domingo, 8 de setembro de 2013

Sonho n.3 O hábito não faz o monge ano 2006

 
Estava a dormitar debaixo de uma árvore, quando alguém bateu no meu sapato.
Abri os olhos e vi um senhor. Mais que vê-lo, entrevi-o. O sol estava à minha frente, e aquele senhor também. Foi sugestão minha ou via mesmo o sol através dele?
Aquele senhor disse-me: ” Italo, o que fazes aí deitado, não sabes que estão à tua espera? ”
Não conseguia perceber: quem é que me esperava, como sabia o meu nome?
Como se me tivesse lido o pensamento, disse: “ No Lugar, não têm Pároco, es tão  como ovelhas perdidas; tu serás o seu pastor.”
“ Mas eu não sou padre, como posso eu fazer de padre? ” disse eu.
“ A mim nada é impossível; de agora em diante, serás o meu pastor. Vai e recolhe as minhas ovelhas. ”
Fechei os olhos e quando os reabri, não estava ninguém.
Olhei à volta, não havia ninguém; e, dado que estava numa planície, não havia modo de esconder-se.
Andei, andei, não sei quanto, até que cheguei a um lugar habitado.
Era um pequeno Lugar, havia gente, passei entre eles, mas nenhum reparou em
mim; era como se não me vissem.
Os meus passos levaram-me a um lugar onde, quem sabe desde há quanto tempo havia uma pequena igreja.
Agora havia só quatro paredes, meio derrubadas, uma torre, talvez um campanário, e pedras, muitas pedras.
Era ali, que devia fazer de pároco; era ali que devia recolher as ovelhas perdidas.
Como fazer? Sabia de um ditado: ”Ajuda-te, que Deus te ajuda. ” Esperemos…
Que dia é hoje? Estranho! Perdi a noção do tempo...
Aproximei-me de uma senhora e perguntei-lhe: ” Que dia é hoje? ”
Olhou para mim de esguelha, mas depois disse: ” É sábado. ”
Agradeci-lhe e voltei para a “ igreja. ”
Comecei a libertar o interior das pedras algumas eram pesadas, fi-las rebolar.
Estava de tal modo absorvido no trabalho, que não reparei que estava a ser observado.
Quando dei por isso, pedi: ” Alguém que me ajude; amanhã é domingo e se não fazemos espaço, não se pode celebrar a Missa. ”
No primeiro  momento, olharam para mim; depois, sem dizerem uma palavra, todos se meteram à obra e em breve estava tudo livre e vi que havia um lindo pavimento.
Agradeci a todos; pouco depois já não havia ninguém.
Pensei: ” Se devo celebrar a Missa, deverei conhecer as palavras; se ao menos tivesse um Missal, mesmo pequeno que fosse...”      
Não sei se foi uma certa sensação;  o que é certo é que meti a mão no bolso do casaco, e nem é para acreditar: havia lá dentro qualquer coisa; quando tirei, vi que se tratava de um Missal.
Abri a primeira página e, além  do título, estava escrito à mão: “ A Italo, para que faça dele bom uso, 6 M... 19...” A data não se lia bem.
Quem é que o pôs lá?  Tinha a certeza de não o ter antes.
Já tinha o Missal, agora devia procurar pão, água e vinho.
Fui à procura de uma loja.
Encontrei-a;  era pequena e escura, mas uma loja cheia até ao inverosímil; havia
de tudo um pouco.
Apresentei-me, dizendo que era o novo pároco e precisava  de pão, de vinho e também de um prato e um copo.
Pedi a conta, mas quando fui para pegar no dinheiro, fiquei surpreendido: não tinha
nada; a carteira estava vazia, assim como o porta-moedas.
Fiquei espantado; não tinha nenhum dinheiro, mas porquê?
Não me lembrava de onde vinha, mas, normalmente trazia sempre dinheiro comigo, pouco, mas sempre; e agora como podia pagar?
