-no.
Deixando
o crocodilo ao seu triste destino, dirigi-me ao desgraçado ou desgraçada, e aproximando-me vi que era um velho homem.
Ajudei-o
a manter-se a boiar até que de um outro
barco o puxaram para bordo.
Também
o barco do cruzeiro tinha parado; e ajudado por uma escada de corda subi a
bordo.
Os
participantes do cruzeiro
aplaudiram-me pelo meu
gesto, enquanto o casal italiano Salvatore
e Romina, me faziam perguntas do género: " Porque é que fizeste isto? Podias
morrer! "
"
Não sei o porquê; provavelmente estava escrito ".
O
comandante fez-me descer para mudar a roupa encharcada; ofereceu-me uma veste
certamente sua, à moda árabe.
Então
sucedeu-me uma coisa estranha: conseguia perceber tudo o que dizia o capitão e
a equipagem.
O
que ouvi foi: " Isto é verdadeiramente o acontecer de uma profecia. Que
Allah seja louvado!"
Fi-lo
notar a Salvatore, perguntando-lhe se por acaso falava árabe.
Disse
qualquer coisa ao criado; ele não percebeu; e assim soube ter falado italiano.
Continuámos
o cruzeiro, até às cascatas de Setti
Fatma que são famosas.
Depois
voltámos para Marrakech.
No
hotel, esperava-nos um árabe: disse ao guia que tinha um convite para mim, da
parte da pessoa que eu tinha salvo.
Era
convidado a participar num jantar
especial, numa casa particular.
Não
me apetecia ir sozinho; assim perguntei ao guia se podia levar dois amigos.
O
guia traduziu; houve uma troca de palavras, e o guia disse que não.
Por
isso recusei o convite e o guia quis saber porquê.
E
eu respondi: " Ou levo os meus companheiros ou não se faz nada; nem que
fosse o Rei."
O
guia traduziu de novo, palavras e mais palavras.
No
fim levei comigo Salvatore e Romina.
Para
a ocasião, vesti o melhor fato que tinha levado.
No
caminho, comentei com Salvatore: " Certamente
oferecer-me-ão dinheiro; mas recusarei quanto for."
Chegámos
a um dos mais belos palácios que vi até hoje.
Soube
que se tratava do Palácio El Badi, construído entre 1578 e 1593, que
era a mais bela construção do mundo árabe, logo a seguir ao Palácio Real.
O
salão era imenso, estava imensa gente, a maioria árabe e lindas mulheres.
O
jantar foi sumptuoso, comíamos sentados
em almofadas, com as pernas cruzadas, e com mesas baixinhas.
Uma
outra coisa curiosa: quando chegavam os servidores, primeiro serviam um lado do salão e depois dirigiam-se
a mim e serviam-me.
Fiz
notar isto ao guia, que me respondeu que eu era um convidado de honra.
Quando
nos serviram o vinho, ao contrário dos meus companheiros, recusei beber,
limitando-me a bebidas sem álcool e chá de hortelã.
Havia
grupos musicais, dançarinos, e dançarinas que se exibiam na dança do ventre, numa atmosfera
das " Mil e uma noites ".
No
fim, sentia-me cheio como um odre, tanto
que recusei todos os outros acepipes seguramente deliciosos.
Vendo
que recusava aquilo que me serviam, um servo apresentou-me um volumoso
envelope.
Abrindo-o,
mostrei o conteúdo a Salvatore e devolvi-o ao criado, pedindo ao guia que
traduzisse: " O que fiz está feito, não o fiz para receber nenhuma recompensa; tê-lo-ia feito por qualquer um ".
Embora
não tivesse traduzido o que eu disse, pelo menos, não falou mal.
Pouco
depois aproximou-se um grupo de pessoas;
pareciam Príncipes, pela forma como
estavam vestidos.
Chegados
perto de nós reconheci, entre eles, o velho que tinha salvado.
Inclinando-se
perante mim, começou a agradecer-me o tê-lo salvo.
Disse-me que tudo aquilo que tinha feito até agora,
estava escrito.
Eu
era o homem que esperavam à século.
Convidou-me
para no dia seguinte assistir à Fantasia; aceitei de bom grado.
