Sonhei
que era um escritor de aventuras.
Estava
em Portugal à procura de uma ideia para um novo conto.
Tinha
alugado um Opel Corsa e saindo de Lisboa,
dirigi-me para o interior do país.
Em
cada cidade, aldeia ou lugar, ficava um dia ou dois, mas partia de seguida, pois a ideia não chegava.
Viajando,viajando fui surpreendido uma noite entre os montes da
Serra da Falperra, quando o carro parou.
Decerto
foi por minha distracção pois tinha-me esquecido de meter gasolina; quem sabe o
que estava a pensar…
E
agora? Onde é que estava? Desde há muito tempo que não encontrava nem casas,
nem carros!
Que
fazer? Certamente não podia ficar no carro. E depois a fazer o quê?
Como
verdadeiro aventureiro ou inconsciente, deixei o carro e comecei a caminhar.
Felizmente
estava lua cheia, por isso, pelo menos via a estrada.
Não
sei quanto andei nem quanto tempo passou. Estava cansado de caminhar e tinha
sono.
Disse
para mim mesmo: mais cinco minutos, se não encontro abrigo, atiro-me para debaixo
de uma árvore e ponho-me a dormir aconteça
o que acontecer.
Não
passaram dois minutos que, atrás de uma curva, apareceu uma luz.
Uma
luz!
Uma
luz queria dizer tantas coisas, entre elas uma casa.
Quando
me aproximei da luz, compreendi que se tratava de uma casa, ou por outra,
casas, visto que eram diversas, mas
só numa se via luz.
E se havia luz, queria dizer que alguém estava
ainda acordado.
Aproximei-me
da porta de entrada e não encontrando
campainha, bati à porta.
Depois de não sei quanto tempo, ouvi alguém a
aproximar-se.
“ Quem é? ” - perguntou. “ Eu “ – respondi.
Como
resposta de certo, não fui convincente
“Não vos conheço.”
Certamente, não me podia conhecer, pois era a
primeira vez que me encontrava por aqueles sítios.
Respondi
que era um viajante que tinha ficado sem gasolina entre os montes, e que procurava um alojamento, contentando-me em dormir no curral.
A
porta abriu-se e vi que se tratava de uma mulher de meia idade.
Evidentemente
o meu aspecto dava confiança, tanto é que me mandou entrar.
Perguntei
se o seu marido me arranjava um lugar para dormir, e declarei que estava
disposto a pagar o que me pedisse.
Disse
que era viúva.
“Tenho
pena” respondi.
Perguntou-me
se tinha fome.
Já
nem me lembrava, quando tinha comido pela última vez.
Tinha
de contentar-me com o que tinha.
Respondi-lhe
que para mim estava tudo bem.
Enquanto
comia, pão e queijo e bebia leite, apareceu uma linda rapariga.
Via-se
que tinha acordado naquele momento.
Levantei-me
da cadeira, e desculpando-me pelo incómodo, apresentei-me:
“Chamo-me
Italo Bianchi, sou um escritor italiano e encontro-me em Portugal para escrever
uma história.”
A
senhora D. Maria da Felicidade, como
tinha dito que era o seu nome, disse:
“
Se o senhor está â procura de uma história, encontra-se no sítio certo “.
Mas
como a hora já era avançada, falaríamos no dia seguinte.
Indicaram-me
um quartinho, que de certeza pertencia à rapariga.
O
quarto exalava perfume de alfazema.
Quando
me deitei adormeci imediatamente.
Na
manhã seguinte, depois de ter tomado uma grande caneca de leite e pão, escutei
a sua história.
O
senhor Domingos Ferreira da Silva e a senhora D. Maria da Felicidade, vieram de
Chaves, onde tinham uma empresa.
Depois
de tantos anos, cansados da vida da cidade, tinham resolvido vender tudo e
mudarem-se para o campo.
A
ideia de viverem no campo sempre os tinha entusiasmado. O ar puro, o canto dos
pássaros, a gente simples e sincera… Tudo isto os atraía.
Assim,
tanto procuraram que chegaram a Vila Pouca de Aguiar.
Seguia-os
uma criança chamada Serena.
Em
Vila Pouca de Aguiar procuraram uma agência imobiliária, onde disseram o que
procuravam: uma casa com um terreno à volta.
Sim,
havia uma mesmo como eles queriam;
encontrava-se numa aldeia de nome Barrela, pouco distante da cidade.
Mas
se estavam interessados, deveriam falar com o proprietário, o senhor Franz
Schneider.