Sem aquelas coisas, não podia dizer a Missa...
O dono da loja vendo a minha expressão desolada, disse: ” Não se preocupe; pagar-
-me-á, quando tiver dinheiro. ”
Agradeci-lhe e voltei para lá, onde seria a minha igreja. ”
Estava já escuro, enrolei-me num cantinho e adormeci.
Acordei com o canto do galo.
Fui à procura de uma fonte onde lavei a cara e as mãos, e depois à procura daquilo que me servia.
Tinha uma série de caixas de cartão; com elas construí um altar. Dois pedaços de madeira foram suficientes e ligados entre si, formaram uma cruz.
Uma velha panela e um ferro, substituíram o sino.
Às 11 horas comecei a dar a volta ao Lugar, batendo na panela; e, a  quem me olhava, eu dizia: ” É domingo; ao meio-dia, há Missa, venham à Igreja, não se esqueçam. ”
Ao meio-dia, havia na igreja dez pessoas mais ou menos.
Não liguei; e fazendo de conta que a igreja estava cheia, perguntei  a um rapaz, se me podia assistir; obtida tal ajuda; comecei:
“ Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. ”
Os presentes respondem: ”Ámen. ”
E assim até chegar ao " Glória", e  seguindo as praxes, canta-se o hino.
“ Gloria a Deus nas Alturas e paz na terra aos homens por Ele amados.
Enquanto se cantava o Glória, sucedeu um milagre.
Não éramos só nós a cantar; havia uma música celestial e um coro (certamente  de
anjos) unidos a nós.
De início as pessoas olhavam entre si, e convenceram-se que havia um gravador  escondido.
Depois do hino, unindo as mãos, disse: “ Oremos. " e todos juntos orámos em silêncio durante alguns minutos, seguindo-se  uma pausa  e de novo a Missa continuou.
Vem então a primeira  Leitura, segundo o tempo, e  uma pessoa começa  a ler:
" Leitura do Primeiro Livro dos Reis...”
Terminada a leitura, o leitor diz: ” Palavra do Senhor.” E os fiéis respondem: ” Graças
a Deus ”. Uma outra mulher lê o Salmo.
A seguir, há uma segunda Leitura antes do Evangelho.
Uma outra pessoa lê: “ Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos . “ Terminada a Segunda leitura, o leitor diz: “ Palavra do Senhor. “
E os fiéis respondem: “ Graças a Deus. “
Segue-se o canto do: Aleluia.
Antes de ler o Evangelho, digo: “ O Senhor esteja convosco. “
E os fiéis respondem: “ Ele está no meio de nós. “
Depois começo: “ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo S. Marcos. “
E ao mesmo tempo, faço o sinal da cruz sobre o Missal, e depois sobre mim mesmo,
na fronte, na boca e no peito.
E o mesmo fazem os fiéis, dizendo: “ Glória a Vós, Senhor. “
Terminada a leitura do Evangelho, digo: “ Palavra da salvação. “
Ao que os fiéis respondem: “ Glória a Vós, Senhor. “
De seguida beijo o Missal, dizendo em silêncio: “ Por este santo Evangelho, perdoai-
-nos, Senhor. “
Depois começo a falar, primeiro do que lemos, depois, conto o que me sucedeu e a razão
de me encontrar  naquele  Lugar.
Acabada a homilia, depois de uma breve pausa, digo: ” Credo. ”
Terminada a Profissão de Fé, continuo seguindo os ritos habituais, e quando acabo, com  as mãos juntas, digo:
" A Missa terminou.  Ide em Paz e que o Senhor vos acompanhe".
Ao que os fiéis respondem: "Graças a Deus ".
Pouco antes de os fiéis saírem, chamo o meu ajudante, que se aproxima, e pergunto-lhe: “ Como te chamas? “
Ele com dificuldade responde: “ Pedro. “
E acrescento: “ Como disse o Senhor:  Pedro, sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. “
Pondo-lhe a mão sobre a cabeça digo: “ Pedro se quiseres de agora em diante, serás o meu ajudante. “
E Pedro respondeu: “ Sim. Obrigado. “
Depois seguiu os outros.