Já
tinha ouvido falar e lido em várias revistas: tratava-se de uma cerimónia de guerra, que consistia em
vários grupos opostos, representados pelos melhores cavaleiros, que disparavam
fuzis, todos ao mesmo tempo.
É
um dos espectáculos mais representativos de Marrocos; e, durante a Fantasia
pode-
-se
apreciar pratos típicos como a Harira, il Mechouiou ou o Couscous.
Quando
voltámos para o hotel, Salvatore e Romina falaram com os outros companheiros de
viagem, contando-lhes.
Todos
me diziam : " Cheio de sorte! "
Mas
eu expliquei: « A Fantasia era em minha honra, e com a ocasião far-me-iam a festa.”
"
Então não estás contente?
Festejar-te-ão!..."
Assim
chamei um senhor siciliano de nome Caetano e pedi-lhe para explicar o que
queria dizer fazer-me a "festa".
Ele
explicou: " Na Sicília, quando se
quer fazer a "a festa " a alguém, quer dizer que se procurará matar esse alguém ".
"
Porque é que te quereriam matar? "
"
Para ver se sou aquele da profecia; se sou, as balas não me tocarão, se não...
deixo a vós a conclusão ".
"
Então não vás!"
"
Seria falta de educação, dado que aceitei. Se me quiserem fazer companhia, são
meus convidados ".
Como
era natural, recusaram todos, excepto Salvatore e Romina.
Na
noite seguinte, dado que a Fantasia se desenrola sempre de noite, fui ao encontro acompanhado de Salvatore
e Romina.
Não
se via bem o local, parecia uma arena, tipo o Circo Massimo de Roma.
O
espaço era iluminado com tochas; havia muitas tendas e cada uma estava cheia de gente, principalmente
árabes.
Havia
também estrangeiros certamente turistas,
a assistir à Fantasia.
Na
Curva Sul ( aquela dos Romanistas ), havia uma grande tenda.
Estava
isolada das outras, com um grande espaço aberto nos dois lados.
Muito
iluminada, parecia a tenda dum Rei.
Estava
presente o Emir Abd Muhammad Al-Malik (
o velho senhor que tinha salvado dos
crocodilos ) e tantos outros alto dignitários do Emir.
Mandaram-me
sentar ao centro da mesa, se assim se pode chamar a tantas mesinhas, encostadas
umas às outras!
Começou-se
a comer e a beber ( eu, limitava-me ao chá ).
Enquanto
se comia, sem eles saberem, eu ouvia e compreendia tudo o
que diziam sobre mim.
Depois
chegaram os cavaleiros.
Desfilaram
diante da nossa tenda, e a mim, pareceu-me, que me olhavam como a um alvo.
Cada
um pensava ser aquele que faria a
pontaria certa.
Começaram
a Fantasia, e pouco depois, discretamente, os árabes que estavam comigo, afastaram-se; então nessa
altura, disse a Salvatore e Romina para
fazerem o mesmo.
Romina
tinha lágrimas nos olhos; previa o pior.
Calmo,
sem mostrar nervosismo ou medo, continuei a comer.
Vi
os cavaleiros virem na direcção da Curva Sul e preparei-me para a passagem para o outro mundo.
Começaram a assobiar as
balas, tudo o que era acertado em cheio, voava em mil pedaços; era pior
que granizo.
Também
o meu fato apanhou. As balas sibilavam perto das minhas orelhas, debaixo dos
braços, sobre a cabeça, os ombros, as costas, etc...etc...
Durou
um átimo, que pareceu uma eternidade, depois, os cavaleiros, que não tinham
abrandado a corrida, passaram pelo outro lado e desapareceram.
Aquilo
que inicialmente era uma linda tenda, era agora uma ruína.
Tudo
estava em pedaços;
as mesinhas entalhadas, o vasilhame de
cobre, as lâmpadas, as taças, as almofadas, tudo.
Só
eu fiquei ileso; em farrapos, mas ileso, sem um arranhão.
Os
árabes e os meus companheiros, aproximaram-se de mim e olhavam-me incrédulos.
Os
árabes prostraram-se aos meus
pés.
Salvatore
e Romina
em pé, não
acreditavam nos seus olhos.
Com
o meu " savoir faire " pedi chá.
O
Emir disse: " Era como estava escrito, é ele o homem que nos libertará do
tirano ".