E
indicou-lhes onde era a habitação deste senhor Schneider.
Era
um rico proprietário e habitava numa belíssima quinta, com muita gente ao seu serviço.
Começaram
a falar, e entre um copo de vinho e um
outro, foi-lhes proposto aquilo que deveria
ser um óptimo negócio: junto com a casa, havia também um óptimo campo e uma
mina de ouro.
Uma
mina de ouro? Tinham ouvido bem?
A
expressão mina de ouro surtiu, para eles, um certo efeito.
E
porque o senhor Franz a queria vender?
Ele
respondeu que tinha muitas coisas em que pensar.
Será
que havia qualquer coisa obscura?
Tendo
vivido na cidade, eram conhecedores de tantas aldrabices contra gente
inexperiente!
O
senhor Franz , vendo a sua desconfiança, convidou-os a voltar no dia seguinte. Fornecer-lhes-ia a prova da sua sinceridade.
No
dia seguinte estavam lá mais dois homens. Um era um analista de minas e o outro
era um notário.
O
analista tinha consigo uma pedra e um certificado que declarava que dentro da pedra
se encontravam traços de ouro.
O
notário, levava o contrato de venda.
A
soma pedida era de 25 milhões de escudos.
Um
exagero!!! Onde é que iriam encontrar
todo aquele dinheiro?
Mas
, o senhor Franz Schneider, como descobriram mais tarde, era uma raposa, um
aldrabão da pior espécie!
Com
várias frases enganadoras aceitou tudo o
que tinham ,e além disso, fez
assinar ao senhor Domingos vários cheques cuja soma ( incluindo juros)
era de 15 milhões de escudos.
Disse-lhes
que pagariam com o ouro extraído.
O
senhor Domingos que não percebia nada de minas, pois sempre tinha trabalhado
noutro sector, pensava que bastava cavar, com a ajuda de alguém
Quando
falou disto, lá na aldeia, todos riram dele.
O
ouro!... Desde o tempo dos romanos que já não se encontrava.
E
o que mostrou o senhor Shneider? Claro que não vinha da mina.
O
senhor Domingos percebeu então que tinha sido enganado. Mas não se deu por
vencido; foi a casa do senhor Franz que, não só não o quis receber como o mandou
pôr fora da porta.
Foram
à polícia fazer a denúncia. Foi-lhes dito para irem para a Justiça.
Para
a Justiça, Tribunal, …com que dinheiro pagariam ao advogado?
Assim
o senhor Domingos começou a cavar, a cavar, até que morreu sepultado por um
desmoronamento.
E
assim, ficou sozinha a viúva com a filha Serena.
O
senhor Franz não pretendeu
imediatamente o pagamento dos cheques,
limitando-se a esperar.
Entretanto
a senhora D. Maria foi trabalhar para o
senhor Franz, por um pedaço de pão para ela e para Serena.
Ele
tinha um filho chamado
Rudy, digno filho de tal pai, bom, só a fazer confusões,
a armar sarilhos e a incomodar as raparigas. Rudy cismava com Serena, desejava-a a todo o custo;
mas ela não o queria, pois estava apaixonada por Ricardo, um bom rapaz que
trabalhava na contabilidade do senhor Franz, mas, como todos os outros
empregados, era muito mal pago.
O
senhor Franz era o homem mais rico da região transmontana: tinha um hotel, um
restaurante, um banco e várias lojas; e,
nos arredores, era também dono de várias propriedades e quintas, fruto de
quem sabe quantas aldrabices!.
Ele
tinha estabelecido uma data para o
casamento de Serena com o seu filho; se recusassem, teria posto em pagamento os
cheques assinados pelo defunto senhor Domingos; só com o casamento dos dois ficaria extinto o
débito.
Além disso, o senhor Franz pretendia que Serena ficasse virgem até ao
casamento.
E aquela data já estava próxima…
Fiquei chocado com aquela história.
Como podiam suceder estas coisas neste tempo?
Nunca suportei
nem injustiças, nem prepotências.
Tive uma ideia, mas não lhes disse nada.
Limitei-me a dizer: ” Quero comprar a vossa mina.”
A senhora D. Maria e Serena, responderam-me que nem
pensar nisso.
A mina não valia nada e elas não podiam aceitar a
minha ajuda.
Respondi-lhes: “Tenho dinheiro de parte e uma ideia na cabeça. A mina daria oiro”.
E como era possível?
