Estávamos
voltando de Roma, quando um passageiro pondo-se no meio do corredor
do
avião, disse que aquilo era um desvio, uma mudança de rumo e naquela caixa
que tinha na mão, havia explosivos, e que, se não
seguíssemos as suas ordens, a faria
explodir
e morreríamos todos.
Como já tinha sucedido na América, no
11 de Setembro de 2004, pensei que podia suceder de novo; far-nos-ia andar a
bater em quem sabe qual edifício.
Disse para mim mesmo:” Não
quero morrer como um carneiro. Morrer por morrer,
morrerei lutando”.
Num momento de distracção do
homem, deixei o meu lugar ao lado de minha mulher
e saltei para cima dele,
procurando tirar-lhe a caixa das mãos.
Lutando, lutando, não sei
como, acabámos fora do avião.
Certamente ou nós ou o piloto
tínhamos aberto a porta.
Precipitámo-nos no vazio.
Separadamente, por sorte.
Ele
mais veloz, porque devia ser mais pesado.
Eu, se bem que com menos velocidade, seguia-o.
A
certa altura caí sobre qualquer coisa.
Parecia
estranho ter já chegado à terra ou ao mar.
Não
se via nada.
Havia
muito vento, por isso agarrei-me com força a qualquer coisa, não sabia o quê.
Aquela
coisa era macia, parecia feita de penas.
O
que era?
Agarrei-me
com a maior força possível, para não ser arrastado pelo vento.
Depois
de não sei quanto tempo, aquilo que pensava fosse nevoeiro, dissolveu-se e
vi...
Não
estava na terra , mas sim … sobre uma grande águia.
Mas,
o que é que eu fazia em cima de uma águia?
Provavelmente,
enquanto eu me precipitava do avião, passou a águia e caí em cima dela.
E
agora? Como acabará?
A
águia levava-me para o seu ninho e era devorado em companhia dos filhotes...
Em
vez disso, a águia tendo chegado a breve distância da terra, empinou-se e atirou-
-me
para fora.
Nem
sequer lhe pude agradecer pela boleia, porque voou, foi-se embora...
Encontrei-me
num terreno herbáceo; pelo ar frio que sentia, devia ser na montanha.
Olhei
em volta para me orientar. Não via ninguém.
Fazendo o cálculo do tempo decorrido, desde que tínhamos
partido de Roma, até àquilo que me tinha sucedido, deveria encontrar-me em
Espanha.
Mas
em que parte da Espanha?
A
única coisa a fazer era começar a andar, até encontrar uma estrada, casas ou
alguém
a quem perguntar.
Caminho e torno a caminhar
nem me recordo quanto andei...
Devia ter caído numa Serra.
Mas em qual Serra?
Em Espanha, recordava-me de
duas serras, a Serra Nevada e a Serra Morena; mas, e se havia outras? Vá lá
saber-se; de qualquer modo eu estava na montanha.
Seguia um caminho no meio de
um bosque: subia e descia, subia e descia… parecia não ter fim.
Mas… acabou.
Estava ainda na montanha, a
uma certa altura, mas lá em baixo, já via... certamente uma cidade!
Havia muitas casas.
Continuei a caminhar,
descendo do sítio onde me encontrava.
Encontrei uma estrada.
Pelo tráfego, devia ser uma
estrada importante.
Para ir para Portugal, devia
andar à direita ou à esquerda?
De
qualquer maneira, convinha-me primeiro que tudo, chegar à cidade, que tinha
visto lá de cima.
Quando
chegasse, logo veria de que cidade se tratava (era bom que fosse Madrid);
depois, procurar ajuda para voltar para casa, ter-me-ia bastado um telefone para
chamar Maria e dizer-lhe que estava vivo, onde me encontrava e que brevemente
estaríamos juntos de novo.
Quando
cheguei, vi uma tabuleta com um nome em letras grandes; era certamente o
nome
da cidade; só que eu não conhecia aquele nome.