Fazendo
traduzir as palavras, disse que tinha que ir com ele à cidade de Akaba.
Para
mim, agora tudo podia ser; não morri na Fantasia, não seria morto onde quer que
fosse.
Acompanharam-nos
de novo ao Riad Caravan Serai e podem imaginar o espanto que suscitou a
história do sucedido, contado por Salvatore e Romina.
Todos
se aproximavam e tocavam-me
e interrogavam-me; e eu, da minha parte, limitava-me a dizer: " Estava
escrito ".
A
palavra Akaba fazia medo a quem pedia informações; primeiro ficavam pálidos e
depois diziam que não sabiam nada.
Que
mistério escondia a cidade de Akaba?
Todos
os participantes do " tour "
queriam ir a Akaba; pediam a Alid Salem , o nosso guia, para nos levar até lá.
No
início ele hesitou; mas depois aceitou conduzir-nos até Akaba.
Numa
conversa entre Ali e Mohamed Ahmed,
percebi o porquê: seríamos vendidos todos como escravos ao Emir de Akaba.
Referi
a Salvatore o que tinha ouvido; e embora não me tivessem acreditado completamente, renunciaram por
precaução.
Alguns
dias depois, apresentaram-se no Riad cinco imponentes carros, com o Emir e mais
pessoas; vinham buscar-me.
Salvatore
e Romina queriam ir também, mas dissuadi-os contando-lhes a visão que
tivera de noite.
Ficaram
impressionados pelo que lhes disse, e renunciaram eles também.
Partimos
então de Marrakech por Quarzazate; parámos
para o almoço na residência do Paxá Glaoli.
Prosseguimos
para Zagora, onde pernoitámos num Riad de luxo.
Na
manhã seguinte, depois de uma lauta refeição (parecia um almoço de festa),
apanhámos a estrada para Forum-Zguid e Tata, onde parámos para almoçar.
Continuámos
por Forum- el-Hassan e passámos a noite em Guelmima num Hotel, casa-fortaleza.
Chegados
a Yartaya, entrámos no Saara Ocidental.
Em
Hawza, esperava-nos uma caravana de camelos e dromedários.
Quando
deixámos Marrakech, tinham-nos aconselhado
a vestir à moda árabe, para estar mais à vontade com os outros ou para
me confundir no meio deles.
Tinha
uma túnica de lã às riscas vermelhas e amarelas, que me dava pelo meio das pernas, e era aberta dos
dois lados para maior comodidade.
Os
calções eram claros ( sempre de lã ), assim como as meias.
Nos
pés, em vez dos meus sapatos, tinha sandálias: de dia, as solas eram de folha
de palma, à noite eram de couro.
Eram
fechadas com atacadores de pele atados à volta dos tornozelos.
À
noite, estando mais frio, vestia uma túnica de lã espessa; quando se saía,
vestia-se um manto do mesmo tecido.
O
mesmo manto era usado como cobertor, assento ou para cobrir a sela.
Durante
as orações ( os árabes rezam cinco vezes ao dia ) usavam-no como tapete.
O
que usavam para proteger do sol, a cabeça, os olhos e o pescoço, era feito de um
quadrado de lã branca, posto com uma prega sobre a fronte e com um círculo de lã entrançada, que
o ajudava a segurar-se , enquanto as extremidades protegiam o pescoço.
Eu,
só o usava quando saía do carro, pois lá dentro havia ar condicionado.
Entrados
do Saara Ocidental prosseguimos para Hawza, onde acabou a estrada, que até ali era asfaltada, e, começou a
areia.
Em Hawza esperava-nos uma caravana.
A
caravana parecia não ter fim: havia cavalos e camelos. Os cavalos eram da
escolta armada.
Éramos
escoltados por cerca de cinquenta tuaregues.
Os
tuaregues são também chamados " homens azuis ", não pela cor da sua
pele, mas sim pelas suas vestes, que são azuis para se confundirem com a noite.
Aconselharam-me
a subir para um camelo.
Normalmente
os camelos têm duas bossas, aqueles
africanos têm só uma.
A
bossa não era rígida, movia-se com o
andamento do camelo e do terreno; parecia estar num barco que se baloiçava segundo as ondas.
Por sorte, nunca sofri de enjoos; se não estava
bem arranjado...
