O
pensamento surgiu-me depois de ter lido o livro em português “ O Diário de um
Mago” de Paulo Coelho.
Falava
de uma peregrinação feita por um personagem que vinha do Brasil, e iniciava o
Caminho de Santiago partindo de Saint-Jean-Pied-de-Port (França).
Eu iniciaria o Caminho,
partindo de Vale de Figueira (Santarém).
Não
sabia quantos quilómetros seriam, nem quantos dias teria de caminhar ou se
conseguiria chegar até Santiago.
Vontade
tinha e coragem também.
Esperei até que Maria não tivesse de ir a Lisboa, para
os ensaios do Coro; depois,
tendo
a sua aprovação, preparei-me para a grande aventura.
Chegou o dia da partida; despedi-me
de Maria com um beijo e, recordando todas as
suas recomendações (
telefonar-lhe todas as noite, e se sucedesse algum imprevisto), coloquei a
mochila às costas e encaminhei-me na direcção de Pombalinho.
A
mochila estava mais pesada do que a tinha preparado na véspera; quem sabe quantas
coisas lhe teria posto Maria; à primeira
paragem dar-lhe-ei uma espreitadela.
Não seguia o caminho
indicado; andava por minha conta.
Quando
comecei a sentir fome, procurei um restaurante dos camionistas, onde certamente
pagaria pouco.
Quando o vi, entrei e
deixando a mochila a um canto, sentei-me num lugar vago.
Aproximou-se o dono que me
perguntou se era turista, ao que eu respondi que era um peregrino.
Perguntou-me se ia a Fátima;
respondi-lhe que passava por lá, mas que a minha meta era Santiago de
Compostela.
Ficou
surpreendido com a minha resposta; olhando para mim e vendo que eu já não era jovem, perguntou se eu conseguiria
lá chegar. Respondi: “ Com a ajuda
do
Senhor, decerto”.
Perguntou-me o que eu queria
comer; pedi só uma sopa e pão.
Além da sopa, trouxe também
carne com batatas.
Procurei recusar a carne para
não gastar muito, mas ele disse:” É oferta da casa”.
Agradeci e, quando acabei,
como agradecimento, dei-lhe uma “Ferratella” dizendo-
-lhe que tinha sido feita
antes de partir.
Aceitou-a, dizendo que a
daria a seu filho, que estava em casa doente.
E retomei o caminho.
A noite surpreendeu-me numa
aldeia.
Pedi hospitalidade para a
noite.
Depois
de ter pedido em várias casas, fui aceite; mas devia arranjar-me perto da
entrada.
Da
mochila tirei o saco cama, meti-me dentro, usando a mochila como almofada,
e adormeci imediatamente;
quer isto dizer que estava mesmo cansado.
No dia seguinte, para
agradecer, ofereci uma Ferratella e retomei o caminho.
A cada paragem que fazia, se devia pagar, pagava, mas
não dava nada; quando
era
oferecida a hospitalidade ou a refeição, eu agradecia com uma Ferratella.
Não
sei quanto andei; mas sei que os dias passavam.
Todas
as noites telefonava a Maria, contando-lhe o que tinha feito naquele dia.
Uma
noite Maria disse-me que estavam a suceder coisas estranhas em Portugal.
Havia
gente que dizia ter sido curada depois de terem comido não sabiam o quê.
Eu
não sabia de nada, não tinha tempo de ver a televisão, nem de ler os jornais, tinha
mais
em que pensar.
Despedimo-nos, desejando-nos
mutuamente uma Boa Noite.
Na noite seguinte ao chamar
Maria, ela disse-me; ” Uma senhora ficou curada, depois de ter comido um
biscoito, oferecido por um peregrino estrangeiro”.
Respondi-lhe que certamente
era um santo, vestido de peregrino, que andava por aí a fazer milagres.
No
dia seguinte, mandaram-me parar; perguntaram-me se eu era aquele que dava
biscoitos milagrosos.
