Estava
a dormitar debaixo de uma árvore, quando alguém bateu no meu sapato.
Abri
os olhos e vi um senhor. Mais que vê-lo, entrevi-o. O sol estava à minha
frente, e aquele senhor também. Foi sugestão minha ou via mesmo o sol através
dele?
Aquele
senhor disse-me: ” Italo, o que fazes aí deitado, não sabes que estão à tua
espera? ”
Não conseguia perceber: quem
é que me esperava, como sabia o meu nome?
Como
se me tivesse lido o pensamento, disse: “ No Lugar, não têm Pároco, es tão como ovelhas perdidas; tu serás o seu pastor.”
“ Mas eu não sou padre, como
posso eu fazer de padre? ” disse eu.
“
A mim nada é impossível; de agora em diante, serás o meu pastor. Vai e recolhe as
minhas ovelhas. ”
Fechei os olhos e quando os
reabri, não estava ninguém.
Olhei
à volta, não havia ninguém; e, dado que estava numa planície, não havia modo de
esconder-se.
Andei, andei, não sei quanto,
até que cheguei a um lugar habitado.
Era
um pequeno Lugar, havia gente, passei entre eles, mas nenhum reparou em
mim; era como se não me
vissem.
Os
meus passos levaram-me a um lugar onde, quem sabe desde há quanto tempo havia
uma pequena igreja.
Agora
havia só quatro paredes, meio derrubadas, uma torre, talvez um campanário, e
pedras, muitas pedras.
Era ali, que devia fazer de
pároco; era ali que devia recolher as ovelhas perdidas.
Como fazer? Sabia de um
ditado: ”Ajuda-te, que Deus te ajuda. ” Esperemos…
Que dia é hoje? Estranho! Perdi
a noção do tempo...
Aproximei-me de uma senhora e
perguntei-lhe: ” Que dia é hoje? ”
Olhou para mim de esguelha, mas
depois disse: ” É sábado. ”
Agradeci-lhe e voltei para a
“ igreja. ”
Comecei
a libertar o interior das pedras algumas eram pesadas, fi-las rebolar.
Estava
de tal modo absorvido no trabalho, que não reparei que estava a ser observado.
Quando
dei por isso, pedi: ” Alguém que me ajude; amanhã é domingo e se não fazemos
espaço, não se pode celebrar a Missa. ”
No
primeiro momento, olharam para mim;
depois, sem dizerem uma palavra, todos se meteram à obra e em breve estava tudo
livre e vi que havia um lindo pavimento.
Agradeci a todos; pouco
depois já não havia ninguém.
Pensei:
” Se devo celebrar a Missa, deverei conhecer as palavras; se ao menos tivesse
um Missal, mesmo pequeno que fosse...”
Não
sei se foi uma certa sensação; o que é
certo é que meti a mão no bolso do casaco, e nem é para acreditar: havia lá
dentro qualquer coisa; quando tirei, vi que se tratava de um Missal.
Abri
a primeira página e, além do título,
estava escrito à mão: “ A Italo, para que faça dele bom uso, 6 M... 19...” A data não se lia
bem.
Quem é que o pôs lá? Tinha a certeza de não o ter antes.
Já tinha o Missal, agora
devia procurar pão, água e vinho.
Fui à procura de uma loja.
Encontrei-a;
era pequena e escura, mas uma loja cheia
até ao inverosímil; havia
de tudo um pouco.
Apresentei-me,
dizendo que era o novo pároco e precisava
de pão, de vinho e também de um prato e um copo.
Pedi
a conta, mas quando fui para pegar no dinheiro, fiquei surpreendido: não tinha
nada;
a carteira estava vazia, assim como o porta-moedas.
Fiquei espantado; não tinha
nenhum dinheiro, mas porquê?
Não
me lembrava de onde vinha, mas, normalmente trazia sempre dinheiro comigo, pouco,
mas sempre; e agora como podia pagar?
Sem aquelas coisas, não podia
dizer a Missa...