O
deserto não era só de areia, mas também de pedras.
Estamos
num ângulo do Sahara, só no início; e o fascínio do deserto é envolvente.
Procede-se entre dunas e rochas que selam sítios rupestres
com incisões de bovinos, fauna selvagem e personagens,
testemunhos de uma vida possível até há
dois mil anos atrás.
De
vez em quando encontram-se leitos de
antigos rios, nos quais desponta uma
fraca vegetação.
Naquele
ponto os camelos pararam para pastar; não há nada a fazer, é só preciso esperar
a comodidade dos camelos.
Cada
camelo tem um odre de água; assim, quem tem sede, pode servir-se à vontade.
Eu
bebia pouquíssimo, porque além de a água estar quente tinha um sabor estranho.
Encontrámos
pouquíssimos poços.
Os
poços são o ponto de encontro privilegiado pelos nómadas e constituem
quase
a única possibilidade de sobrevivência
para poucos animais.
Acampámos entre as dunas do erg Jdiriya e armaram-se as
tendas.
Para mim,
para o Emir e outros dignitários, foi armada uma grande tenda
branca com riscas vermelhas e verdes no interior, e era usada quer para
comer quer para dormir.
De
dimensões enormes podia-se estar muito bem em pé.
Havia
tapetes, almofadas, lençóis e cobertores, mesinhas e banquinhos.
Ao
lado havia uma tenda duche e wc.
A comida era
quase sempre à base de couscous, carne de carneiro e doces; para beber, o indispensável chá de hortelã.
Fora
ouvia-se tocar, cantar e às vezes até dançar.
Em
qualquer oásis, além dos habitantes, havia raparigas que nos alegravam com as
suas danças.
A
cada paragem, em oásis diferentes, parecia que a notícia da minha chegada nos
tinha precedido, dado que ao chegar, me ofereciam presentes e até às vezes raparigas para passarem a
noite comigo.
Os
presentes aceitava, as raparigas não.
Por
vezes pareciam crianças.
Quem
sabe o que pensavam de mim.
Estava
tão cansado, que até me
custava a comer
ou a assistir a qualquer cerimónia; mal podia esperar a hora de me estender e dormir um
longo sono; qual quê raparigas!...
Os
dias passavam sempre iguais.
Antes de
iniciar a viagem,
os árabes estendiam os seus mantos ou tapetes e em pé ou de joelhos
rezavam.
As
suas orações, nunca mais acabavam; às vezes duravam mais de meia hora, parecia
que não tinham pressa de chegar.
Depois
oravam de novo, durante o dia e à noite antes de dormir.
E
eu ficava de parte a observar.
Depois
do erg Jdiriya, parámos no Ksar de Boukra, depois no oásis de Guelta Zemmur.
Agora,
já me tinha habituado; já não me interessava a paisagem; não via a hora de chegar a Akaba.
As
pistas ( quando haviam ) perdiam-se na distância,
no meio de
uma interminável pedreira com, aos
lados, montes por vezes de cor castanha, ou rosa ou amarelo ovo.
Fazia
calor de dia e frio de noite.
Como
suava de dia tremia de noite.
Depois
de não sei quantos dias ( já tinha perdido a conta ), chegámos.
É
tudo verdejante; altas palmeiras, campos de erva de cor verde esmeralda.
Algumas
casas de terra
de cor vermelho fogo
e muitas crianças
que se perseguem brincando.
A
gente adulta trabalhava no campo.
Fez-me
uma certa impressão ver cavaleiros passarem entre eles e às vezes baterem-
-lhes
com o chicote.
Como
tinha aprendido algumas palavras em árabe, perguntei ao Emir quem eram; ele
respondeu calmamente que eram escravos.
Fiquei
estupefacto.
Como
é possível nos dias de hoje?
Eram
de várias raças; negros, amarelos e brancos.
À
chegada da caravana, pararam.
Como
de costume, tinham sido prevenidos da minha chegada; todos me esperavam.
Era
inconfundível.
Para
a ocasião tinham-me feito vestir uma rica veste toda bordada a ouro com um
turbante de várias cores.
Em
resumo, era mesmo inconfundível.
À
minha passagem estendiam folhas de palma ou tapetes.
Tinha
sido espalhada a notícia da minha chegada; deviam saber que eu estava lá, para pôr fim à tirania do Emir Abdullahi.
