segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sonho n.4 A +eregrinação a Santiago de Compostela ano 2006

 
O pensamento surgiu-me depois de ter lido o livro em português “ O Diário de um Mago” de Paulo Coelho.
Falava de uma peregrinação feita por um personagem que vinha do Brasil, e iniciava o Caminho de Santiago partindo de Saint-Jean-Pied-de-Port (França).
Eu iniciaria o Caminho, partindo de Vale de Figueira (Santarém).
Não sabia quantos quilómetros seriam, nem quantos dias teria de caminhar ou se conseguiria chegar até Santiago.
Vontade tinha e coragem também.
Esperei até que Maria não tivesse de ir a Lisboa, para os ensaios do Coro;  depois,
tendo a sua aprovação, preparei-me para a grande aventura.
Chegou o dia da partida; despedi-me de Maria com um beijo e, recordando todas as
suas recomendações ( telefonar-lhe todas as noite, e se sucedesse algum imprevisto), coloquei a mochila às costas e encaminhei-me na direcção de Pombalinho.
A mochila estava mais pesada do que a tinha preparado na véspera; quem sabe quantas coisas lhe teria posto Maria;  à primeira paragem dar-lhe-ei uma espreitadela.
Não seguia o caminho indicado; andava por minha conta.
Quando comecei a sentir fome, procurei um restaurante dos camionistas, onde certamente pagaria pouco.
Quando o vi, entrei e deixando a mochila a um canto, sentei-me num lugar vago.
Aproximou-se o dono que me perguntou se era turista, ao que eu respondi que era um peregrino.
Perguntou-me se ia a Fátima; respondi-lhe que passava por lá, mas que a minha meta era Santiago de Compostela.
Ficou surpreendido com a minha resposta; olhando para mim e vendo que eu já não era  jovem, perguntou se  eu  conseguiria  lá chegar. Respondi: “ Com  a  ajuda do
Senhor, decerto”.
Perguntou-me o que eu queria comer; pedi só uma sopa e pão.
Além da sopa, trouxe também carne  com batatas.
Procurei recusar a carne para não gastar muito, mas ele disse:” É oferta da casa”.
Agradeci e, quando acabei, como agradecimento, dei-lhe uma “Ferratella” dizendo-
-lhe que tinha sido feita antes de partir.
Aceitou-a, dizendo que a daria a seu filho, que estava em casa doente.
E retomei o caminho.
A noite surpreendeu-me numa aldeia.
Pedi hospitalidade para a noite.
Depois de ter pedido em várias casas, fui aceite; mas devia arranjar-me perto da entrada.
Da mochila tirei o saco cama, meti-me dentro, usando a mochila como almofada,
e adormeci imediatamente; quer isto dizer que estava mesmo cansado.  
No dia seguinte, para agradecer, ofereci uma Ferratella e retomei o caminho.
A cada paragem que fazia, se devia pagar, pagava, mas não dava nada; quando
era oferecida a hospitalidade ou a refeição, eu agradecia com uma Ferratella.
Não sei quanto andei; mas sei que os dias passavam.
Todas as noites telefonava a Maria, contando-lhe o que tinha feito naquele dia.
Uma noite Maria disse-me que estavam a suceder coisas estranhas em Portugal.
Havia gente que dizia ter sido curada depois de terem comido não sabiam o quê.
Eu não sabia de nada, não tinha tempo de ver a televisão, nem de ler os jornais, tinha
mais em que pensar.
Despedimo-nos, desejando-nos mutuamente uma Boa Noite.
Na noite seguinte ao chamar Maria, ela disse-me; ” Uma senhora ficou curada, depois de ter comido um biscoito, oferecido por um peregrino estrangeiro”.
Respondi-lhe que certamente era um santo, vestido de peregrino, que andava por aí a fazer milagres.
No dia seguinte, mandaram-me parar; perguntaram-me se eu era aquele que dava biscoitos milagrosos.
Respondi que não.
