domingo, 8 de setembro de 2013

Sonho n.2 A sombra do Emir ano 2006


Não sei como, nem porquê, fui a Marrocos.
O que é certo é que estava em Marrocos, mais precisamente em Marrakech.
De Marrakech, eu com um grupo de turistas, dirigimo-nos a Quarzazate para  
depois embarcarmos para um cruzeiro no rio Oum er Draa, chamado também o
Nilo do Sul.
Enquanto subíamos o rio e os turistas tiravam fotografias aos barcos,  que cruzávamos e aos crocodilos, fui atraído por qualquer coisa ,que acontecia no rio. Era num barco; não percebi bem o que aconteceu, mas a um certo momento, alguém caiu à água.
Quando aquela pessoa caiu na água, um crocodilo  dirigiu-se  na sua direcção.
Naquela mesma  altura, um criado passava com um tabuleiro de queijos com uma faca.
Sem pensar duas vezes, como se fosse um " Indiana Jones ", agarrei a faca, pu-la entre os dentes e atirei-me borda fora.
Quando caí na água, nadei desesperadamente até ao crocodilo que se dirigia
para a presa; mas, quando me coloquei à sua frente, o crocodilo abriu a boca para me comer. Tinha-se enganado: enfiei-lhe a faca na boca, com a ponta para cima e, quando a fechou, ficou espetado.
Podeis imaginar a dor que sentiu;  no entanto tinha mais em que pensar,  pois  os outros crocodilos aproveitando a ocasião, atiraram-se a ele e comeram-no.
Deixando o crocodilo ao seu triste destino, dirigi-me ao desgraçado ou desgraçada,  e aproximando-me vi que era um velho homem.
Ajudei-o a manter-se  a boiar até que de um outro barco o puxaram para bordo.
Também o barco do cruzeiro tinha parado; e ajudado por uma escada de corda subi a bordo.  
Os  participantes  do  cruzeiro  aplaudiram-me  pelo  meu  gesto, enquanto o casal italiano Salvatore e Romina, me faziam perguntas do género: " Porque é que fizeste isto? Podias morrer! "
" Não sei o porquê; provavelmente estava escrito ".
O comandante fez-me descer para mudar a roupa encharcada; ofereceu-me uma veste certamente sua, à moda árabe.
Então sucedeu-me uma coisa estranha: conseguia perceber tudo o que dizia o capitão e a equipagem.
O que ouvi foi: " Isto é verdadeiramente o acontecer de uma profecia. Que Allah seja louvado!"
Fi-lo notar a Salvatore, perguntando-lhe se por acaso falava árabe.
Disse qualquer coisa ao criado; ele não percebeu; e assim soube ter falado italiano.
Continuámos o cruzeiro, até às cascatas  de Setti Fatma que são famosas.
Depois voltámos para Marrakech.
No hotel, esperava-nos um árabe: disse ao guia que tinha um convite para mim, da parte da pessoa que eu tinha salvo.
Era convidado a participar num  jantar especial, numa casa particular.
Não me apetecia ir sozinho; assim perguntei ao guia se podia levar dois amigos.
O guia traduziu; houve uma troca de palavras, e o guia disse que não.    
Por isso recusei o convite e o guia quis saber porquê.
E eu respondi: " Ou levo os meus companheiros ou não se faz nada; nem que fosse o Rei."
O guia traduziu de novo, palavras e mais palavras.
No fim levei comigo Salvatore e Romina.
Para a ocasião, vesti o melhor fato que tinha levado.
No caminho, comentei com  Salvatore: " Certamente oferecer-me-ão dinheiro; mas recusarei quanto for."
Chegámos a um dos mais belos palácios que vi até hoje.
Soube que se tratava  do Palácio  El Badi, construído entre 1578 e 1593, que era a mais bela construção do mundo árabe, logo a seguir ao Palácio Real.
O salão era imenso, estava imensa gente, a maioria árabe e lindas mulheres.
O jantar foi sumptuoso, comíamos sentados  em almofadas, com as pernas cruzadas, e com mesas baixinhas.
Uma outra coisa curiosa: quando chegavam os servidores, primeiro  serviam um lado do salão e depois dirigiam-se a mim e serviam-me.
Fiz notar isto ao guia, que me respondeu que eu era um convidado de honra.
Quando nos serviram o vinho, ao contrário dos meus companheiros, recusei beber, limitando-me  a bebidas sem álcool  e chá de hortelã.