Disse-lhes o que pensava: ” Com os meios modernos, com
sondas, farei sondar toda a mina, farei escavar com as máquinas, nem que tenha de chegar ao centro da terra. Como disse o príncipe Torlónia: ” Ou conseguirei
enxugar o Lago de Fucino ou será o lago a enxugar as minhas algibeiras!"
" O Príncipe conseguiu enxugar o Lago. Assim, ou conseguirei
desfrutar da mina de ouro ou será a mina a desfrutar das minha algibeiras.”
Nunca tinham ouvido falar do Príncipe Torlónia, mas
ficaram convencidas com as minhas palavras.
Em primeiro lugar, com a ajuda de um rapaz lá da
terra, fomos recuperar o carro enchendo-o de gasolina.
Depois fomos a Vila Real e, na presença de um notário,
assinei o acto de compra de mina com todo o terreno à volta, por um valor de 300.000
€
Era quanto deviam ao senhor Franz Shneider.
Pus no entanto, uma cláusula: todo o ouro extraído seria
dividido por dois.
Passei um cheque da Caixa Geral de Depósitos.
Concluído o acto
notarial, dirigimo-nos ao escritório de um óptimo advogado que nos foi
indicado pelo notário. O advogado ter-se-ia posto em contacto com o senhor
Franz informando-o da disponibilidade da senhora D. Maria para saldar o débito,
e que levasse consigo os cheques assinados pelo senhor Domingos.
Tendo que pôr em prática a minha ideia, despedi-me da
senhora Maria e de Serena, dizendo-lhes
que tinha que partir para Itália por motivos pessoais, mas que estaria de volta
o mais rapidamente possível.
Fiz-lhes prometer que não diriam nada a ninguém acerca da venda da mina.
Depois dirigi-me
ao aeroporto de Lisboa, onde apanhei o avião para Roma, e de lá para a África do Sul, mais propriamente
para Johannesburg.
No dia seguinte fui visitar o senhor Harry Stride,
proprietário, sim, de uma mina de ouro.
Tinha-o conhecido quando estivera em África, para escrever um livro.
Durante um safari salvei-lhe a vida , quando foi
atacado por um leão.
O senhor Harry quis recompensar-me abundantemente, mas
não aceitei; aceitei só a sua amizade.
Ele então disse-me que estava disponível sempre que
precisasse dele.
Nesta altura, partindo de Itália, levei-lhe uma
confecção de luxo de charutos Toscanos.
Conhecendo o seu vício, sabia que seriam aceites com muito prazer.
Durante a lauta refeição que me ofereceu, contei-lhe
os últimos acontecimentos e referi em
especial, a mina portuguesa.
Disse que queria dar ao senhor Franz “ Olho por olho, dente por dente.”
Harry estava disposto a ajudar-me.
Assim, no regresso a Portugal, encontrei fora do
aeroporto, um Land Rover com um caixote de pelo menos 200 quilos de minério
proveniente das suas minas.
Graças aos seus conhecimentos e ao seu dinheiro, tinha
conseguido superar o controle da Alfândega portuguesa.
Conhecendo o percurso e o interior da mina, consegui
chegar sem que ninguém me visse; e, com
muita fadiga, descarreguei o material que tinha trazido, arrumando-o nos pontos
estudados com Harry.
Acabado o trabalho, afastei-me dirigindo-me para Vila
Real onde seguindo as instruções de Harry, deixei o Land Rover e mudando-me para um outro carro dirigi-
-me para o hotel que tinha marcado de Roma.
Fiquei dois dias em Vila Real, durante os
quais repousei como deve ser.
Parti depois para Barrela, apresentando-me em casa da
senhora D. Maria, levando os presentes
que tinha comprado em Roma, para ela e para Serena.
Fui recebido como um amigo. Contei-lhes da minha
viagem a Roma, mas não lhes disse nada
da outra viagem.
Pedi que me
acompanhassem à mina e, ali, apanhei uma pedra ao acaso; assim o dei a entender.
Perguntei se conheciam algum mineiro para mostrar
aquela pedra; não conheciam mas se me
dirigisse na direcção de Alfarela de Jales, sendo essa uma zona de minas,
certamente encontraria alguém.
Assim fiz.
Ao meu pedido, muitos faziam perguntas, mas ninguém me sabia dizer a composição da
pedra que mostrava.
Aliás, muitos
sabiam que eu era o novo proprietário da mina de Barrela.
A maior parte deles ria de mim, chamavam-me doido por
ter comprado por 3.000.000€ uma mina, que só podia dar pedras sem valor.
