domingo, 8 de setembro de 2013

Sogno n.1 A mina de ouro ano 2006


Sonhei que era um escritor de aventuras.
Estava em Portugal à procura de uma ideia para um novo conto.
Tinha alugado um Opel Corsa e saindo de Lisboa,  dirigi-me para o interior do país.
Em cada cidade, aldeia ou lugar, ficava um dia ou dois, mas  partia de seguida, pois a ideia não chegava.
Viajando,viajando  fui surpreendido uma noite entre os montes da Serra da Falperra, quando o carro parou.
Decerto foi por minha distracção pois tinha-me esquecido de meter gasolina; quem sabe o que estava a pensar…
E agora? Onde é que estava? Desde há muito tempo que não encontrava nem casas, nem carros!
Que fazer? Certamente não podia ficar no carro. E depois a fazer o quê?
Como verdadeiro aventureiro ou inconsciente, deixei o carro e comecei a caminhar.
Felizmente estava lua cheia, por isso, pelo menos via a estrada.
Não sei quanto andei nem quanto tempo passou. Estava cansado de caminhar e tinha sono.
Disse para mim mesmo: mais cinco minutos, se não encontro abrigo, atiro-me para debaixo de uma árvore e ponho-me a dormir aconteça  o que acontecer.
Não passaram dois minutos que, atrás de uma curva, apareceu uma luz.
Uma luz!
Uma luz queria dizer tantas coisas, entre elas uma casa.
Quando me aproximei da luz, compreendi que se tratava de uma casa, ou por outra, casas, visto que  eram diversas, mas só  numa se via luz.
 E se havia luz, queria dizer que alguém estava ainda acordado.
Aproximei-me da porta de entrada  e não encontrando campainha, bati à porta.
Depois de não sei quanto tempo, ouvi alguém a aproximar-se.
“ Quem é? ” - perguntou.   “ Eu “ – respondi.
Como resposta de certo, não fui convincente
 “Não vos conheço.”
 Certamente, não me podia conhecer, pois era a primeira vez que me encontrava por aqueles sítios.
Respondi que era um viajante que tinha ficado sem gasolina  entre  os montes, e que procurava um  alojamento, contentando-me em dormir no curral.
A porta abriu-se e vi que se tratava de uma mulher de meia idade.
Evidentemente o meu aspecto dava confiança, tanto é que me mandou entrar.
Perguntei se o seu marido me arranjava um lugar para dormir, e declarei que estava disposto a pagar o que me pedisse.
Disse que era viúva.
“Tenho pena” respondi.
Perguntou-me se tinha fome.
Já nem me lembrava, quando tinha comido pela última vez.
Tinha de contentar-me com o que tinha.
Respondi-lhe que para mim estava tudo bem.
Enquanto comia, pão e queijo e bebia leite, apareceu uma linda rapariga.
Via-se que tinha acordado naquele momento.
Levantei-me da cadeira, e desculpando-me pelo incómodo, apresentei-me:
“Chamo-me Italo Bianchi, sou um escritor italiano e encontro-me em Portugal para escrever uma história.”
A senhora D. Maria  da Felicidade, como tinha dito que era o seu nome, disse:
“ Se o senhor está â procura de uma história, encontra-se no sítio certo “.
Mas como a hora já era avançada, falaríamos no dia seguinte.
Indicaram-me um quartinho, que de certeza pertencia à rapariga.
O quarto exalava  perfume  de alfazema.
Quando me deitei adormeci imediatamente.
Na manhã seguinte, depois de ter tomado uma grande caneca de leite e pão, escutei a sua história.
O senhor Domingos Ferreira da Silva e a senhora D. Maria da Felicidade, vieram de Chaves, onde tinham uma empresa.
Depois de tantos anos, cansados da vida da cidade, tinham resolvido vender tudo e mudarem-se para o campo.
A ideia de viverem no campo sempre os tinha entusiasmado. O ar puro, o canto dos pássaros, a gente simples e sincera… Tudo isto os atraía.
Assim, tanto procuraram que chegaram a Vila Pouca de Aguiar.
Seguia-os uma criança  chamada Serena.
Em Vila Pouca de Aguiar procuraram uma agência imobiliária, onde disseram o que procuravam: uma casa com um terreno à volta.
Sim, havia  uma mesmo como eles queriam; encontrava-se numa aldeia de nome  Barrela, pouco distante da cidade.
Mas se estavam interessados, deveriam falar com o proprietário, o senhor Franz Schneider.