O
dono da loja vendo a minha expressão desolada, disse: ” Não se preocupe; pagar-
-me-á,
quando tiver dinheiro. ”
Agradeci-lhe e voltei para
lá, onde seria a minha igreja. ”
Estava já escuro, enrolei-me
num cantinho e adormeci.
Acordei com o canto do galo.
Fui
à procura de uma fonte onde lavei a cara e as mãos, e depois à procura daquilo
que me servia.
Tinha
uma série de caixas de cartão; com elas construí um altar. Dois pedaços de
madeira foram suficientes e ligados entre si, formaram uma cruz.
Uma velha panela e um ferro, substituíram
o sino.
Às
11 horas comecei a dar a volta ao Lugar, batendo na panela; e, a quem me olhava, eu dizia: ” É domingo; ao
meio-dia, há Missa, venham à Igreja, não se esqueçam. ”
Ao meio-dia, havia na igreja
dez pessoas mais ou menos.
Não
liguei; e fazendo de conta que a igreja estava cheia, perguntei a um rapaz, se me podia assistir; obtida tal
ajuda; comecei:
“ Em nome do Pai e do Filho e
do Espírito Santo. ”
Os presentes respondem: ”Ámen.
”
E assim até chegar ao "
Glória", e seguindo as praxes, canta-se
o hino.
“ Gloria a Deus nas Alturas e
paz na terra aos homens por Ele amados.
Enquanto
se cantava o Glória, sucedeu um milagre.
Não éramos só nós a cantar; havia uma música celestial
e um coro (certamente de
anjos) unidos a nós.
De
início as pessoas olhavam entre si, e convenceram-se que havia um gravador escondido.
Depois
do hino, unindo as mãos, disse: “ Oremos. " e todos juntos orámos em silêncio
durante alguns minutos, seguindo-se uma
pausa e de novo a Missa continuou.
Vem então a primeira Leitura, segundo o tempo, e uma pessoa começa a ler:
" Leitura do Primeiro
Livro dos Reis...”
Terminada a leitura, o leitor diz: ” Palavra do Senhor.”
E os fiéis respondem: ” Graças
a Deus ”. Uma outra mulher lê o Salmo.
A
seguir, há uma segunda Leitura antes do Evangelho.
Uma
outra pessoa lê: “ Leitura da Epístola do Apóstolo São Paulo aos Romanos . “ Terminada
a Segunda leitura, o leitor diz: “ Palavra do Senhor. “
E
os fiéis respondem: “ Graças a Deus. “
Segue-se
o canto do: Aleluia.
Antes
de ler o Evangelho, digo: “ O Senhor esteja convosco. “
E
os fiéis respondem: “ Ele está no meio de nós. “
Depois
começo: “ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo S. Marcos. “
E ao mesmo tempo, faço o sinal da cruz sobre o Missal,
e depois sobre mim mesmo,
na fronte, na boca e no peito.
E
o mesmo fazem os fiéis, dizendo: “ Glória a Vós, Senhor. “
Terminada
a leitura do Evangelho, digo: “ Palavra da salvação. “
Ao
que os fiéis respondem: “ Glória a Vós, Senhor. “
De seguida beijo o Missal, dizendo em silêncio: “ Por
este santo Evangelho, perdoai-
-nos, Senhor. “
Depois
começo a falar, primeiro do que lemos, depois, conto o que me sucedeu e a razão
de
me encontrar naquele Lugar.
Acabada
a homilia, depois de uma breve pausa, digo: ” Credo. ”
Terminada a Profissão de Fé, continuo seguindo os
ritos habituais, e quando acabo, com as
mãos juntas, digo:
" A Missa terminou. Ide em Paz e que o Senhor vos acompanhe".
Ao que os fiéis respondem: "Graças a Deus ".