Finda a celebração, tendo posto num saco o prato e o copo, saí da igreja e comecei a andar. 
Como tinha fome, devia encontrar alguém que me convidasse  a almoçar.
Pouco depois, cheguei a uma mísera casa.
Bati à porta, abriram-ma; apresentei-me  e fui convidado a entrar.
Estavam à mesa, mas ainda não tinham começado a comer, e disseram para me
sentar com eles.
A família reunida era composta de um homem, uma mulher e três crianças; a maior teria cinco anos.
O almoço de domingo era composto só de sopa de hortaliças.
Não era suficiente para matar a fome àquela família, e no entanto, quiseram dividi-la comigo.
Fiquei comovido, encheram-se-me os olhos de lágrimas.
Fiz o sinal da cruz e rezei; “ Agradecemos-Te, Senhor o alimento que vamos  comer, e fazei que não falte a nenhuma pessoa no mundo.”
Mentalmente pedi ao  Senhor para ajudar aquela família.
Enquanto comíamos, vi que o homem tinha dificuldade em  usar a mão direita e  perguntei o que tinha;  ele  respondeu: “ Era pedreiro, trabalhava, depois adoeci, e também a minha mão; desde aquele dia não pude mais trabalhar; e para alimentar a família, peço esmola e apanho ervas nos campos.”  
Quando se acabou de comer, agarrei-lhe a mão e com uma pomada que encontrei  na algibeira ( antes não estava lá, estou certo disso ), comecei a massajar-lha.
Deixei-lhe o boião da pomada, dizendo-lhe para massajar a mão cada vez que lhe doesse, e depois de lhe agradecer o almoço, saí.
Continuando a minha volta, visitei os necessitados e os doentes dando-lhes um pouco de conforto e por vezes ( como por milagre ) aquilo que encontrava nas minhas algibeiras.
À tardinha, os meus passos levaram-me a um antigo palácio: bati à porta, que foi logo
aberta.                                                                                                  
A rapariga que a abriu perguntou-me quem eu era e disse que estavam à minha espera;
disse para eu me sentar e fui recebido por uma senhora de meia idade, que me falou do milagre que eu tinha feito.
Milagre que eu tinha feito? Qual milagre?
O de  Pedro, o rapaz que tinha curado.
Respondi-lhe que se houve milagre, certamente não foi obra minha, mas da vontade do Senhor.
A senhora com as lágrimas nos olhos disse-me  ter um filho doente, o último dos cinco
filhos, que morreram com uma doença, no dizer dos médicos, incurável.
Também o marido tinha morrido da mesma doença.
Tinha  rezado muito  ao Senhor, mas por fim, depois de tantas mortes, tinha perdido a fé; agora pedia-me para salvar o seu filho.
Pedi-lhe para me levar junto do filho. Estava na cama e quando lhe toquei senti que ardia em febre.
Meti automaticamente a mão numa algibeira, e não encontrei nada; procurei na outra e nada de nada; então peguei no Missal para rezar ao Senhor a pedir auxílio; e, como por milagre, o Missal tinha-se transformado num livro de sugestões.
Perguntei à senhora qual era o mal que os médicos tinham diagnosticado; e ela mostrou-me os resultados das análises feitas.
Vi o nome da doença, procurei no Missal e encontrei o seu remédio.
Pedi licença para usar a sua cozinha e pedi então à empregada para me dar aquilo
que eu precisava;  pouco depois tinha tudo o que pedira.
Para baixar a febre, cortei uma cebola e espalhei as rodelas no chão; disse ao rapaz para pisar a cebola com os pés descalços e para ficar assim pelo menos meia hora. 