E indicou-lhes onde era a habitação deste senhor Schneider.
Era um rico proprietário e habitava numa belíssima quinta, com muita  gente ao seu serviço.
Começaram a falar, e  entre um copo de vinho e um outro, foi-lhes proposto  aquilo que deveria ser um óptimo negócio: junto com a casa, havia também um óptimo campo e uma mina de ouro.
Uma mina de ouro? Tinham ouvido bem?
A expressão mina de ouro surtiu, para eles, um certo efeito.
E porque o senhor Franz a queria vender?
Ele respondeu que tinha muitas coisas em que pensar.
Será que havia qualquer coisa obscura?
Tendo vivido na cidade, eram conhecedores de tantas aldrabices contra gente inexperiente!
O senhor Franz , vendo a sua desconfiança, convidou-os a voltar no dia seguinte.   Fornecer-lhes-ia  a prova da sua sinceridade.
No dia seguinte estavam lá mais dois homens. Um era um analista de minas e o outro era um  notário.
O analista tinha consigo uma pedra e um certificado que declarava que dentro da pedra se encontravam traços de ouro.
O notário, levava o contrato de venda.
A soma pedida era de 25 milhões de escudos.
Um exagero!!!  Onde é que iriam encontrar todo aquele dinheiro?
Mas , o senhor Franz Schneider, como descobriram mais tarde, era uma raposa, um aldrabão da pior espécie!
Com várias frases enganadoras  aceitou tudo o que tinham ,e  além disso,  fez  assinar ao senhor Domingos vários cheques cuja soma ( incluindo juros) era de 15 milhões de escudos.
Disse-lhes que pagariam com o ouro extraído.
O senhor Domingos que não percebia nada de minas, pois sempre tinha trabalhado noutro sector, pensava que bastava cavar, com a ajuda de alguém
Quando falou disto, lá na aldeia, todos riram dele.
O ouro!... Desde o tempo dos romanos que já não se encontrava.
E o que mostrou o senhor Shneider? Claro que não vinha da mina.
O senhor Domingos percebeu então que tinha sido enganado. Mas não se deu por vencido; foi a casa do senhor Franz que, não só não o quis receber como o mandou pôr fora da porta.
Foram à polícia fazer a denúncia. Foi-lhes dito para irem para a Justiça.
Para a Justiça, Tribunal, …com que dinheiro pagariam ao advogado?
Assim o senhor Domingos começou a cavar, a cavar, até que morreu sepultado por um desmoronamento.
E assim, ficou sozinha a viúva com a filha Serena.
O senhor  Franz  não  pretendeu  imediatamente  o  pagamento  dos  cheques, limitando-se a esperar.
Entretanto a senhora  D. Maria foi trabalhar para o senhor Franz, por um pedaço de pão para ela e para Serena.
Ele   tinha  um  filho  chamado  Rudy,  digno filho de tal pai, bom, só a fazer  confusões, a armar sarilhos e a incomodar as raparigas. Rudy  cismava com Serena, desejava-a a todo o custo; mas ela não o queria, pois estava apaixonada por Ricardo, um bom rapaz que trabalhava na contabilidade do senhor Franz, mas, como todos os outros empregados, era muito mal pago.
O senhor Franz era o homem mais rico da região transmontana: tinha um hotel, um restaurante, um banco e várias lojas;  e,  nos arredores, era também dono  de várias propriedades e quintas, fruto de quem sabe quantas aldrabices!.
Ele  tinha estabelecido uma data para o casamento de Serena com o seu filho; se recusassem, teria posto em pagamento os cheques assinados pelo defunto senhor Domingos;  só com o casamento dos dois ficaria extinto o débito.
Além disso, o senhor Franz  pretendia que Serena ficasse virgem até ao casamento.
E aquela data já estava próxima…
Fiquei chocado com aquela história.
Como podiam suceder estas coisas neste tempo?
Nunca suportei  nem injustiças, nem prepotências.
Tive uma ideia, mas não lhes disse nada.
Limitei-me a dizer: ” Quero comprar a vossa mina.”
A senhora D. Maria e Serena, responderam-me que nem pensar nisso.
A mina não valia nada e elas não podiam aceitar a minha ajuda.
Respondi-lhes: “Tenho dinheiro de parte e  uma ideia na cabeça. A mina daria oiro”.
E como era possível?
Disse-lhes o   que pensava: ” Com os meios modernos, com sondas, farei sondar toda a mina, farei escavar com as máquinas, nem que tenha  de chegar ao centro da terra. Como  disse o príncipe Torlónia: ” Ou conseguirei enxugar o Lago de Fucino ou será o lago a enxugar as minhas algibeiras!"  