Havia grupos musicais, dançarinos, e dançarinas que se  exibiam na dança do ventre, numa atmosfera das " Mil e uma noites ".
No fim,  sentia-me cheio como um odre, tanto que recusei todos os outros acepipes seguramente deliciosos.
Vendo que recusava aquilo que me serviam, um servo apresentou-me um volumoso envelope.   
Abrindo-o, mostrei o conteúdo a Salvatore e devolvi-o ao criado, pedindo ao guia que traduzisse: " O que fiz está feito, não o fiz para receber nenhuma  recompensa; tê-lo-ia feito por qualquer  um ".
Embora não tivesse traduzido o que eu disse, pelo menos, não falou mal.
Pouco depois  aproximou-se um grupo de pessoas;  pareciam Príncipes, pela forma como estavam vestidos.
Chegados perto de nós reconheci, entre eles, o velho que tinha salvado.
Inclinando-se perante mim, começou a agradecer-me o tê-lo salvo.
Disse-me  que tudo aquilo que tinha feito até agora, estava escrito.
Eu era o homem que esperavam à século.
Convidou-me para no dia seguinte assistir à Fantasia; aceitei de bom grado. 
Já tinha ouvido falar e lido em várias revistas: tratava-se  de uma cerimónia de guerra, que consistia em vários grupos opostos, representados pelos melhores cavaleiros, que disparavam fuzis, todos ao mesmo tempo.
É um dos espectáculos mais representativos de Marrocos; e, durante a Fantasia pode-
-se apreciar pratos típicos como a Harira, il Mechouiou ou o Couscous.
Quando voltámos para o hotel, Salvatore e Romina falaram com os outros companheiros de viagem, contando-lhes.
Todos me diziam : " Cheio de sorte! "   
Mas eu expliquei: « A Fantasia era em minha honra, e com a ocasião far-me-iam a festa.”
" Então não estás contente?  Festejar-te-ão!..."
Assim chamei um senhor siciliano de nome Caetano e pedi-lhe para explicar o que queria dizer fazer-me a "festa".
Ele explicou: " Na Sicília, quando  se quer fazer a "a festa " a alguém, quer dizer  que se procurará matar esse alguém ".
" Porque  é que te quereriam matar? "
" Para ver se sou aquele da profecia; se sou, as balas não me tocarão, se não... deixo a vós a conclusão ".
" Então não vás!"
" Seria falta de educação, dado que aceitei. Se me quiserem fazer companhia, são meus convidados ".                        
Como era natural, recusaram todos, excepto Salvatore e Romina.
Na noite seguinte, dado que a Fantasia se desenrola sempre de  noite, fui ao encontro acompanhado de Salvatore e Romina.
Não se via bem o local, parecia uma arena, tipo o Circo Massimo de Roma.
O espaço era iluminado com tochas; havia muitas tendas e  cada uma estava cheia de gente, principalmente árabes.
Havia também estrangeiros certamente turistas,  a assistir à Fantasia.
Na Curva Sul ( aquela dos Romanistas ), havia uma grande tenda.
Estava isolada das outras, com um grande espaço aberto nos dois lados.
Muito iluminada, parecia a tenda dum Rei.
Estava presente o Emir  Abd Muhammad Al-Malik ( o velho senhor que tinha  salvado dos crocodilos ) e tantos outros alto dignitários do Emir.
Mandaram-me sentar ao centro da mesa, se assim se pode chamar a tantas mesinhas, encostadas umas às outras!
Começou-se a comer e a beber ( eu, limitava-me ao chá ).
Enquanto  se  comia,  sem  eles saberem, eu ouvia e compreendia tudo o que diziam sobre mim.
Depois chegaram os cavaleiros.
Desfilaram diante da nossa tenda, e a mim, pareceu-me, que me olhavam como a um alvo.
Cada um pensava ser  aquele que faria a pontaria certa.
Começaram a Fantasia, e pouco depois, discretamente, os árabes  que estavam comigo, afastaram-se; então nessa altura, disse a Salvatore e Romina  para fazerem o mesmo.
Romina tinha lágrimas nos olhos; previa o pior.
Calmo, sem mostrar nervosismo ou medo, continuei a comer.
Vi os cavaleiros virem na direcção da Curva Sul e preparei-me  para a passagem para o outro mundo.
Começaram  a assobiar as  balas, tudo o que era acertado em cheio, voava em mil pedaços; era pior que granizo.