Pouco
antes de os fiéis saírem, chamo o meu ajudante, que se aproxima, e pergunto-lhe:
“ Como te chamas? “
Ele com dificuldade responde:
“ Pedro. “
E
acrescento: “ Como disse o Senhor: Pedro,
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. “
Pondo-lhe
a mão sobre a cabeça digo: “ Pedro se quiseres de agora em diante, serás o meu
ajudante. “
E Pedro respondeu: “ Sim. Obrigado.
“
Depois seguiu os outros.
Finda
a celebração, tendo posto num saco o prato e o copo, saí da igreja e comecei a
andar.
Como tinha fome, devia
encontrar alguém que me convidasse a
almoçar.
Pouco
depois, cheguei a uma mísera casa.
Bati
à porta, abriram-ma; apresentei-me e fui
convidado a entrar.
Estavam
à mesa, mas ainda não tinham começado a comer, e disseram para me
sentar com eles.
A família
reunida era composta de um homem, uma mulher e três crianças; a maior teria
cinco anos.
O almoço de domingo era
composto só de sopa de hortaliças.
Não
era suficiente para matar a fome àquela família, e no entanto, quiseram dividi-la
comigo.
Fiquei comovido, encheram-se-me
os olhos de lágrimas.
Fiz o sinal da cruz e rezei;
“ Agradecemos-Te, Senhor o alimento que vamos comer, e fazei que não falte a nenhuma pessoa
no mundo.”
Mentalmente pedi ao Senhor para ajudar aquela família.
Enquanto
comíamos, vi que o homem tinha dificuldade em usar a mão direita e perguntei o que tinha; ele
respondeu: “ Era pedreiro, trabalhava, depois adoeci, e também a minha
mão; desde aquele dia não pude mais trabalhar; e para alimentar a família, peço
esmola e apanho ervas nos campos.”
Quando
se acabou de comer, agarrei-lhe a mão e com uma pomada que encontrei na
algibeira ( antes não estava lá, estou certo disso ), comecei a massajar-lha.
Deixei-lhe o boião da pomada, dizendo-lhe para massajar
a mão cada vez que lhe doesse, e depois de lhe agradecer o almoço, saí.
Continuando
a minha volta, visitei os necessitados e os doentes dando-lhes um pouco de
conforto e por vezes ( como por milagre ) aquilo que encontrava nas minhas
algibeiras.
À
tardinha, os meus passos levaram-me a um antigo palácio: bati à porta, que foi
logo
aberta.
A
rapariga que a abriu perguntou-me quem eu era e disse que estavam à minha espera;
disse
para eu me sentar e fui recebido por uma senhora de meia idade, que me falou do
milagre que eu tinha feito.
Milagre que eu tinha feito?
Qual milagre?
O de Pedro, o rapaz que tinha curado.
Respondi-lhe
que se houve milagre, certamente não foi obra minha, mas da vontade do Senhor.
A senhora com as lágrimas nos olhos disse-me ter um filho doente, o último dos cinco
filhos, que morreram com uma doença, no dizer dos
médicos, incurável.
Também o marido tinha morrido da mesma doença.
Tinha rezado
muito ao Senhor, mas por fim, depois de
tantas mortes, tinha perdido a fé; agora pedia-me para salvar o seu filho.
Pedi-lhe para me levar junto
do filho. Estava na cama e quando lhe toquei senti que ardia em febre.
Meti automaticamente a mão
numa algibeira, e não encontrei nada; procurei na outra e nada de nada; então
peguei no Missal para rezar ao Senhor a pedir auxílio; e, como por milagre, o
Missal tinha-se transformado num livro de sugestões.
Perguntei
à senhora qual era o mal que os médicos tinham diagnosticado; e ela mostrou-me
os resultados das análises feitas.
Vi o nome da doença, procurei
no Missal e encontrei o seu remédio.
Pedi licença para usar a sua cozinha e pedi então à
empregada para me dar aquilo
que
eu precisava; pouco depois tinha tudo o
que pedira.
Para
baixar a febre, cortei uma cebola e espalhei as rodelas no chão; disse ao rapaz
para pisar a cebola com os pés descalços e para ficar assim pelo menos meia
hora.