Quem
estava a trabalhar, interrompia, para me saudar, sorrindo.
Sempre
cavalgando, chegámos à vista da cidade de Akaba.
Chegados
a uma distância de pelo menos 500 metros, o Emir alçou a mão fazendo sinal para parar.
Quando
a caravana parou, o Emir mandou-me à frente para fazer abrir as portas.
Ora
eu tinha visto muito bem, sobre a muralha, numerosos soldados armados de longas
carabinas.
Como
sucedeu a Marrakech por ocasião da Fantasia, sabia bem que aqueles soldados me dariam uma calorosa
recepção de boas vindas.
A
200 metros, fiz ajoelhar o camelo e desci da cavalgadura.
Não
queria sacrificar o camelo.
E...
encaminhei-me na direcção das portas da cidade.
A
100 metros começaram a disparar.
Até
aos 50 metros as balas passavam rés vês.
Depois
encontrei uma verdadeira muralha.
Quanto
mais queria andar para a frente, mais me empurrava para trás.
Não
sei quanto durou o fogo.
De
repente tudo parou.
Estava
todo esfarrapado, não tinha o turbante, mas estava ileso.
Estava
escrito!
Fiz
um gesto como se estivesse atirando qualquer coisa.
Fiquei
com o braço estendido para a porta.
Como
se fosse um sinal, as portas abriram-se.
O
Emir Abd Muhammad Al-Malik aproximou-se com o meu camelo.
Fi-lo
ajoelhar, saltei-lhe para a garupa e acompanhado pelo Emir, entrei na cidade
Akaba.
Como
tinha sucedido à chegada, estendiam os tapetes para que pudesse caminhar e
todo o povo se ajoelhou com a fronte no
solo.
Dirigimo-nos
para o palácio real.
Também
ali, a mesma coisa.
Entrámos e o Emir, como se conhecesse o caminho,
conduziu-me a um grande quarto.
Esperava-me
uma profusão de servos.
Despiram-me
dos farrapos que me cobriam e lindíssimas raparigas conduziram-
-me
a uma grande banheira repleta de água perfumada com alfazema.
Lavaram-me
o corpo como se fosse um recém-nascido.
De
seguida perfumaram-me como uma mulher e vestiram-me roupa de seda, muito
sumptuosa.
Na
cintura tinha uma cimitarra, cujo punho era cravejado de pedras preciosas, como
se fosse um rei ou um califa.
Depois
fui acompanhado a uma sala onde estava preparado um banquete em minha honra.
Acomodei-me à
direita, onde estava o Emir
Ebd Muhammad Al-Malik e os seus dignitários.
No
lado oposto , estava o Emir Abdullahi e
os seus esbirros.
Serviram-nos
comida, e de vez em quando, Abdullahi fazia um discreto sinal.
E
como se não o tivesse visto, aproximava-se de mim um servo com um cálice de
cidra.
Embora
tivesse um defronte de mim, aceitava e depois de ter feito um sinal de saúde,
bebia um golo.
"
Buono. migliore di quello che ho bevuto sinora " - É bom, é melhor do que
bebi até agora, disse eu em italiano.
Eles
não me compreendiam, como muitas vezes não os compreendia eu.
Perguntei
a Al- Malik se me podiam facultar um intérprete italiano.
Falaram
bastante entre eles, mas por fim mandaram chamar alguém.
Entrou
na sala um homem claro, que aproximando-se de mim se apresentou como Doutor
Mário Serra.
Ao
que eu disse:" Prazer em conhecê-lo ".
Perguntei-lhe
se me podia dizer alguma coisa acerca do Emir Abdullahi.
Respondeu-me:
" É o homem mais cruel e mais malvado que já conheci; tem prazer em abusar
de crianças; e quando não encontra estrangeiras, abusa daquelas do povo: é
odiado e temido por todos. Um só pensamento negativo contra ele, e faz empalar
quem lhe aparece à frente."
Já
tinha notado duas lindas crianças
sentadas no seu colo.
Falámos
mais um pouco e disse-lhe que não sabia o que me estava a suceder.
Contei-lhe
do cruzeiro no rio Oum er Draa, do salvamento do Emir Al-Malik e de tudo o que
se estava a passar comigo até àquele momento; mostrei-lhe a taça de cidra,
dizendo-lhe que certamente estava envenenada.