Também o meu fato apanhou. As balas sibilavam perto das minhas orelhas, debaixo dos braços, sobre a cabeça, os ombros, as costas, etc...etc...
Durou um átimo, que pareceu uma eternidade, depois, os cavaleiros, que não tinham abrandado a corrida, passaram pelo outro lado e desapareceram.
Aquilo que inicialmente era uma linda tenda, era agora uma ruína.
Tudo  estava  em  pedaços;  as mesinhas entalhadas, o vasilhame de cobre, as lâmpadas, as taças, as almofadas, tudo.
Só eu fiquei ileso; em farrapos, mas ileso, sem um arranhão.
Os árabes e os meus companheiros, aproximaram-se de mim e olhavam-me incrédulos.     
Os  árabes  prostraram-se  aos  meus  pés.
Salvatore  e  Romina  em  pé,  não  acreditavam nos seus olhos.
Com o meu " savoir faire " pedi chá.
O Emir disse: " Era como estava escrito, é ele o homem que nos libertará do tirano ".
Fazendo traduzir as palavras, disse que tinha que ir com ele à cidade de Akaba.
Para mim, agora tudo podia ser; não morri na Fantasia, não seria morto onde quer que fosse.
Acompanharam-nos de novo ao Riad Caravan Serai e podem imaginar o espanto que suscitou a história do sucedido, contado por Salvatore e Romina. 
Todos se aproximavam  e  tocavam-me  e  interrogavam-me;  e  eu,  da  minha  parte, limitava-me a dizer: " Estava escrito ".
A palavra Akaba fazia medo a quem pedia informações; primeiro ficavam pálidos e depois diziam que não sabiam nada.
Que mistério escondia a cidade de Akaba?
Todos os participantes  do " tour " queriam ir a Akaba; pediam a Alid Salem , o nosso guia, para nos levar até lá.
No início ele hesitou; mas depois aceitou conduzir-nos até Akaba.
Numa conversa  entre Ali e Mohamed Ahmed, percebi o porquê: seríamos vendidos todos como escravos ao Emir de Akaba.
Referi a Salvatore o que tinha ouvido; e embora não me tivessem  acreditado completamente, renunciaram por precaução.
Alguns dias depois, apresentaram-se no Riad cinco imponentes carros, com o Emir e mais pessoas; vinham buscar-me.
Salvatore e Romina queriam ir também, mas dissuadi-os contando-lhes a visão que tivera  de noite.
Ficaram impressionados pelo que lhes disse, e renunciaram eles também.
Partimos então de Marrakech por Quarzazate; parámos  para o almoço na residência do Paxá Glaoli.
Prosseguimos para Zagora, onde pernoitámos num Riad de luxo.
Na manhã seguinte, depois de uma lauta refeição (parecia um almoço de festa), apanhámos a estrada para Forum-Zguid e Tata, onde parámos para almoçar.
Continuámos por Forum- el-Hassan e passámos a noite em Guelmima num Hotel, casa-fortaleza.
Chegados a Yartaya, entrámos no Saara Ocidental.
Em Hawza, esperava-nos uma caravana de camelos e dromedários.
Quando deixámos Marrakech, tinham-nos aconselhado  a vestir à moda árabe, para estar mais à vontade com os outros ou para me confundir no meio deles.
Tinha uma túnica de lã às riscas vermelhas e amarelas, que  me dava pelo meio das pernas, e era aberta dos dois lados para maior comodidade.
Os calções eram claros ( sempre de lã ), assim como as meias.
Nos pés, em vez dos meus sapatos, tinha sandálias: de dia, as solas eram de folha de palma, à noite eram de couro.
Eram fechadas com atacadores de pele atados à volta dos tornozelos.
À noite, estando mais frio, vestia uma túnica de lã espessa; quando se saía, vestia-se um manto do mesmo tecido.
O mesmo manto era usado como cobertor, assento ou para cobrir a sela.
Durante as orações ( os árabes rezam cinco vezes ao dia ) usavam-no como tapete.
O que usavam para proteger do sol, a cabeça, os olhos e o pescoço, era feito de um quadrado de lã branca, posto com uma prega sobre a  fronte e com um círculo de lã entrançada, que o ajudava a segurar-se , enquanto as extremidades  protegiam o pescoço.
Eu, só o usava quando saía do carro, pois lá dentro havia ar condicionado.