Para
a outra doença, preparei uma cataplasma de ovo e camomila assim: duas
colherinhas de óleo de rícino, uma mão cheia de flores de camomila e um ovo.
Preparado
desta maneira: numa frigideira deitei o óleo de rícino e as flores de camomila
que fiz dourar em lume baixo; depois juntei um ovo inteiro e fiz cozer como se
fosse uma omelete; depois virei-a sobre um pano limpo e esfreguei com força a cataplasma
bem quente nas costas, dos ombros até à cintura, e para acabar, disse ao rapaz
para vestir um pijama vermelho.
Tudo isto, seguindo as
instruções do Missal.
Acabado o tratamento, ia-me embora;
mas a senhora,
cujo nome era Clotilde,
obrigou-me
a ficar, com a desculpa de estar próximo do filho.
No dia seguinte, o rapaz já estava melhor: a febre
tinha desaparecido e as dores
que sentia tinham abrandado.
Para
saber se estava curado daquele mal, era preciso esperar, repetir a massagem
durante uma semana e ter fé no Senhor.
Dirigi-me para a igreja; estava
meia aldeia à minha espera.
Entre
eles estava também a
família de Pedro,
( o rapaz deficiente ) que me
agradecia pelo milagre.
Disse-lhes que não tinha feito nenhum milagre; que se
houve milagre, deveriam agradecer ao Senhor, não a mim, que era só um seu
humilde servo.
De qualquer modo, se queriam agradecer ao Senhor,
podiam fazê-lo de duas
maneiras:
ajudar-me na reconstrução da igreja, ir à igreja todos os domingos e rezar.
Havia também a mulher do pedreiro que tinha a mão
direita anquilosada; disse-
-me que naquela manhã tinham
vindo chamar o marido para trabalhar, e que, depois eu
ter estado com
eles, tinham recebido diversas visitas, recebendo de cada vez, comida e vestuário.
E estava muito contente.
Disse a ela, o que tinha dito
aos outros: esperava-os na igreja todos os domingos.
Começaram os trabalhos; uns
levavam uma coisa, outros levavam outra.
De uma pedreira, levaram um camião cheio de restos de pedra e disseram que
poderiam levar outros quando precisássemos.
No domingo seguinte, a igreja
estava cheia.
Estava-se em pé porque não
havia bancos, mas ninguém se lamentava.
Naquele
domingo, ao ofertório, levaram-me um cesto de pão; assim pude dar a comunhão a
todos, e o que sobrou aos necessitados.
Durante
o sermão, falei do Senhor: disse que estava contente com eles, mas que
ficaria ainda mais, se todos dessem uma ajuda a quem
tivesse necessidade: de
que
não pensassem só neles; disse-lhes que quem tivesse dado uma ajuda receberia
duas.
Assim foi, para os negociantes; nunca até então os negócios tinham corrido
tão
bem como depois de terem ajudado quem
precisava.
No domingo seguinte, havia
tanta gente, que se podia pensar que toda a aldeia queria entrar na igreja; mas
já não havia lugar.
Percebi
que querendo reconstruir a igreja como era o original, seria muito pequena para
tanta gente.
Não tendo sido feito o tecto, deitaram-se abaixo duas paredes
e reconstruíram-se
muito mais para
diante. Vendo como estava a surgir a nova igreja, certamente
caberia
toda a aldeia, e comodamente sentada.
O tempo passou; e agora estava fixo em casa da senhora D. Clotilde.
A
senhora, depois da cura do seu filho, inexplicável ( no dizer dos doutores ) não
quis que me fosse embora, pondo-me à disposição tudo o que tinha pertencido ao
marido. Agradeci e aceitei, até porque ainda não tinha um lugar para dormir, e
ao relento não era muito aconselhável.
Aquilo
que fazia com métodos naturais para curar os doentes, era para eles milagre; para mim era só o método que fazia
bem com a graça de Deus.