Ele
não sabia se devia acreditar ou não, por isso chamei um servo e estendendo-lhe
a taça disse-lhe, através do intérprete, para beber.
O
escravo recuou cheio de medo; eu sorrindo, disse-lhe para não ter medo; era só
uma taça de cidra.
Ele,
mesmo assim, recusou beber.
A
um meu sinal, dois dos tuaregues que nos tinham escoltado, agarraram o infeliz
e obrigaram-no a beber o conteúdo da taça.
Como
era de prever, o servo caiu por terra e contorcendo-se com dores, alguns
segundos depois morreu.
"O
que é que eu tinha dito?" disse eu ao doutor.
Vendo
que com o veneno tinha falhado, o Emir Abdulahi fez trazerem-me
um vaso de terracota, dizendo que continha pedras preciosas que me oferecia.
O
vaso estava coberto com um pano.
Voltando-me
para o doutor disse: " Decerto está cheio de serpentes venenosas; queres
tu meter a mão?"
O
doutor que tinha visto o efeito da cidra, recusou.
Então,
como se não
soubesse o que continha, tirei o pano e meti lá dentro a mão direita.
Sentia
pedras, mas também sentia serpentes.
Querendo
fazer um pouco de teatro, lancei um urro e caí dobrado em cima das almofadas.
Como
tinha imaginado o Emir Abdullahi aproximou-se com um ar de triunfo, enquanto o
Emir Al-Malik empalidecia.
Tinha
ainda na mão o vaso e quando o Emir se
aproximou para constatar a minha morte, lancei-lhe para a cara uma grande
serpente.
Teve
sorte que não o apanhei; a serpente mordeu um seu dignitário que morreu
em seu lugar.
"
É pena não o ter apanhado, teria acabado a ditadura " disse eu.
Pouco
depois tudo voltou à normalidade.
Continuámos
a comer e a beber.
Enquanto
comíamos e bebíamos, músicos e bailarinas divertiam-nos com as suas actuações
A
uma certa altura entraram na sala cerca de dez crianças, de diversas raças,
qual delas a mais bonita.
Movendo-se
ao som dos instrumentos, puseram-se a dançar.
Não
tinham a classe das anteriores, mais velhas, mas os seus movimentos graciosos
inspiravam ternura.
Quando
a dança acabou. Abdullahi mandou-me dizer que escolhesse com quem me queria
distrair.
Mas,
aquele ali, pensava que eu era pedófilo?
Levantei-me
do banco onde estava sentado, e acompanhado do meu intérprete,
aproximei-me de Abdullahi, dizendo que aceitava a sua oferta, mas queria sob a
minha protecção todas as crianças do reino.
O
Emir ouvindo isto, fez o gesto de levantar-se enfurecido.
Mas
eu, mais rápido que um relâmpago, tirei a cimitarra e dei um golpe.
Não
lhe toquei, mas o tabuleiro de cobre que tinha à sua frente e a mesinha,
partiram--se em dois, como se fossem de manteiga.
Estendi
as mãos e as meninas que tinha no colo, correram para mim.
Voltei
para o meu lugar, rodeado de tantos anjinhos.
Desde
aquele dia as coisas começaram a mudar em Akaba.
Por
onde quer que andasse, quando me cruzava com um árabe, este inclinava-se
chamando-me al -Allama que quer dizer " o salvador ".
Desde
a primeira vez que
dormi em Akaba, ao acordar , de manhã ou
de noite, encontrava sempre na minha cama, uma cobra venenosa. Mas...a mim…não me
fazia nada.
No
dia a seguir à primeira noite, quando entraram os servos para me vestirem ou verem se me estava morto, ficaram estupefactos, vendo-me a brincar com uma cobra.
Mas
fugiram a sete pés quando a cobra se dirigiu para eles.
Tornámo-nos;
ou por outra, foi amor à primeira vista, quando descobri que era fêmea; dei-lhe o nome de Sara.
Sara
seguia-me por onde quer que andasse, como se em vez de uma cobra fosse uma cadela.
No
princípio , todos se afastavam de mim; mas depois, viram que, se dizia a Sara
para estar sossegada, ela não mordia.