" O Príncipe conseguiu  enxugar o Lago. Assim, ou conseguirei desfrutar da mina de ouro ou será a mina a desfrutar das minha algibeiras.”
Nunca tinham ouvido falar do Príncipe Torlónia, mas ficaram convencidas com as minhas palavras.
Em primeiro lugar, com a ajuda de um rapaz lá da terra, fomos recuperar o carro enchendo-o de gasolina.
Depois fomos a Vila Real e, na presença de um notário, assinei o acto de compra de mina com todo o terreno à volta, por um valor de 300.000 €
Era  quanto  deviam ao senhor Franz Shneider.
Pus no entanto,  uma cláusula: todo o ouro extraído seria dividido por dois.
Passei um cheque da Caixa Geral de Depósitos.
Concluído o acto  notarial, dirigimo-nos ao escritório de um óptimo advogado que nos foi indicado pelo notário. O advogado ter-se-ia posto em contacto com o senhor Franz informando-o da disponibilidade da senhora D. Maria para saldar o débito, e que levasse consigo os cheques assinados pelo senhor Domingos.
Tendo que pôr em prática a minha ideia, despedi-me da senhora  Maria e de Serena, dizendo-lhes que tinha que partir para Itália por motivos pessoais, mas que estaria de volta o mais rapidamente possível.
Fiz-lhes prometer que não diriam nada a ninguém  acerca da venda da mina.
Depois  dirigi-me ao aeroporto de Lisboa, onde apanhei o avião para Roma, e  de lá para a África do Sul, mais propriamente para  Johannesburg.
No dia seguinte fui visitar o senhor Harry Stride, proprietário, sim, de uma mina de ouro.
Tinha-o conhecido quando estivera  em África, para escrever um livro.
Durante um safari salvei-lhe a vida , quando foi atacado por um leão.
O senhor Harry quis recompensar-me abundantemente, mas não aceitei; aceitei só a sua amizade.
Ele então disse-me que estava disponível sempre que precisasse dele.
Nesta altura, partindo de Itália, levei-lhe uma confecção de luxo de  charutos Toscanos. Conhecendo o seu vício, sabia que seriam aceites com muito prazer.
Durante a lauta refeição que me ofereceu, contei-lhe os últimos acontecimentos e  referi em especial, a mina portuguesa.
Disse que queria dar ao senhor Franz  “ Olho por olho, dente por dente.”
Harry estava disposto a ajudar-me.
Assim, no regresso a Portugal, encontrei fora do aeroporto, um Land Rover com um caixote de pelo menos 200 quilos de minério proveniente das suas minas.
Graças aos seus conhecimentos e ao seu dinheiro, tinha conseguido superar o controle da Alfândega portuguesa.
Conhecendo o percurso e o interior da mina, consegui chegar  sem que ninguém me visse;  e,  com muita fadiga, descarreguei o material que tinha trazido, arrumando-o nos pontos estudados com Harry.
Acabado o trabalho, afastei-me dirigindo-me para Vila Real onde seguindo as instruções de Harry, deixei o Land Rover e  mudando-me para um outro carro dirigi-
-me para o hotel que tinha marcado de Roma.
Fiquei dois dias em Vila Real, durante os quais repousei como deve ser.
Parti depois para Barrela, apresentando-me em casa da senhora  D. Maria, levando os presentes que tinha comprado em Roma, para ela e para Serena.
Fui recebido como um amigo. Contei-lhes da minha viagem a Roma, mas não   lhes disse nada da outra viagem.
Pedi que  me acompanhassem  à mina e,  ali, apanhei uma pedra ao acaso;   assim o  dei a entender.                   
Perguntei se conheciam algum mineiro para mostrar aquela pedra; não conheciam  mas se me dirigisse na direcção de Alfarela de Jales, sendo essa uma zona de minas, certamente encontraria alguém.
Assim fiz.
Ao meu pedido, muitos faziam perguntas,  mas ninguém me sabia dizer a composição da pedra que mostrava.
Aliás,  muitos sabiam que eu era o novo proprietário da mina de Barrela.
A maior parte deles ria de mim, chamavam-me doido por ter comprado por 3.000.000€ uma mina, que só podia dar pedras sem valor.
Disse que me tinha alojado em Vila Pouca de Aguiar, no Hotel Califa  ( sabia que pertencia ao senhor Franz Shneider), e que daria uma recompensa a quem me encontrasse um verdadeiro mineiro, mesmo que fosse velho.