Para a outra doença, preparei uma cataplasma de ovo e camomila assim: duas colherinhas de óleo de rícino, uma mão cheia de flores de camomila e um ovo.
Preparado desta maneira: numa frigideira deitei o óleo de rícino e as flores de camomila que fiz dourar em lume baixo; depois juntei um ovo inteiro e fiz cozer como se fosse uma omelete; depois virei-a sobre um pano limpo e esfreguei com força a cataplasma bem quente nas costas, dos ombros até à cintura, e para acabar, disse ao rapaz para vestir um pijama vermelho.
Tudo isto, seguindo as instruções do Missal.
Acabado  o  tratamento,  ia-me  embora;  mas  a  senhora, cujo nome era Clotilde,
obrigou-me a ficar, com a desculpa de estar próximo do filho.
No dia seguinte, o rapaz já estava melhor: a febre tinha desaparecido e as dores
que sentia tinham abrandado.
Para saber se estava curado daquele mal, era preciso esperar, repetir a massagem durante uma semana e ter fé no Senhor.
Dirigi-me para a igreja; estava meia aldeia à minha espera.
Entre  eles  estava  também  a  família  de  Pedro,  ( o rapaz deficiente )  que  me
agradecia pelo milagre.                                                                  
Disse-lhes que não tinha feito nenhum milagre; que se houve milagre, deveriam agradecer ao Senhor, não a mim, que era só um seu humilde servo.
De  qualquer  modo, se  queriam  agradecer  ao  Senhor,  podiam  fazê-lo  de  duas
maneiras: ajudar-me na reconstrução da igreja, ir à igreja todos os domingos e rezar.
Havia  também  a  mulher do  pedreiro que  tinha  a  mão  direita  anquilosada; disse-
-me que naquela manhã tinham vindo chamar o marido para trabalhar, e que,  depois  eu  ter  estado  com  eles,  tinham  recebido  diversas  visitas,  recebendo de cada vez, comida e vestuário. E  estava muito contente.
Disse a ela, o que tinha dito aos outros: esperava-os na igreja todos os domingos.
Começaram os trabalhos; uns levavam uma coisa, outros levavam outra.
De  uma  pedreira,  levaram  um  camião cheio de restos de pedra e disseram que
poderiam  levar outros quando precisássemos.
No domingo seguinte, a igreja estava cheia.
Estava-se em pé porque não havia bancos, mas ninguém se lamentava.
Naquele domingo, ao ofertório, levaram-me um cesto de pão; assim pude dar a comunhão a todos, e o que sobrou aos necessitados.
Durante o sermão, falei do Senhor: disse que estava contente com eles, mas que
ficaria ainda mais, se todos dessem uma ajuda a quem tivesse necessidade: de
que não pensassem só neles; disse-lhes que quem tivesse dado uma ajuda receberia
duas. Assim foi, para os negociantes; nunca até  então os negócios tinham corrido
tão bem como depois de terem ajudado  quem precisava.
No domingo seguinte, havia tanta gente, que se podia pensar que toda a aldeia queria entrar na igreja; mas já não havia lugar.
Percebi que querendo reconstruir a igreja como era o original, seria muito pequena para tanta gente.
Não tendo sido feito o tecto, deitaram-se abaixo duas paredes e reconstruíram-se
muito  mais para diante. Vendo como estava a surgir a nova igreja,  certamente
caberia toda a aldeia, e comodamente sentada.
O tempo passou;  e agora estava fixo em casa da senhora D. Clotilde.
A senhora, depois da cura do seu filho, inexplicável ( no dizer dos doutores ) não quis que me fosse embora, pondo-me à disposição tudo o que tinha pertencido ao marido. Agradeci e aceitei, até porque ainda não tinha um lugar para dormir, e ao relento não era muito aconselhável.
Aquilo que fazia com métodos naturais para curar os doentes, era  para eles  milagre; para mim era só o método que fazia bem com a graça de Deus.