Com
Sara falava em italiano, e quando lhe dizia palavrinhas doces, roçava-se contra
a minha cara para receber beijos.
Pelo
doutor Serra tinha vindo a saber dos escravos.
A
maioria eram turistas que se tinham aventurado no deserto; outros
especialmente raparigas ou crianças, tinham sido raptadas em várias partes do
mundo.
Perguntei-lhe
desde quando se encontrava em Akaba como escravo; ele respondeu que já tinham
passado cinco anos, desde que fora capturado no Sahara ocidental.
Estava
com a mulher
e um grupo de amigos.
Tinham
ido para o Sahara depois de terem sido
convencidos pelo guia do Hotel de Rabat.
Tinha-lhes
dito que encontrariam maravilhas, uma
cidade cujos habitantes viviam como há dois mil anos.
Com
entusiasmo tinha seguido o guia; e uma noite
foram capturados, vendados e conduzidos a Akaba.
Qual
cidade antiga! Tinham encontrado correntes e pancadas! Da sua mulher e das
outras, não tinha sabido mais nada, quem sabe, que fim teriam tido!
Dado
que era como se eu fosse o Califa, obedeciam-me em tudo o que pedia: como suspender
os castigos fosse a quem fosse.
É
lógico que a coisa não poderia durar muito mais tempo: tinha conseguido escapar
a muitos atentados à minha vida.
O
Emir Abdullahi já não sabia que inventar para dar cabo de mim. Acabou mal (para ele!).
Um
dia quando acordei, não encontrei Sara, a cobra, a meu lado; não liguei e
pensei
"
Estará a dar a volta a um cobra ", e não me zanguei.
Quando
pedi que me selassem Milady, a minha égua, não encontrei a escolta à minha espera, como de costume.
Nem sequer o Doutor Serra.
Assim,
montei a cavalo e andei às voltas pela cidade.
Ah!
esqueci-me de dizer que em Akaba não havia nada de moderno; nem electricidade,
nem gás, nem automóveis, motos ou bicicletas.
Realmente
era como viver no passado.
As
caravanas traziam os produtos que lá não se produziam; além disso traziam novos
escravos; que eram pagos com ouro e com
sal.
Assim,
ou se andava a pé ou a cavalo.
Enquanto
eu passeava sozinho, dei de frente com o Emir Abdullahi.
Estava
só; pelo menos assim parecia: cumprimentou-me à maneira árabe.
Coloquei
a mão sobre o punho da cimitarra, mas ele mostrou que não trazia armas. Relaxei-me,
e ele disse que queria falar comigo; aceitei.
Desceu
da sela e eu fiz o mesmo.
Sugeriu
que eu deixasse a cimitarra presa à sela;
e eu, não vendo armadilha nisso, assim fiz.
Da
sua cavalgadura, tirou o necessário para preparar o chá.
Sentando-se
no chão, pôs água a aquecer num fogãozinho a álcool.
Eu
estava tão absorvido na operação, que não dei conta do desaparecimento do meu
cavalo.
Reparei
somente quando vi os guardas do Emir.
Olhei
à volta: estava rodeado, e desarmado, Abdullahi olhava para mim com um sorriso
malévolo.
Um
guarda aproximou-se e deu-lhe a minha cimitarra.
Ele
aferrou-a e apontou-a contra mim.
"Prepara-te
a morrer, cão infiel." Levantou a
cimitarra e, como por encanto, chegou uma tromba de areia, e não se via um
palmo diante do nariz.
Ouvi
gritos, murmúrios, lamentos.
Não
sei quanto durou; e como começou assim acabou.
Todos
os guardas estavam por terra, em várias posições, mas todos mortos, assim como
estava morto o Emis Abdullahi trespassado pela minha cimitarra.
Quem
o matou?
Milady
estava a meu lado.
Extraí
a cimitarra do corpo de Abdullahi e com ela decapitei-o.
Recolhi
uma lança e espetei a cabeça do Emir; e montando em sela, dirigi-me ao palácio
real.
Quando
passava e a gente via o que levava na lança, davam saltos de alegria, porque
sabiam que a tirania tinha acabado.
Com
a tirania acabou a escravatura; e todos puderam voltar para as suas casas,
livres e felizes.
E
eu acordei...com um lindo sorriso!

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