Chegaram  alguns falsos mineiros,   os  quais  não  me  convenceram sobre a composição da pedra.
Alguns dias depois chegou um verdadeiro mineiro.
Ao acompanhante dei 100 €
Era um velho mineiro; chamava-se João Martin,   e  teria uns 80 anos.
Disse que tinha sempre trabalhado nas minas, um pouco por   todo o lado.  
Tinha estado na Bélgica, na Alemanha, na França e na Rússia.
Quis ver a pedra; olhou para ela, e eu soube logo a resposta,   vi-o nos seus olhos.
Olhando para a pedra, embora superficialmente, disse logo que continha ouro.
Quis saber onde a tinha encontrado
Disse-lhe que a tinha apanhado num monte de pedras junto da mina que tinha pertencido ao senhor Domingos da Silva.
Quis que o acompanhasse ao sítio.
Apanhámos a estrada para Alfarela de Jales; antes de chegar desviei para Vreia de Jales.
Ultrapassada a aldeia, encontrámo-nos numa zona cheia de minas abandonadas.
Não parei, mas prossegui para Barela.
Chegados  lá, parei defronte da casa da senhora  D. Maria da Felicidade que era a viúva do senhor Domingos.
Sendo domingo, a senhora D. Maria e Serena não trabalhavam.
Apresentei o senhor João, e  pedi-lhe que  repetisse o que me tinha dito.
À palavra “ouro”, disseram que era brincadeira.
Perguntei-lhes se nos queriam acompanhar à mina.
Quando chegámos,  o senhor João começou a girar entre montes de pedra e, de vez em quando, apanhava  algumas.
Olhava bem para elas, e às vezes deitava-as fora.
Tinha conservado seis.
Voltou para junto de nós e ,mostrando-as, disse que continham ouro.
Nessa altura, a senhora D. Maria e Serena perceberam que não estávamos a brincar.                                      
O senhor João queria entrar na mina, mas não tínhamos nada que fizesse luz; assim voltámos para casa.
Depois de almoçarmos  numa atmosfera alegre, já com lanternas, voltámos à mina.
Entrando, pedi à senhora D.  Maria para mostrar onde é que tinha acontecido a derrocada que tinha matado  o marido.
Deixei-os ir à frente, não mostrando que eu já lá tinha estado.
Chegados ao lugar, como era de esperar, o senhor João encontrou o minério (que eu lá tinha posto). E mostrando-o disse: “A derrocada deixou à mostra um filão de ouro, que, se é como parece, fará todos ricos.”
Saímos da mina com muitas pedras.
Tanta era a alegria por ter encontrado ouro, que a senhora D. Maria e Serena, não paravam de rir e de beijar quer a mim quer ao senhor João.
Quando voltámos  a casa, fiz prometer a todos que não diriam nada a ninguém acerca da descoberta do ouro, para não sermos roubados.
Antes, precisava de arranjar vigilância para a mina.
Perguntei ao senhor João se queria trabalhar para mim, não como mineiro mas como director dos trabalhos.
Dar-lhe-ia um ordenado de 5.000 euros por mês.
Respondeu que já não tinha idade para isso; procurou recusar, mas depois,  pensando quanto ia ganhar, aceitou.
Era muito, mas muito mais do que tinha de reforma.
Acompanhei o senhor João a casa e dei-lhe um cheque de 1.000 euros, dizendo que era uma parte do seu ordenado.
Na manhã seguinte fui a Vila Real  ao posto da Polícia  pedir alguns agentes para
vigiarem a mina. Não tinham ; mas indicaram-me uma agência privada, onde teria
encontrado  o que  desejava.
Expliquei  o que pretendia; indicaram-me quatro jovens que só olhar para eles metia  medo.
Combinámos o ordenado e ficaram à minha disposição, logo naquele dia.
A alimentação e alojamento eram por minha conta.
Quando voltei a Vila Pouca de Aguiar, fui a casa do senhor João, onde a família me recebeu como um príncipe.
O senhor João  não tinha ficado calado: tinha-lhes falado do ouro encontrado na mina, e do seu cargo de director dos trabalhos.
Perguntaram se também haveria trabalho para eles.
Respondi que, para quem tinha vontade de  trabalhar, havia trabalho.
De momento precisava de homens para fazer uma boa vedação da propriedade.
Pagar-lhes-ia  50 euros, por oito horas de trabalho diário.