Disse que me tinha alojado em Vila Pouca de Aguiar,
no Hotel Califa ( sabia que pertencia ao
senhor Franz Shneider), e que daria uma recompensa a quem me encontrasse um
verdadeiro mineiro, mesmo que fosse velho.
Chegaram alguns
falsos mineiros, os quais não me
convenceram sobre a composição da pedra.
Alguns dias depois chegou um verdadeiro mineiro.
Ao acompanhante dei 100 €
Era um velho mineiro; chamava-se João Martin, e teria uns 80 anos.
Disse que tinha sempre trabalhado nas minas, um pouco
por todo o lado.
Tinha estado na Bélgica, na Alemanha, na França e na
Rússia.
Quis ver a pedra; olhou para ela, e eu soube logo a
resposta, vi-o nos seus olhos.
Olhando para a pedra, embora superficialmente, disse
logo que continha ouro.
Quis saber onde a tinha encontrado
Disse-lhe que a tinha apanhado num monte de pedras
junto da mina que tinha pertencido ao senhor Domingos da Silva.
Quis que o acompanhasse ao sítio.
Apanhámos a estrada para Alfarela de Jales; antes de
chegar desviei para Vreia de Jales.
Ultrapassada a aldeia, encontrámo-nos numa zona cheia
de minas abandonadas.
Não parei, mas prossegui para Barela.
Chegados lá, parei
defronte da casa da senhora D. Maria da
Felicidade que era a viúva do senhor Domingos.
Sendo domingo, a senhora D. Maria e Serena não
trabalhavam.
Apresentei o senhor João, e pedi-lhe que
repetisse o que me tinha dito.
À palavra “ouro”, disseram que era brincadeira.
Perguntei-lhes se nos queriam acompanhar à mina.
Quando chegámos, o senhor João começou a girar entre montes de
pedra e, de vez em quando, apanhava
algumas.
Olhava bem para elas, e às vezes deitava-as fora.
Tinha conservado seis.
Voltou para junto de nós e ,mostrando-as, disse que
continham ouro.
Nessa altura, a senhora D. Maria e Serena perceberam
que não estávamos a brincar.
O senhor João queria entrar na mina, mas não tínhamos
nada que fizesse luz; assim voltámos para casa.
Depois de almoçarmos
numa atmosfera alegre, já com lanternas, voltámos à mina.
Entrando, pedi à senhora D. Maria para mostrar onde é que tinha acontecido
a derrocada que tinha matado o marido.
Deixei-os ir à frente, não mostrando que eu já lá
tinha estado.
Chegados ao lugar, como era de esperar, o senhor João
encontrou o minério (que eu lá tinha posto). E mostrando-o disse: “A derrocada
deixou à mostra um filão de ouro, que, se é como parece, fará todos ricos.”
Saímos da mina com muitas pedras.
Tanta era a alegria por ter encontrado ouro, que a senhora
D. Maria e Serena, não paravam de rir e de beijar quer a mim quer ao senhor
João.
Quando voltámos a casa, fiz prometer a todos que não diriam
nada a ninguém acerca da descoberta do ouro, para não sermos roubados.
Antes, precisava de arranjar vigilância para a mina.
Perguntei ao senhor João se queria trabalhar para mim,
não como mineiro mas como director dos trabalhos.
Dar-lhe-ia um ordenado de 5.000 euros por mês.
Respondeu que já não tinha idade para isso; procurou
recusar, mas depois, pensando quanto ia
ganhar, aceitou.
Era muito, mas muito mais do que tinha de reforma.
Acompanhei o senhor João a casa e dei-lhe um cheque de
1.000 euros, dizendo que era uma parte do seu ordenado.
Na manhã seguinte fui a Vila Real ao posto da Polícia pedir alguns agentes para
vigiarem a mina. Não tinham ; mas indicaram-me uma
agência privada, onde teria
encontrado o
que desejava.
Expliquei o que
pretendia; indicaram-me quatro jovens que só olhar para eles metia medo.
Combinámos o ordenado e ficaram à minha disposição, logo
naquele dia.
A alimentação e alojamento eram por minha conta.
Quando voltei a Vila Pouca de Aguiar, fui a casa do
senhor João, onde a família me recebeu como um príncipe.
O senhor João não tinha ficado calado: tinha-lhes falado do
ouro encontrado na mina, e do seu cargo de director dos trabalhos.
Perguntaram se também haveria trabalho para eles.
Respondi que, para quem tinha vontade de trabalhar, havia trabalho.
De momento precisava de homens para fazer uma boa
vedação da propriedade.