No
entanto a notícia espalhou-se por todo Portugal e começaram a chegar doentes de
vários sítios.
Não
tinha um momento de sossego; tive de ocupar-me dos doentes da aldeia e dos que
vinham de fora.
A gente do lugar começou a
chamar-me Padre - doutor.
Também porque ali não havia
nem Centro de Saúde nem uma Farmácia.
O meu método de cura não foi visto
com bons olhos por todos, principalmente pelos médicos da terra vizinha e da
cidade mais próxima.
Fui
chamado pelo Presidente da Câmara, para me chamar a atenção; mas no fim
não fez nada; também ele
estava doente e tinha um familiar para tratar.
Por isso fui ter com ele como
me pediu.
Depois
sucedeu uma coisa pouco habitual: começou a chover a partir de segunda feira e
todos os dias seguintes.
Estava
a ficar preocupado, pois o domingo estava a aproximar-se e a igreja continuava
sem tecto.
Que deveria fazer?
Até
àquele dia nunca tinha chovido! Mas...tinha fé no Senhor; Ele não me
abandonaria.
Chegou o Domingo e a chuva
não parava.
Fui para a Igreja abrigado
debaixo do chapéu de chuva.
Quando
entrei … fiquei bloqueado: encontrava-me debaixo do arco daquela que
se devia tornar na porta da entrada; fora, chovia a
cântaros; no interior estava tudo enxuto; não caía uma gota de água. Se aquilo
não era Obra do Senhor de quem seria?...
Ajoelhei-me
e agradeci-Lhe, depois corri para a torre sineira e puxando pela corda comecei
a tocar o sino.
Continuei
a tocar, até que começou a chegar gente para ver o que sucedia na Igreja. Podeis
imaginar como ficaram ao entrar na Igreja...
Enquanto
me preparava para celebrar
a Missa, continuaram
a tocar o sino;
alguém
voltou para trás
para avisar o
outros e entre
aqueles que foram
chamados e os que ouviram o sino, pouco depois, a Igreja estava cheia de gente
da aldeia e da vizinhança.
Celebrando
a Missa, pedi a todos que se unissem a mim, para agradecer o Senhor com estas
palavras: “ O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. “
Mais uma vez comunguei com o
pão e o vinho.
Chegou Dezembro e com ele o
Natal; A Igreja estava já coberta, e, para inaugurá-la,
celebrei cinco matrimónios e
oito baptizados.
As
coisas corriam bem; os meus fiéis a quem não pedia nada, davam de sua vontade, para os
matrimónios, baptizados, funerais e Missas pelos defuntos.
Em
24 de Dezembro, celebrei a Missa da meia-noite, e depois de ter dado a
Benção final, antes de mandar sair os
fiéis, anunciei a boa notícia:
" Numa casa fora da aldeia, nasceu uma criança,
também ele como Jesus, filho de gente pobre. Como Jesus recebeu dádivas dos
pastores, também esta criança receberá dádivas de todos nós. Amanhã depois da
Missa, iremos visitá-lo e cada um de nós levar-lhe-á o que puder."
No
dia seguinte, tinha um cobertor que tinha pedido à senhora D .Clotilde; e depois da função, como prometido, dirigimo-nos para o sítio que não conhecia mas
para onde o Senhor guiava os meus passos.
Depois de ter deixado a
estrada secundária, seguimos por um carreiro e pouco depois chegámos junto de
uma casa; bem, não se podia chamar propriamente casa, antes era uma barraca,
feita com pedaços de coisas arranjadas, seguramente numa lixeira.
Bati à porta e, depois de ter
dito quem era, abriram-na.
Tinha uma só divisão que
fazia de cozinha e de quarto de dormir.
O chão era de terra batida,
coberto com erva seca.
A um lado sobre uma cama,
coberta de farrapos, estava uma jovem mulher com seu filho, nos braços.
Estendi
o cobertor sobre eles e inclinando-me beijei o pezinho do pequenino que
parecia a incarnação do
Menino Jesus; depois saí para dar lugar aos outros.