Entrados do Saara Ocidental prosseguimos para Hawza, onde acabou a estrada,  que até ali era asfaltada, e, começou a areia.
Em  Hawza esperava-nos uma caravana.
A caravana parecia não ter fim: havia cavalos e camelos. Os cavalos eram da escolta armada.
Éramos escoltados por cerca de cinquenta tuaregues.
Os tuaregues são também chamados " homens azuis ", não pela cor da sua pele, mas sim pelas suas vestes, que são azuis para se confundirem com a noite.
Aconselharam-me a subir para um camelo.
Normalmente os camelos têm  duas bossas, aqueles africanos têm só uma. 
A bossa  não era rígida, movia-se com o andamento do camelo e do terreno; parecia  estar  num barco que se   baloiçava segundo as ondas.
Por  sorte, nunca sofri de enjoos; se não estava bem arranjado...
O deserto não era só de areia, mas também de pedras.
Estamos num ângulo do Sahara, só no início; e o fascínio do deserto é envolvente.
Procede-se  entre dunas e rochas que selam  sítios  rupestres  com  incisões de bovinos, fauna selvagem e personagens, testemunhos de uma vida possível   até há dois mil anos atrás.
De vez em quando encontram-se leitos de  antigos rios, nos quais desponta  uma fraca vegetação.
Naquele ponto os camelos pararam para pastar; não há nada a fazer, é só preciso esperar a comodidade dos camelos.
Cada camelo tem um odre de água; assim, quem tem sede, pode servir-se à vontade.
Eu bebia pouquíssimo, porque além de a água estar quente tinha um sabor estranho.
Encontrámos pouquíssimos poços.
Os poços são o ponto de encontro privilegiado pelos nómadas  e constituem
quase a única possibilidade  de sobrevivência para poucos animais.
Acampámos  entre as dunas do erg Jdiriya e armaram-se as tendas.
Para  mim,  para o Emir e outros dignitários, foi armada uma  grande  tenda branca com riscas vermelhas e verdes no interior, e era usada quer   para   comer quer para dormir.
De dimensões enormes podia-se estar muito bem em pé.
Havia tapetes, almofadas, lençóis e cobertores, mesinhas e banquinhos.
Ao lado havia  uma tenda duche e wc.
A  comida  era  quase sempre  à base de couscous, carne de carneiro e  doces; para  beber, o indispensável chá de hortelã.
Fora ouvia-se tocar, cantar e às vezes até dançar.
Em qualquer oásis, além dos habitantes, havia raparigas que nos alegravam com as suas danças.
A cada paragem, em oásis diferentes, parecia que a notícia da minha chegada nos tinha precedido, dado que ao chegar, me ofereciam presentes  e até às vezes raparigas para passarem a noite comigo.
Os presentes aceitava, as raparigas não.
Por vezes pareciam crianças.
Quem sabe o que pensavam de mim.
Estava  tão  cansado, que   até  me  custava  a comer  ou a assistir a qualquer cerimónia; mal podia  esperar a hora de me estender e dormir um longo sono; qual quê  raparigas!...
Os  dias  passavam  sempre  iguais.  
Antes  de  iniciar   a  viagem,  os árabes estendiam os seus mantos ou tapetes e em pé ou de joelhos rezavam.
As suas orações, nunca mais acabavam; às vezes duravam mais de meia hora, parecia que não tinham pressa de chegar.
Depois oravam de novo, durante o dia e à noite antes de dormir.
E eu ficava de parte a observar.
Depois do erg Jdiriya, parámos no Ksar de Boukra, depois no oásis  de Guelta Zemmur.
Agora,  já me tinha habituado;  já não me interessava  a paisagem;  não via a hora de chegar a Akaba.
As  pistas  ( quando  haviam )  perdiam-se  na  distância,  no  meio  de  uma interminável pedreira com, aos lados, montes por vezes de cor castanha, ou rosa ou amarelo ovo.
Fazia calor de dia e frio de noite.
Como suava de dia tremia de noite.
Depois de não sei quantos dias ( já tinha perdido a conta ), chegámos.
É tudo verdejante; altas palmeiras, campos de erva de cor verde esmeralda.
Algumas  casas  de  terra  de  cor  vermelho  fogo  e  muitas  crianças  que  se perseguem  brincando.
A gente adulta trabalhava no campo.
Fez-me uma certa impressão ver cavaleiros passarem entre eles e às vezes baterem-
-lhes com o chicote.