No entanto a notícia espalhou-se por todo Portugal e começaram a chegar doentes de vários sítios.
Não tinha um momento de sossego; tive de ocupar-me dos doentes da aldeia e dos que vinham de fora.
A gente do lugar começou a chamar-me Padre - doutor.
Também porque ali não havia nem Centro de Saúde nem uma Farmácia.            
O meu método de cura não foi visto com bons olhos por todos, principalmente pelos médicos da terra vizinha  e  da cidade mais próxima.
Fui chamado pelo Presidente da Câmara, para me chamar a atenção; mas no fim
não fez nada; também ele estava doente e tinha um familiar para tratar.
Por isso fui ter com ele como me pediu.
Depois sucedeu uma coisa pouco habitual: começou a chover a partir de segunda feira e todos os dias seguintes.
Estava a ficar preocupado, pois o domingo estava a aproximar-se e a igreja continuava sem tecto.
Que deveria fazer?
Até àquele dia nunca tinha chovido! Mas...tinha fé no Senhor; Ele não me abandonaria.
Chegou o Domingo e a chuva não parava.
Fui para a Igreja abrigado debaixo do chapéu de chuva.
Quando entrei … fiquei bloqueado: encontrava-me debaixo do arco daquela que
 se devia tornar na porta da entrada; fora, chovia a cântaros; no interior estava tudo enxuto; não caía uma gota de água. Se aquilo não era Obra do Senhor de quem seria?...
Ajoelhei-me e agradeci-Lhe, depois corri para a torre sineira e puxando pela corda comecei a tocar o sino.
Continuei a tocar, até que começou a chegar gente para ver o que sucedia na Igreja. Podeis imaginar como ficaram ao entrar na Igreja...
Enquanto  me  preparava  para  celebrar  a  Missa,  continuaram  a tocar  o  sino;
alguém  voltou  para  trás  para  avisar  o  outros  e  entre  aqueles  que  foram chamados e os que ouviram o sino, pouco depois, a Igreja estava cheia de gente da aldeia e da vizinhança.
Celebrando a Missa, pedi a todos que se unissem a mim, para agradecer o Senhor com estas palavras: “ O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. “
Mais uma vez comunguei com o pão e o vinho.
Chegou Dezembro e com ele o Natal; A  Igreja estava já coberta,  e, para inaugurá-la,
celebrei cinco matrimónios e oito baptizados.
As coisas corriam bem; os meus fiéis a quem  não pedia nada, davam de sua vontade, para os matrimónios, baptizados, funerais e Missas pelos defuntos.    
Em 24 de Dezembro, celebrei a Missa da meia-noite, e depois de ter dado a Benção  final, antes de mandar sair os fiéis, anunciei a boa notícia:
" Numa casa fora da aldeia, nasceu uma criança, também ele como Jesus, filho de gente pobre. Como Jesus recebeu dádivas dos pastores, também esta criança receberá dádivas de todos nós. Amanhã depois da Missa, iremos visitá-lo e cada um de nós levar-lhe-á o que puder."
No dia seguinte, tinha um cobertor que tinha pedido à senhora  D .Clotilde;  e depois da função, como prometido,  dirigimo-nos para o sítio que não conhecia mas para onde o Senhor guiava os meus passos.
Depois de ter deixado a estrada secundária, seguimos por um carreiro e pouco depois chegámos junto de uma casa; bem, não se podia chamar propriamente casa, antes era uma barraca, feita com pedaços de coisas arranjadas, seguramente numa lixeira.
Bati à porta e, depois de ter dito quem era, abriram-na.
Tinha uma só divisão que fazia de cozinha e de quarto de dormir.
O chão era de terra batida, coberto com erva seca.
A um lado sobre uma cama, coberta de farrapos, estava uma jovem mulher com seu filho, nos braços.
Estendi o cobertor sobre eles e inclinando-me beijei o pezinho do pequenino que
parecia a incarnação do Menino Jesus; depois saí para dar lugar aos outros.