Não tinha biscoitos, só pão. Não falei nas Ferratelle.
A cada quilómetro que fazia ou ainda menos, mandavam-me parar.
Queriam saber; e alguns, não acreditando, queriam ver dentro da mochila.
Que canseira começava a ser aquela peregrinação!...
Agora já não dava mais Ferratelle quando me ofereciam de comer ou de dormir; limitava-me a agradecer e seguia caminho.
À noite, falando a Maria, pedia notícias dos miraculados.
Parecia que tinham acabado os milagres.
Procurando não me fazer ouvir pelos outros, disse-lhe das Ferratelle.
Maria, que precisava de um milagre para  curar as dores nas costas, disse: “ Se as Ferratelle fazem milagres, vê lá se guardas uma para mim ”.
Disse-lhe que, no dia seguinte,  daria uma Ferratella a um necessitado,  e depois veríamos na televisão, o que tinha sucedido.
Assim fiz.
A um mendigo disse que não tinha dinheiro, mas que lhe podia dar uma Ferratella que me tinha dado um peregrino, alto com cabelos loiros, certamente um alemão.
À noite telefonando a Maria, vim  a saber que se procurava um peregrino alto e loiro de origem alemã.
Assim descobrimos: eram as Ferratelle a fazer os milagres.
O que é que tinha acontecido?
Deste modo a minha peregrinação podia-se dizer acabada.
Havia muita gente a fazer-me parar, assim como aos outros peregrinos.
O que podia fazer?
A mochila não a podia deitar fora com tudo o que tinha dentro; como é que a podia esconder?
À noite pedi hospitalidade num convento.
Fui acolhido, e não me fizeram perguntas.
Deram-me comida e um leito para dormir.
Não sabia como agradecer.
Tinha ainda Ferratelle; dá-las-ia e depois que sucederia?
De noite não consegui dormir; demasiados pensamentos me perseguiam; tinha-me esquecido de telefonar a Maria; como devia estar em cuidado...
Na manhã seguinte,  em primeiro lugar,  telefonei-lhe, pedindo-lhe desculpa e
contando-lhe os últimos acontecimentos, dizendo-lhe onde estava naquele momento.
Estava a poucos quilómetros de Santiago, e não sabia como sair do convento.
Tinha-se espalhado a notícia de terem visto um peregrino entrar no convento e
 por isso estava uma multidão de curiosos e de jornalistas.
Advertiram-me que o Prior queria falar comigo.
Fui ter com ele e ele olhando-me nos olhos, disse-me:” És tu aquele que faz milagres”.
Respondi-lhe que não sabia nada disso; que me limitava a rezar ao Senhor para me dar forças para caminhar e agradecia com uma Ferratella ( que mostrei) a quem me fazia  bem.
Não era um santo: certamente como eu me via, não iria para o Paraíso; não percebia o que tinha sucedido; decerto, disse, era certamente  obra do Senhor.
Perguntei-lhe como poderia prosseguir viagem; respondeu-me que não me preocupasse.
Assistiria à Missa, depois tomaria o pequeno almoço e de seguida meter-me-ia a caminho.
Mas como fazer com aqueles que me esperavam fora do convento?
Disse, para não pensar mais nisso; certamente o Senhor me ajudaria.
Tendo assistido às funções religiosas, comi, juntamente com os outros frades e com
as pernas que me tremiam, dirigi-me para o portão.
O Prior em pessoa, veio-me  acompanhar.
Depois de o ter cumprimentado e de me ter despedido, saí do convento e fiz como me tinha sido dito: caminhei como se lá fora não estivesse ninguém.
Não obstante estar  lá tanta gente, passei entre eles, e como se eles não me tivessem visto, prossegui o caminho.
Sucedeu, como se eu me tivesse tornado invisível!...
Para minha sorte foi só um sonho.

                                    

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