Como tinha aprendido algumas palavras em árabe, perguntei ao Emir quem eram; ele respondeu calmamente que eram escravos.
Fiquei estupefacto.
Como é possível nos dias de hoje?
Eram de várias raças; negros, amarelos e brancos.
À chegada da caravana,  pararam.
Como de costume, tinham sido prevenidos da minha chegada; todos me esperavam.
Era inconfundível.
Para a ocasião tinham-me feito vestir uma rica veste toda bordada a ouro com um turbante  de várias cores.
Em resumo, era mesmo inconfundível.
À minha passagem estendiam folhas de palma ou tapetes.
Tinha sido espalhada a notícia da minha chegada; deviam saber que eu estava  lá, para pôr fim à tirania do Emir Abdullahi.
Quem estava a trabalhar, interrompia, para me saudar, sorrindo.
Sempre cavalgando, chegámos à vista da cidade de Akaba.
Chegados a uma distância de pelo menos 500 metros, o Emir  alçou a mão fazendo sinal para parar.
Quando a caravana parou, o Emir mandou-me à frente para fazer abrir as portas.
Ora eu tinha visto muito bem, sobre a muralha, numerosos soldados armados de longas carabinas.
Como sucedeu a Marrakech por ocasião da Fantasia, sabia bem  que aqueles soldados me dariam uma calorosa recepção de boas vindas.
A 200 metros, fiz ajoelhar o camelo e desci da cavalgadura.
Não queria sacrificar o camelo.
E... encaminhei-me na direcção das portas da cidade.
A 100 metros começaram a disparar.
Até aos 50 metros  as balas passavam  rés vês.  
Depois encontrei  uma verdadeira muralha.      
Quanto mais queria andar para  a  frente, mais me empurrava para trás.   
Não sei quanto durou o fogo.
De repente tudo parou.
Estava todo esfarrapado, não tinha o turbante, mas estava ileso.
Estava escrito!
Fiz um gesto como se estivesse atirando qualquer coisa.
Fiquei com o braço estendido para a porta.
Como se fosse um sinal, as portas abriram-se.
O Emir Abd Muhammad Al-Malik aproximou-se com o meu camelo.
Fi-lo ajoelhar, saltei-lhe para a garupa e acompanhado pelo Emir, entrei na cidade Akaba.
Como tinha sucedido à chegada, estendiam os tapetes para que pudesse caminhar e todo  o povo se ajoelhou com a fronte no solo.
Dirigimo-nos para o palácio real.
Também ali, a mesma coisa.
Entrámos  e o Emir, como se conhecesse o caminho, conduziu-me a um grande quarto.
Esperava-me uma profusão de servos.
Despiram-me dos farrapos que me cobriam e lindíssimas raparigas conduziram-
-me a uma grande banheira repleta de água perfumada com alfazema.
Lavaram-me o corpo como se fosse um recém-nascido.
De seguida perfumaram-me como uma mulher e vestiram-me roupa de seda, muito sumptuosa.
Na cintura tinha uma cimitarra, cujo punho era cravejado de pedras preciosas, como se fosse um rei ou um califa.
Depois fui acompanhado a uma sala onde estava preparado um banquete em minha honra.
Acomodei-me  à  direita,  onde estava o  Emir  Ebd  Muhammad Al-Malik   e os seus dignitários.
No lado oposto , estava o Emir Abdullahi  e os seus esbirros.
Serviram-nos comida, e de vez em quando, Abdullahi fazia um discreto sinal.
E como se não o tivesse visto, aproximava-se de mim um servo com um cálice de cidra.
Embora tivesse um defronte de mim, aceitava e depois de ter feito um sinal de saúde, bebia um golo.
" Buono. migliore di quello che ho bevuto sinora " - É bom, é melhor do que bebi até agora, disse eu em italiano.
Eles não me compreendiam, como muitas vezes não os compreendia eu.
Perguntei a Al- Malik se me podiam facultar um intérprete italiano.
Falaram bastante entre eles, mas por fim mandaram chamar alguém.
Entrou na sala um homem claro, que aproximando-se de mim se apresentou como Doutor Mário Serra.
Ao que eu disse:" Prazer em conhecê-lo ".
Perguntei-lhe se me podia dizer alguma coisa acerca do Emir Abdullahi.