Tinha vindo muita gente, mais do que as do nosso Lugar; entre tanta pessoas, tinha vindo também, o presidente da Junta de Freguesia.
A sua oferta, foi a promessa de fazer construir uma nova casa no lugar daquela barraca. Foi um Natal feliz.
Depois, um dia,  chegou um carro guiado por um padre de hábito vestido.
Perguntou por mim e encontrando-me disse que o Bispo da Vila me queria ver imediatamente. Como não tinha carro, fui com ele.
Chegados ao Arcebispado mandaram-me entrar para uma sala de espera.
A espera foi longa, passei o tempo a ler o Missal.
No seu interior encontrei tantos conselhos; de como me devia comportar e do que devia dizer.
Depois de uma longa espera, fui levado à presença do Bispo.
O Bispo estendeu-me a mão com o anel; em vez de beijá-la, apertei-lha como se fosse um igual a mim.
Disseram-me para me ajoelhar, e respondi, que o fazia quando rezava ao Senhor.
Quis saber em que seminário tinha estudado e quem me tinha ordenado Padre.
Contei-lhe o que me tinha sucedido e do meu encontro com o Senhor.
O Bispo começou a rir e todos os padres que estavam com ele.
Disse-me, ou antes, ordenou-me que abandonasse o Lugar, e que não celebrasse mais Missas.
Perguntei-lhe quem  me iria substituir.
Respondeu-me que não tinha nada com isso.
Não me acompanharam de volta à aldeia, pelo que tive de ir a pé.
O Senhor estava comigo; e depois de um par de quilómetros, parou um carro.
Era  um  meu  paroquiano  que  me  deu  uma boleia; e dado que as coisas que se          
passam  na  aldeia  se  espalham  velozmente,  quis  saber  o  que é que o Bispo queria de mim. Disse-lhe o que o Bispo me tinha ordenado: pareceu-lhe mal, e depois de me ter deixado em casa da senhora D. Clotilde, foi contar a toda a gente.
Estava no meu quarto e confortava-me, lendo o Missal, quando ouvi lá em baixo na estrada uma grande vozearia.
Debrucei-me à janela e vi uma multidão reunida diante da casa.
Quando me viram, pediram-me para descer.
Depois começaram a falar todos ao mesmo tempo.
Queriam saber... perguntavam... não sabiam nem eles o que queriam.
Disse-lhes que não fizessem nada, o Senhor  nos ajudaria.
Esperámos. Chegou o domingo e ninguém se apresentou.
Ao meio dia, como de costume, cheguei à Igreja seguido da gente da aldeia, celebrei a Missa e terminei depois da Benção com “ Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe. “  E só então as portas da Igreja se abriram.
Adivinham quem estava lá fora?
Um padre, mandado pelo Bispo.
Tinha chegado, mas não pôde entrar na Igreja porque as portas estavam fechadas.
Mostrei-lhe as portas; não tinham fechaduras; portanto se estavam fechadas, o
Senhor devia saber a razão; certamente não queria que a função fosse perturbada.
Foi-se embora, decerto para referi-lo ao Bispo.
No domingo seguinte, o mesmo Padre apresentou-se de manhã cedo; às 11 horas
foi para a Igreja.
Às 11.30, começou a tocar o sino, sozinho, pois o sineiro não apareceu.
O povo estava reunido na praça; não se mexia para ir para a Igreja; queriam-me  a  mim no lugar do Padre, mas eu não podia; eram as ordens do Bispo, não podia celebrar.
Disseram que se eu não a celebrasse, eles nunca mais iriam  à Missa.
Que podia eu fazer? Pedi ajuda (como de costume) ao Missal, e encontrei a solução.
Fui para o monte das oliveiras.
Monte das oliveiras, olival, não era mais que uma colina onde em cima existiam
oliveiras seculares.
Como um rebanho de ovelhas, todos me seguiram.