Sabia que o senhor Franz pagava 25 euros por 12 horas .
No dia seguinte apresentaram-se mais de 100 homens.
Querendo fazer as coisas como manda a lei, precisava também de um contabilista.
Ricardo, o namorado de Serena, era contabilista às ordens do senhor Franz; deixou o lugar e veio trabalhar para mim com o dobro do ordenado.    
Como era de esperar, recebi um convite para ir à fazenda do senhor Franz.
Recusei tal convite, dizendo: "Se me quer falar, que venha ter comigo."
Veio ao hotel, onde  eu me tinha hospedado ( que aliás era  sua propriedade).
Perguntou-me  que jogo  jogava; se era verdade o que se ouvia.
Como um jogador de poker, não mostrei o meu jogo.
Se queria ver o ouro, devia ir à Caixa Geral de Depósitos onde estava guardado o
minério encontrado; e podia levar consigo aquele seu entendido.
Lamentou-se de eu lhe estar a roubar toda a gente que trabalhava para ele.
Perguntei-lhe se tinha todos os contratos em regra.
Não respondeu, porque não os tinha, e foi-se embora fazendo ameaças.
Mas quem era este senhor Franz Schnaider?
Aquilo que  vim  a  saber,  eram  sobretudo  vozes,  conversas, mas nada de concreto.
O senhor Franz Schneider era de nacionalidade alemã, proveniente da Baixa Saxónia, da cidade de Bremen.
Tinha vindo  para Portugal em 1970, com uma boa quantia em dinheiro alemão; e fixara  residência nos arredores de Vila Pouca de Aguiar, onde comprara  uma grande quinta.
Conta-se,  que  conseguiu  em  poucos anos  comprar todas as propriedades  vizinhas à sua ( mas não se sabe bem como…)
E, comprando com nada, para não dizer com poucos escudos, e vendendo logo a seguir por muitos, transformou-se no homem mais rico da região.
Casou-se com  uma  linda rapariga, filha de um proprietário que se arruinou, o que também não se sabe bem porquê!
Por outras palavras, comprou uma mulher... Durante algum tempo, não tiveram filhos; depois a mulher engravidou e teve um filho a que chamou Rudy.
Sobre este filho, não se sabe bem a história.    
Há quem diga que seja filho dum criado que desapareceu, ou de um cidadão alemão que desapareceu; o facto é que de tantas mulheres que foram abusadas por  ele,  só a mulher é que engravidou…
Fez-se um bom trabalho de vedação, embora me tenha custado 15.000 euros.
A  senhora  D.  Maria,  sabendo que  recebia  metade  do  ouro  que  se extraísse,  queria que se começasse logo a escavar.
Sabendo eu que o ouro era só aquele que tinha trazido da África do Sul, procurei dar tempo, aludindo à segurança dos trabalhadores nas galerias, já velhas de séculos.                          
De qualquer modo, se tinham necessidade de dinheiro, era só dizerem-me, que depois lho descontava futuramente.
Em Alfarelos de Jales, havia um prédio para alugar; aluguei-o e fiz dele o meu escritório e a minha habitação.
Assim pude deixar o hotel Califa, em Vila Pouca de Aguiar , transferindo-me para  lá.
A senhora D. Maria, queria que fosse viver com elas.
Recusei, dizendo que não queria comprometê-la, referindo-me aos mexericos da gente da aldeia.
A notícia do ouro encontrado deu a volta a Portugal e ao estrangeiro.
Estávamos constantemente cercados por jornalistas, fotógrafos e televisão.
Todos queriam ver a mina de ouro.
Ver a mina?
Nem sequer  pensar  nisso!  
Se queriam falar, podiam pedir ao director dos trabalhos; se queriam ver o ouro, podiam vê-lo na Caixa Geral de Depósitos de Vila Pouca de Aguiar (que não pertencia ao senhor Franz!).
A vedação e os guardas (que tinham aumentado de número e também tinham cães), não deixavam entrar ninguém que não fosse autorizado.
Os operários e o pessoal  tinham todos passes de identificação; sabiam todos  que arriscavam o posto de trabalho, se deixavam entrar pessoas estranhas.
Os trabalhos de desentulho, de construção de barracões onde ficariam as máquinas, os barracões dos refeitórios, os alojamentos para os guardas, os novos reforços  das galerias, não tinham  fim…
O horário estabelecido, de oito horas diárias, era respeitado.
E depois, havia aqueles que queriam entrar na sociedade connosco...
Eram recusados.
Infelizmente o meu dinheiro estava acabando.