Pagar-lhes-ia
50 euros, por oito horas de trabalho diário.
Sabia que o senhor Franz pagava 25 euros por 12 horas
.
No dia seguinte apresentaram-se mais de 100 homens.
Querendo fazer as coisas como manda a lei, precisava
também de um contabilista.
Ricardo, o namorado de Serena, era contabilista às
ordens do senhor Franz; deixou o lugar e veio trabalhar para mim com o dobro do
ordenado.
Como era de esperar, recebi um convite para ir à
fazenda do senhor Franz.
Recusei tal convite, dizendo: "Se me quer falar,
que venha ter comigo."
Veio ao hotel, onde
eu me tinha hospedado ( que aliás era
sua propriedade).
Perguntou-me
que jogo jogava; se era verdade o
que se ouvia.
Como um jogador de poker, não mostrei o meu jogo.
Se queria ver o ouro, devia ir à Caixa Geral de
Depósitos onde estava guardado o
minério encontrado; e podia levar consigo aquele seu entendido.
Lamentou-se de eu lhe estar a roubar toda a gente que
trabalhava para ele.
Perguntei-lhe se tinha todos os contratos em regra.
Não respondeu, porque não os tinha, e foi-se embora
fazendo ameaças.
Mas quem era este senhor Franz Schnaider?
Aquilo que vim a saber, eram
sobretudo vozes,
conversas, mas nada de concreto.
O senhor Franz Schneider era de nacionalidade alemã,
proveniente da Baixa Saxónia, da cidade de Bremen.
Tinha vindo para Portugal em 1970, com uma boa quantia em
dinheiro alemão; e fixara residência nos
arredores de Vila Pouca de Aguiar, onde comprara uma grande quinta.
Conta-se, que conseguiu em poucos
anos comprar todas as propriedades vizinhas à sua ( mas não se sabe bem como…)
E, comprando com nada, para não dizer com poucos
escudos, e vendendo logo a seguir por muitos, transformou-se no homem mais rico
da região.
Casou-se com uma linda
rapariga, filha de um proprietário que se arruinou, o que também não se sabe bem
porquê!
Por outras palavras, comprou uma mulher... Durante
algum tempo, não tiveram filhos; depois a mulher engravidou e teve um filho a
que chamou Rudy.
Sobre este filho, não se sabe bem a história.
Há quem diga que seja filho dum criado que
desapareceu, ou de um cidadão alemão que desapareceu; o facto é que de tantas
mulheres que foram abusadas por ele, só a mulher é que engravidou…
Fez-se um bom trabalho de vedação, embora me tenha
custado 15.000 euros.
A senhora D. Maria, sabendo
que recebia metade do
ouro que se
extraísse, queria que se começasse logo
a escavar.
Sabendo eu que o ouro era só aquele que tinha trazido
da África do Sul, procurei dar tempo, aludindo à segurança dos trabalhadores
nas galerias, já velhas de séculos.
De qualquer modo, se tinham necessidade de dinheiro,
era só dizerem-me, que depois lho descontava futuramente.
Em Alfarelos de Jales, havia um prédio para alugar;
aluguei-o e fiz dele o meu escritório e a minha habitação.
Assim pude deixar o hotel Califa, em Vila Pouca de
Aguiar , transferindo-me para lá.
A senhora D. Maria, queria que fosse viver com elas.
Recusei, dizendo que não queria comprometê-la,
referindo-me aos mexericos da gente da aldeia.
A notícia do ouro encontrado deu a volta a Portugal e
ao estrangeiro.
Estávamos constantemente cercados por jornalistas,
fotógrafos e televisão.
Todos queriam ver a mina de ouro.
Ver a mina?
Nem sequer
pensar nisso!
Se queriam falar, podiam pedir ao director dos
trabalhos; se queriam ver o ouro, podiam vê-lo na Caixa Geral de Depósitos de
Vila Pouca de Aguiar (que não pertencia ao senhor Franz!).
A vedação e os guardas (que tinham aumentado de número
e também tinham cães), não deixavam entrar ninguém que não fosse autorizado.
Os operários e o pessoal tinham todos passes de identificação; sabiam
todos que arriscavam o posto de
trabalho, se deixavam entrar pessoas estranhas.
Os trabalhos de desentulho, de construção de barracões
onde ficariam as máquinas, os barracões dos refeitórios, os alojamentos para os
guardas, os novos reforços das galerias,
não tinham fim…
O horário estabelecido, de oito horas diárias, era
respeitado.
E depois, havia aqueles que queriam entrar na
sociedade connosco...