Chegado lá acima, apressei-me a celebrar a Missa.
O Padre não vendo chegar os fiéis, saiu da Igreja; e, como não viu ninguém lá fora, entrou no carro e começou a dar voltas pela aldeia.
Voltas e mais voltas até que chegou ao monte das oliveiras, onde viu uma multidão de pessoas de joelhos em terra, a assistir à Missa.
Começou a tocar a buzina; tanto que fui obrigado a interromper a função religiosa.
Aproximei-me do carro e perguntei-lhe porque interrompia a função.                
Ele respondeu que eu não devia celebrar, eram as ordens do Bispo.
E respondi-lhe: “ O Bispo proibiu-me de celebrar a Missa na Igreja, não no monte. “
Então foi-se embora, deixando-me assim continuar.
Alguns dias mais tarde, fui de novo chamado pelo Bispo.
Não era por ter transgredido as suas ordens, era mais grave.
Assim que cheguei ao Arcebispado, fui imediatamente acompanhado ao Bispo o
qual quando me viu, mostrou-me um papel onde estava escrito: Que bruxedo fizeste, porque não posso falar?
Respondi-lhe que não tinha feito nada, nenhum bruxedo;  aquilo que lhe sucedeu o devia ao Senhor.
Disse-lhe: “ O Senhor é o nosso dono, Ele manda a vida e a morte, se Ele quis a
Vossa voz, tomou-a. Eu não posso fazer nada".
O Bispo enfureceu-se, deitou para o chão tudo o que estava em cima da escrivaninha e além disso, agarrou-me pelas bandas do casaco e começou a sacudir-me como se fosse uma palha.
Deixei  que  desabafasse;  e, quando os outros padres conseguiram acalmá-lo, disse-
-lhe que ele devia pedir humildemente ao Senhor que lhe fizesse a graça de lhe restituir a voz. Estava só n' Ele o poder de o satisfazer.
Cumprimentei respeitosamente e voltei para o Lugar.
Passada uma semana mais ou menos, fui mais uma vez chamado pelo Bispo.
Assim  que  entrei  no  Arcebispado, vi  que  os  Padres estavam felizes; e quando cheguei à presença do Bispo, este veio ao meu encontro e abraçou-me dizendo:
“ Obrigado, obrigado, obrigado por me ter aberto os olhos; graças a si, pude provar o poder do Senhor; não sei como agradecer-lhe. “
“ É simples, “ disse eu: “ Ordenando-me padre. “
“ Pensarei nisso, “  respondeu.
Voltei  contente  para  o  Lugar e  quando  cheguei,  quem  me encontrava, vendo-me naquele estado de espírito, congratulava-se comigo.
Aproximava-se o domingo e, entretanto, chegou um carro com um Padre  que logo que saiu, começou a espalhar a notícia de que, no domingo, viria o Bispo, e que haveria uma grande cerimónia.
Eu pensava que sabia do que se tratava; não tinha falado com ninguém, pois não
tinha a certeza do que o Bispo decidiria acerca da minha proposta.
No domingo, chegaram vários carros; além do Bispo, estava presente a comunicação social, Jornais e Televisão.
Para o Lugar era um acontecimento.
A Igreja estava apinhada de gente; eu estava com os meus paroquianos, pronto a assistir à Missa, quando de um altifalante ouvi chamarem-me.
Era o Bispo que me chamava.
Queria que estivesse junto dele; depois, sempre através do microfone, anunciou a todos que,  daquele dia em diante, haveria mais um Padre.
Fui mandado para a sacristia, onde os outros Padres me prepararam, e quando  fiquei pronto entrámos na Igreja.
A cerimónia foi lindíssima e ,no fim, o meu nome tinha-se enriquecido, agora passava a ser: Padre Italo de Jesus.

E assim terminou o sonho.

                                                    





















                                                                 

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