Respondeu-me: " É o homem mais cruel e mais malvado que já conheci; tem prazer em abusar de crianças; e quando não encontra estrangeiras, abusa daquelas do povo: é odiado e temido por todos. Um só pensamento negativo contra ele, e faz empalar quem lhe aparece à frente."
Já tinha notado duas lindas crianças  sentadas no seu colo.
Falámos mais um pouco e disse-lhe que não sabia o que me estava a suceder.
Contei-lhe do cruzeiro no rio Oum er Draa, do salvamento do Emir Al-Malik e de tudo o que se estava a passar comigo até àquele momento; mostrei-lhe a taça de cidra, dizendo-lhe que certamente estava envenenada.
Ele não sabia se devia acreditar ou não, por isso chamei um servo e estendendo-lhe a taça disse-lhe, através do intérprete, para beber.
O escravo recuou cheio de medo; eu sorrindo, disse-lhe para não ter medo; era só uma taça de cidra.
Ele, mesmo assim, recusou beber.
A um meu sinal, dois dos tuaregues que nos tinham escoltado, agarraram o infeliz e obrigaram-no a beber o conteúdo da taça.
Como era de prever, o servo caiu por terra e contorcendo-se com dores, alguns segundos depois morreu.
"O que é que eu tinha dito?" disse eu ao doutor.
Vendo  que com  o veneno  tinha falhado, o Emir Abdulahi  fez  trazerem-me um vaso de terracota, dizendo que continha pedras preciosas que me oferecia.
O vaso estava  coberto com um pano.
Voltando-me para o doutor disse: " Decerto está cheio de serpentes venenosas; queres tu meter a mão?"
O doutor que tinha visto o efeito da cidra, recusou.
Então,  como  se  não soubesse o que continha, tirei o pano e meti lá dentro a mão direita.
Sentia pedras, mas também sentia serpentes.
Querendo fazer um pouco de teatro, lancei um urro e caí dobrado em cima das almofadas.
Como tinha imaginado o Emir Abdullahi aproximou-se com um ar de triunfo, enquanto o Emir Al-Malik empalidecia.
Tinha ainda na mão o vaso  e quando o Emir se aproximou para constatar a minha morte, lancei-lhe para a cara uma grande serpente.
Teve sorte que não o apanhei;  a  serpente mordeu um seu dignitário que morreu em seu lugar.
" É pena não o ter apanhado, teria acabado a ditadura " disse eu.
Pouco depois tudo voltou à normalidade.
Continuámos a comer e a beber.
Enquanto comíamos e bebíamos, músicos e bailarinas divertiam-nos com as suas actuações
A uma certa altura entraram na sala cerca de dez crianças, de diversas raças, qual delas a mais bonita.
Movendo-se ao som dos instrumentos, puseram-se a dançar.
Não tinham a classe das anteriores, mais velhas, mas os seus movimentos graciosos inspiravam ternura.
Quando a dança acabou. Abdullahi mandou-me dizer que escolhesse com quem me queria distrair.
Mas, aquele ali, pensava que eu era pedófilo?
Levantei-me do banco onde estava sentado, e acompanhado do meu   intérprete, aproximei-me de Abdullahi, dizendo que aceitava a sua oferta, mas queria sob a minha protecção todas as crianças do reino.
O Emir ouvindo isto, fez o gesto de levantar-se enfurecido.
Mas eu, mais rápido que um relâmpago, tirei a cimitarra e dei um golpe.
Não lhe toquei, mas o tabuleiro de cobre que tinha à sua frente e a mesinha, partiram--se em dois, como se fossem de manteiga.
Estendi as mãos e as meninas que tinha no colo, correram para mim.
Voltei para o meu lugar, rodeado de tantos anjinhos.
Desde aquele dia as coisas começaram a mudar em Akaba.
Por onde quer que andasse, quando me cruzava com um árabe, este inclinava-se chamando-me al -Allama que quer dizer " o salvador ".
Desde  a primeira  vez  que  dormi em Akaba, ao acordar , de manhã ou de noite, encontrava sempre na minha cama, uma cobra venenosa. Mas...a mim…não me fazia nada.
No dia a seguir à primeira noite, quando entraram os servos para me vestirem ou  verem se  me estava morto, ficaram estupefactos,  vendo-me  a brincar com uma cobra.
Mas fugiram a sete pés quando a cobra se dirigiu para eles.
Tornámo-nos; ou por outra, foi amor à primeira vista, quando descobri que  era fêmea; dei-lhe o nome de Sara.