Respondi
que não.
Não
tinha biscoitos, só pão. Não falei nas Ferratelle.
A cada quilómetro que fazia
ou ainda menos, mandavam-me parar.
Queriam saber; e alguns, não
acreditando, queriam ver dentro da mochila.
Que canseira começava a ser
aquela peregrinação!...
Agora
já não dava mais Ferratelle quando me ofereciam de comer ou de dormir;
limitava-me a agradecer e seguia caminho.
À noite, falando a Maria,
pedia notícias dos miraculados.
Parecia que tinham acabado os
milagres.
Procurando não me fazer ouvir
pelos outros, disse-lhe das Ferratelle.
Maria,
que precisava de um milagre para curar
as dores nas costas, disse: “ Se as Ferratelle fazem milagres, vê lá se guardas
uma para mim ”.
Disse-lhe
que, no dia seguinte, daria uma
Ferratella a um necessitado, e depois
veríamos na televisão, o que tinha sucedido.
Assim fiz.
A
um mendigo disse que não tinha dinheiro, mas que lhe podia dar uma Ferratella
que me tinha dado um peregrino, alto com cabelos loiros, certamente um alemão.
À noite telefonando a Maria,
vim a saber que se procurava um
peregrino alto e loiro de origem alemã.
Assim descobrimos: eram as
Ferratelle a fazer os milagres.
O que é que tinha acontecido?
Deste modo a minha
peregrinação podia-se dizer acabada.
Havia muita gente a fazer-me
parar, assim como aos outros peregrinos.
O que podia fazer?
A mochila não a podia deitar
fora com tudo o que tinha dentro; como é que a podia esconder?
À noite pedi hospitalidade num
convento.
Fui acolhido, e não me
fizeram perguntas.
Deram-me comida e um leito
para dormir.
Não sabia como agradecer.
Tinha ainda Ferratelle; dá-las-ia
e depois que sucederia?
De noite não consegui dormir;
demasiados pensamentos me perseguiam; tinha-me esquecido de telefonar a Maria;
como devia estar em cuidado...
Na
manhã seguinte, em primeiro lugar, telefonei-lhe, pedindo-lhe desculpa e
contando-lhe os últimos
acontecimentos, dizendo-lhe onde estava naquele momento.
Estava a poucos quilómetros
de Santiago, e não sabia como sair do convento.
Tinha-se
espalhado a notícia de terem visto um peregrino entrar no convento e
por isso estava uma multidão de curiosos e de
jornalistas.
Advertiram-me que o Prior
queria falar comigo.
Fui
ter com ele e ele olhando-me nos olhos, disse-me:” És tu aquele que faz milagres”.
Respondi-lhe
que não sabia nada disso; que me limitava a rezar ao Senhor para me dar forças
para caminhar e agradecia com uma Ferratella ( que mostrei) a quem me
fazia bem.
Não era um santo: certamente
como eu me via, não iria para o Paraíso; não percebia o que tinha sucedido;
decerto, disse, era certamente obra do
Senhor.
Perguntei-lhe
como poderia prosseguir viagem; respondeu-me que não me preocupasse.
Assistiria
à Missa, depois tomaria o pequeno almoço e de seguida meter-me-ia a caminho.
Mas
como fazer com aqueles que me esperavam fora do convento?
Disse, para não pensar mais
nisso; certamente o Senhor me ajudaria.
Tendo assistido às funções religiosas, comi,
juntamente com os outros frades e com
as
pernas que me tremiam, dirigi-me para o portão.
O
Prior em pessoa, veio-me acompanhar.
Depois
de o ter cumprimentado e de me ter despedido, saí do convento e fiz como me
tinha sido dito: caminhei como se lá fora não estivesse ninguém.
Não
obstante estar lá tanta gente, passei
entre eles, e como se eles não me tivessem visto, prossegui o caminho.
Sucedeu,
como se eu me tivesse tornado invisível!...
Para
minha sorte foi só um sonho.

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