Tinha vindo muita gente, mais do que as do nosso Lugar;
entre tanta pessoas, tinha vindo também, o presidente da Junta de Freguesia.
A
sua oferta, foi a promessa de fazer construir uma nova casa no lugar daquela
barraca. Foi um Natal feliz.
Depois, um dia, chegou um carro guiado por um padre de hábito
vestido.
Perguntou
por mim e encontrando-me disse que o Bispo da Vila me queria ver imediatamente.
Como não tinha carro, fui com ele.
Chegados ao Arcebispado
mandaram-me entrar para uma sala de espera.
A espera foi longa, passei o
tempo a ler o Missal.
No
seu interior encontrei tantos conselhos; de como me devia comportar e do que devia
dizer.
Depois de uma longa espera,
fui levado à presença do Bispo.
O Bispo estendeu-me a mão com
o anel; em vez de beijá-la, apertei-lha como se fosse um igual a mim.
Disseram-me para me ajoelhar,
e respondi, que o fazia quando rezava ao Senhor.
Quis saber em que seminário
tinha estudado e quem me tinha ordenado Padre.
Contei-lhe o que me tinha
sucedido e do meu encontro com o Senhor.
O Bispo começou a rir e todos
os padres que estavam com ele.
Disse-me,
ou antes, ordenou-me que abandonasse o Lugar, e que não celebrasse mais Missas.
Perguntei-lhe quem me iria substituir.
Respondeu-me que não tinha
nada com isso.
Não me acompanharam de volta
à aldeia, pelo que tive de ir a pé.
O Senhor estava comigo; e
depois de um par de quilómetros, parou um carro.
Era
um meu paroquiano
que me deu uma boleia; e dado que as coisas que se
passam
na aldeia
se espalham velozmente,
quis saber o que é
que o Bispo queria de mim. Disse-lhe o que o Bispo me tinha ordenado:
pareceu-lhe mal, e depois de me ter deixado em casa da senhora D. Clotilde, foi
contar a toda a gente.
Estava
no meu quarto e confortava-me, lendo o Missal, quando ouvi lá em baixo na
estrada uma grande vozearia.
Debrucei-me à janela e vi uma
multidão reunida diante da casa.
Quando me viram, pediram-me
para descer.
Depois começaram a falar todos
ao mesmo tempo.
Queriam saber...
perguntavam... não sabiam nem eles o que queriam.
Disse-lhes que não fizessem
nada, o Senhor nos ajudaria.
Esperámos. Chegou o domingo e
ninguém se apresentou.
Ao
meio dia, como de costume, cheguei à Igreja seguido da gente da aldeia,
celebrei a Missa e terminei depois da Benção com “ Ide em paz e que o Senhor
vos acompanhe. “ E só então as portas da
Igreja se abriram.
Adivinham quem estava lá fora?
Um padre, mandado pelo Bispo.
Tinha
chegado, mas não pôde entrar na Igreja porque as portas estavam fechadas.
Mostrei-lhe
as portas; não tinham fechaduras; portanto se estavam fechadas, o
Senhor
devia saber a razão; certamente não queria que a função fosse perturbada.
Foi-se embora, decerto para
referi-lo ao Bispo.
No
domingo seguinte, o mesmo Padre apresentou-se de manhã cedo; às 11 horas
foi para a Igreja.
Às 11.30, começou a tocar o
sino, sozinho, pois o sineiro não apareceu.
O
povo estava reunido na praça; não se mexia para ir para a Igreja; queriam-me a mim
no lugar do Padre, mas eu não podia; eram as ordens do Bispo, não podia
celebrar.
Disseram que se eu não a
celebrasse, eles nunca mais iriam à
Missa.
Que
podia eu fazer? Pedi ajuda (como de costume) ao Missal, e encontrei a solução.
Fui para o monte das
oliveiras.
Monte
das oliveiras, olival, não era mais que uma colina onde em cima existiam
oliveiras seculares.