Sara seguia-me por onde quer que andasse, como se em vez  de uma cobra fosse uma cadela.
No princípio , todos se afastavam de mim; mas depois, viram que, se dizia a Sara para estar sossegada, ela não mordia.
Com Sara falava em italiano, e quando lhe dizia palavrinhas doces, roçava-se contra a minha cara para receber beijos.
Pelo doutor Serra tinha vindo a saber dos escravos.
A maioria eram  turistas  que se tinham aventurado no deserto; outros especialmente raparigas ou crianças, tinham sido raptadas em várias partes do mundo.
Perguntei-lhe desde quando se encontrava em Akaba como escravo; ele respondeu que já tinham passado cinco anos, desde que fora capturado no Sahara ocidental.
Estava  com  a  mulher e um grupo de amigos.
Tinham ido para o Sahara  depois de terem sido convencidos pelo guia do Hotel de Rabat.
Tinha-lhes dito que encontrariam  maravilhas, uma cidade cujos habitantes viviam como há dois mil anos.
Com entusiasmo tinha seguido o guia; e  uma noite foram capturados, vendados e conduzidos a Akaba.
Qual cidade antiga! Tinham encontrado correntes e pancadas! Da sua mulher e das outras, não tinha sabido mais nada, quem sabe, que fim teriam tido!
Dado que era como se eu fosse o Califa, obedeciam-me em tudo o que pedia: como suspender os castigos fosse a quem fosse.
É lógico que a coisa não poderia durar muito mais tempo: tinha conseguido escapar a muitos atentados à minha vida.
O Emir Abdullahi já não sabia que inventar para dar cabo de mim.  Acabou mal (para ele!).
Um dia quando acordei, não encontrei Sara, a cobra, a meu lado; não liguei e pensei
" Estará a dar a volta a um cobra ", e não me zanguei.
Quando pedi que me selassem Milady, a minha égua, não encontrei  a escolta à minha espera, como de costume. Nem sequer o Doutor Serra.
Assim, montei a cavalo e andei às voltas pela cidade.
Ah! esqueci-me de dizer que em Akaba não havia nada de moderno; nem electricidade, nem gás, nem automóveis, motos ou bicicletas.
Realmente era como viver no passado.
As caravanas traziam os produtos que lá não se produziam; além disso traziam novos escravos; que eram pagos com ouro e  com sal.
Assim, ou se andava a pé ou a cavalo.
Enquanto eu passeava sozinho, dei de frente com o Emir Abdullahi.
Estava só; pelo menos assim parecia: cumprimentou-me à maneira árabe.
Coloquei a mão sobre o punho da cimitarra, mas ele mostrou que não trazia armas. Relaxei-me, e ele disse que queria falar comigo; aceitei.
Desceu da sela e eu fiz o mesmo.
Sugeriu que eu deixasse a cimitarra presa  à sela; e eu, não vendo armadilha nisso, assim fiz.
Da sua cavalgadura, tirou o necessário para preparar o chá.
Sentando-se no chão, pôs água a aquecer num fogãozinho a álcool.
Eu estava tão absorvido na operação, que não dei conta do desaparecimento do meu cavalo.
Reparei somente quando vi os guardas do Emir.
Olhei à volta: estava rodeado, e desarmado, Abdullahi olhava para mim com um sorriso malévolo.
Um guarda aproximou-se e deu-lhe a minha cimitarra.
Ele aferrou-a e apontou-a contra mim.
"Prepara-te a morrer, cão infiel."  Levantou a cimitarra e, como por encanto, chegou uma tromba de areia, e não se via um palmo diante do nariz.
Ouvi gritos, murmúrios, lamentos.
Não sei quanto durou; e como começou assim acabou.
Todos os guardas estavam por terra, em várias posições, mas todos mortos, assim como estava morto o Emis Abdullahi trespassado pela minha cimitarra.
Quem o matou?
Milady estava a meu lado.
Extraí a cimitarra do corpo de Abdullahi e com ela decapitei-o.
Recolhi uma lança e espetei a cabeça do Emir; e montando em sela, dirigi-me ao palácio real.
Quando passava e a gente via o que levava na lança, davam saltos de alegria, porque sabiam que a tirania tinha acabado.
Com a tirania acabou a escravatura; e todos puderam voltar para as suas casas, livres e felizes.
E eu acordei...com um lindo sorriso!                
                                                                  


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