Eram recusados.
Infelizmente o meu dinheiro estava acabando.
Tinha necessidade de um financiamento do Estado Português.
Ter um financiamento,
não
foi fácil; não era
cidadão português e não era residente em Portugal.
Era proprietário de uma mina, mas não dava suficiente
garantia da existência de oiro em grande quantidade.
Além disso, havia alguém que me punha obstáculos.
Depois, veio um sul-africano, não se sabe como, parece
que era proprietário de minas de ouro na
África do Sul.
Queria investir um milhão de dólares na minha mina.
Mas para fazer isto, deveria ter autorização do
Governo Português.
Quando se soube deste
investidor, voltou a aparecer o senhor Franz.
Queria recomprar a mina e oferecia 500.000 euros.
Recebi-o no meu novo escritório e disse-lhe: “ Quando
a mina não valia nada, pediu 25 milhões de escudos ao senhor Domingos da Silva
por um casebre, um campo cheio de pedras e uma mina, mostrando-lhe uma pedra,
fazendo-o acreditar que a mina era rica em ouro.
Pela sua cobiça , provocou-lhe a morte. Agora, que
sabe que, há ouro de verdade, vem oferecer-me 500.000 euros.
Mas por quem me toma? Se quisesse …se eu quisesse
vender a mina agora, como está, não a venderei por menos de um milhão de euros.
É rico, possui tudo, se quiser tornar-se ainda mais rico, deve pagar um milhão
de euros e nem um cêntimo a menos. Procure
decidir-se depressa, porque ,
quando receber o investimento de um milhão de dólares, farei iniciar as
escavações, e então… já não a vendo”.
Às palavras, um
milhão de euros,
o senhor Franz empalideceu e começou a balbuciar:
” umm mimmilhlhão de euros!... Mesmo que quisesse, onde é que
os
encontro? “
“ Isso não me interessa; tem um banco, tire -os de lá! “
O tempo ia passando.
Já tinham chegado as máquinas para a laboração do
minério.
Deviam chegar os técnicos para a montagem.
Todos os mineiros estavam impacientes para começar a
escavação.
Eu tinha-lhes dito:” Assim que estiverem montadas as
máquinas começa-se logo a trabalhar; e, com o primeiro ouro obtido, haverá
pagamento a dobrar para todos.”
Como esperava, voltou a aparecer o senhor Franz.
Procurou poupar 100.000 euros. Fui irremovível na
minha proposta.
O senhor Franz suava por todos os poros.
Estávamos no Outono, quase às portas do Inverno, e no
entanto parecia que estava calor, tanto ele suava…
“ Foi-me comunicado
que amanhã chegarão os técnicos; no máximo segunda feira, começam as escavações. Depois não
venderei nem por 5 milhões de euros.”
Na tarde do mesmo dia, o senhor Franz comunicou-me que
aceitava a proposta e que se fosse, ao seu notário, fazia-se já a escritura.
Não
confiando nele, respondi-lhe que preferia
o meu
conhecido notário Dr. Francisco Figueiredo,
de Vila Real que tinha
tratado do meu negócio com a senhora D. Maria da Felicidade, viúva do senhor
Domingos da Silva.
Aceitou de má vontade.
Na manhã seguinte, o senhor Franz acompanhado do seu
advogado, compareceu em Vila
Real no Cartório
Notarial ,da Avenida Duarte Pacheco nº 39, às 9.30 h.
O notário já tinha preparado a escritura.
O senhor Franz Schneider deixaria nas mãos do
notário 4 cheques de 250.000 euros, cuja
cobertura teria verificado.
Depois disso, eu assinaria o acto de venda e o senhor
Franz o acto de compra.
As despesas eram a
meu cargo, e o senhor Franz devia
garantir a gestão do pessoal que trabalhava, nas minhas condições.
Quando tudo foi feito, guardei cuidadosamente os
cheques e pus-me em contacto com a senhora D. Maria e Serena.
Marquei-lhes encontro pelas 17.00 horas, no cartório.
Lá, na presença do notário, dei-lhes um cheque de
350.000 euros.
Não sabendo o significado, contei-lhes a história
toda.
Com aquele dinheiro, poderiam começar nova vida longe
dali.
Quando o senhor Franz Schnaider descobrisse que por sua
vez tinha sido também enganado, era melhor já estar longe.
Com o dinheiro que ele tinha pago, certamente,
ter-se-ia arruinado, como ele mesmo tinha arruinado tantos outros.
E depois… acordei!

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