Como um rebanho de ovelhas,
todos me seguiram.
Chegado lá acima, apressei-me
a celebrar a Missa.
O Padre
não vendo chegar os fiéis, saiu da Igreja; e, como não viu ninguém lá fora, entrou
no carro e começou a dar voltas pela aldeia.
Voltas
e mais voltas até que chegou ao monte das oliveiras, onde viu uma multidão de
pessoas de joelhos em terra, a assistir à Missa.
Começou
a tocar a buzina; tanto que fui obrigado a interromper a função religiosa.
Aproximei-me do carro e
perguntei-lhe porque interrompia a função.
Ele respondeu que eu não devia
celebrar, eram as ordens do Bispo.
E
respondi-lhe: “ O Bispo proibiu-me de celebrar a Missa na Igreja, não no monte.
“
Então foi-se embora,
deixando-me assim continuar.
Alguns dias mais tarde, fui
de novo chamado pelo Bispo.
Não era por ter transgredido
as suas ordens, era mais grave.
Assim que cheguei ao
Arcebispado, fui imediatamente acompanhado ao Bispo o
qual
quando me viu, mostrou-me um papel onde estava escrito: Que bruxedo fizeste,
porque não posso falar?
Respondi-lhe
que não tinha feito nada, nenhum bruxedo; aquilo que lhe sucedeu o devia ao Senhor.
Disse-lhe:
“ O Senhor é o nosso dono, Ele manda a vida e a morte, se Ele quis a
Vossa voz, tomou-a. Eu não
posso fazer nada".
O
Bispo enfureceu-se, deitou para o chão tudo o que estava em cima da escrivaninha
e além disso, agarrou-me pelas bandas do casaco e começou a sacudir-me como se
fosse uma palha.
Deixei
que desabafasse; e, quando os outros padres conseguiram
acalmá-lo, disse-
-lhe
que ele devia pedir humildemente ao Senhor que lhe fizesse a graça de lhe
restituir a voz. Estava só n' Ele o poder de o satisfazer.
Cumprimentei respeitosamente
e voltei para o Lugar.
Passada uma semana mais ou
menos, fui mais uma vez chamado pelo Bispo.
Assim que
entrei no Arcebispado, vi que os Padres estavam felizes; e quando cheguei à
presença do Bispo, este veio ao meu encontro e abraçou-me dizendo:
“
Obrigado, obrigado, obrigado por me ter aberto os olhos; graças a si, pude
provar o poder do Senhor; não sei como agradecer-lhe. “
“ É simples, “ disse eu: “
Ordenando-me padre. “
“ Pensarei nisso, “ respondeu.
Voltei contente para o Lugar e quando cheguei,
quem
me encontrava, vendo-me naquele estado de espírito, congratulava-se
comigo.
Aproximava-se
o domingo e, entretanto, chegou um carro com um Padre que logo que saiu, começou a espalhar a
notícia de que, no domingo, viria o Bispo, e que haveria uma grande cerimónia.
Eu
pensava que sabia do que se tratava; não tinha falado com ninguém, pois não
tinha a certeza do que o
Bispo decidiria acerca da minha proposta.
No
domingo, chegaram vários carros; além do Bispo, estava presente a comunicação
social, Jornais e Televisão.
Para o Lugar era um acontecimento.
A Igreja estava apinhada de
gente; eu estava com os meus paroquianos, pronto a assistir à Missa, quando de
um altifalante ouvi chamarem-me.
Era o Bispo que me chamava.
Queria
que estivesse junto dele; depois, sempre através do microfone, anunciou a todos
que, daquele dia em diante, haveria mais
um Padre.
Fui mandado para a sacristia,
onde os outros Padres me prepararam, e quando fiquei pronto entrámos na Igreja.
A
cerimónia foi lindíssima e ,no fim, o meu nome tinha-se enriquecido, agora passava
a ser: Padre Italo de Jesus.
E assim terminou o sonho.

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