Tinha necessidade de um  financiamento do Estado Português.
Ter   um   financiamento,   não  foi  fácil;  não  era  cidadão  português  e  não  era residente em Portugal.
Era proprietário de uma mina, mas não dava suficiente garantia da existência de oiro em grande quantidade.
Além disso, havia alguém que me punha obstáculos.
Depois, veio um sul-africano, não se sabe como, parece que era proprietário  de minas de ouro na África do Sul.     
Queria investir um milhão de dólares na minha mina.
Mas para fazer isto, deveria ter autorização do Governo Português.
Quando se soube deste  investidor, voltou a aparecer o senhor Franz.
Queria recomprar a mina e oferecia 500.000 euros.
Recebi-o no meu novo escritório e disse-lhe: “ Quando a mina não valia nada, pediu 25 milhões de escudos ao senhor Domingos da Silva por um casebre, um campo cheio de pedras e uma mina, mostrando-lhe uma pedra, fazendo-o acreditar que a mina era rica em ouro.
Pela sua cobiça , provocou-lhe a morte. Agora, que sabe  que, há ouro de verdade, vem  oferecer-me 500.000 euros.
Mas por quem me toma? Se quisesse …se eu quisesse vender a mina  agora, como está,  não a venderei por menos de um milhão de euros. É rico, possui tudo, se quiser tornar-se ainda mais rico, deve pagar um milhão de euros e nem um cêntimo a menos. Procure  decidir-se  depressa, porque , quando receber o investimento de um milhão de dólares, farei iniciar as escavações, e então… já não a vendo”.
Às  palavras, um  milhão  de  euros, o senhor Franz empalideceu  e começou a balbuciar: ”  umm    mimmilhlhão de euros!...   Mesmo  que quisesse, onde  é  que os
encontro? “
“ Isso não me interessa; tem  um banco, tire -os de lá! “
O tempo ia passando.
Já tinham chegado as máquinas para a laboração do minério.
Deviam chegar os técnicos para a montagem.
Todos os mineiros estavam impacientes para começar a escavação.
Eu tinha-lhes dito:” Assim que estiverem montadas as máquinas começa-se logo a trabalhar; e, com o primeiro ouro obtido, haverá pagamento a dobrar para todos.”
Como esperava, voltou a aparecer o senhor Franz.
Procurou poupar 100.000 euros. Fui irremovível na minha proposta.
O senhor Franz suava por todos os poros.
Estávamos no Outono, quase às portas do Inverno, e no entanto parecia que estava calor, tanto  ele suava…  
“ Foi-me  comunicado que  amanhã  chegarão os técnicos;  no máximo segunda  feira, começam as escavações. Depois não venderei nem por 5 milhões de euros.”
Na tarde do mesmo dia, o senhor Franz comunicou-me que aceitava a proposta e que se fosse, ao seu notário, fazia-se já a escritura.
Não  confiando  nele,  respondi-lhe  que  preferia  o  meu  conhecido notário Dr. Francisco  Figueiredo,  de  Vila Real  que  tinha tratado do meu negócio com a senhora D. Maria da Felicidade, viúva do senhor Domingos da Silva.
Aceitou de má vontade.
Na manhã seguinte, o senhor Franz acompanhado do seu advogado, compareceu em Vila Real  no Cartório Notarial ,da Avenida Duarte Pacheco nº 39, às 9.30 h.
O notário já tinha preparado a escritura.
O  senhor  Franz  Schneider  deixaria  nas  mãos  do notário 4 cheques de 250.000 euros,  cuja cobertura teria verificado.
Depois disso, eu assinaria o acto de venda e o senhor Franz o acto de compra.
As despesas  eram  a meu cargo, e o senhor Franz  devia garantir a gestão do pessoal que trabalhava, nas minhas condições.
Quando tudo foi feito, guardei cuidadosamente os cheques e pus-me em contacto com a senhora D. Maria e Serena.
Marquei-lhes encontro pelas 17.00 horas, no cartório.
Lá, na presença do notário, dei-lhes um cheque de 350.000 euros.
Não sabendo o significado, contei-lhes a história toda.  
Com aquele dinheiro, poderiam começar nova vida longe dali.
Quando o senhor Franz Schnaider descobrisse que por sua vez tinha sido também enganado, era melhor já estar longe.
Com o dinheiro que ele tinha pago, certamente, ter-se-ia arruinado, como ele mesmo tinha arruinado tantos outros.

E depois… acordei!

                                                                   

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