Pensava
em Madrid, Toledo, Granada, Sevilha, Burgos, etc...etc...em todos os nomes
que
conhecia e que me teria ajudado a perceber onde estava; mas assim...nada,
aquele nome não me dizia nada de nada.
Entrei na cidade até
encontrar uma loja.
Era um bar; entrei, aproximei-me
do balcão, e perguntei ao empregado em que parte
da Espanha nos encontrávamos.
Olhou para mim desconfiado, e
disse qualquer coisa que não percebi.
Mas que raio de língua
espanhola estava a falar?
Era melhor procurar um
guarda.
Muitas vezes são ignorantes (ou
eram, no passado), mas pode-se sempre encontrar
algum mais inteligente...
Mas, quando precisas de um
polícia, pode cair o mundo que não o encontras!
Que devo fazer?
Além disso agora, começava a
ter fome.
Quando
vi um restaurante (não estava escrito Restaurante) mas vendo as mesas postas
devia sê-lo.
Entrei, sentei-me e quando
veio o criado com o menú, indiquei-lhe: isto e isto.
Comi
e bebi.
No
final pedi a conta.
Embora
não me percebessem, apresentaram-me um papel com uma cifra.
Fiz o gesto de meter a mão na
algibeira do casaco, mas... não tinha o casaco.
O casaco onde é que foi
parar?
Olhei para a cadeira; nada, o
casaco não estava lá.
Mas onde é que ele foi parar?
De
repente lembrei-me do avião.
Certamente
tinha-o tirado quando estava sentado ao lado da minha mulher.
E
agora?
Como fazer para pagar a
conta?
Acabava ali: ou me davam uma
tareia, ou me punham a lavar pratos ou chamavam a polícia.
Felizmente foi o que fizeram.
Mas ele devia muito à
inteligência.
Falava,
falava numa língua que eu não compreendia e ele também não percebia quando lhe
dizia que era italiano.
Por
fim pegou-me no braço, (com mau modo) e levou-me ao posto da Polícia. Esperava
encontrar algum agente, oxalá um superior que falasse outras línguas que não só
a sua. Enganei-me redondamente.
Certamente
faziam-me perguntas, mas na língua deles que eu não percebia; podíamos
continuar
assim in aeternum: eu não compreendia
o que eles me diziam e eles não
entendiam
o que eu lhes dizia; a que ponto chegaríamos?
Perguntei:
“ Parlez –vous français? Sprechen Sie deutsch? Do you speak english?
Portugueses?
“ Qual quê! Nada de nada, mas que raça de língua estavam falando?
Não
nos tendo conseguido compreender, aquela noite fui seu hóspede, numa cela.
Pelo
menos não a dividia com ninguém; e depois também sem dinheiro, onde é que
poderia
dormir?!...
Na
manhã seguinte ofereceram-me o pequeno almoço (também os presos comem),
depois
retomaram o interrogatório.
Eles
falavam, falavam e eu não percebia nem uma só palavra; eu falava, falava e eles
não
me percebiam.
Pedi
um mapa; era como falar com o vento.
A
uma dada altura, peguei numa caneta e escrevi:” Eu (e com o dedo me indiquei a
mim
mesmo) italiano, casa (fiz o desenho de uma casa) Portugal.
A guarda
que estava atrás da escrivaninha (certamente um Superior) pegou no
papel
e mostrando-o aos outros, começou a falar tão depressa, que dificilmente
consegui perceber a palavra
Portugal.
Aquele
que comandava acompanhou-me à porta e, apontando para a direita disse:
“Portugal”
disse-o de uma maneira estranha, mas o que é certo é que me mostrava de
que lado estava Portugal.
Apertando-me
a mão, (parecia até que a esmigalhava), e agitando-a para cima e
para baixo, fez o gesto para me ir embora.
A verdade, é que me pareceu
ter-me mandado àquela parte; ao que eu respondi com um gesto :” vá você...” e
dirigi-me para a direcção indicada.
E...retomei a viagem a pé.
Tinha-me
cansado de levantar o braço a pedir boleia; mas também com o aspecto
que
tinha (com a barba por fazer...) tomavam-me por um delinquente!
Já não tinha o relógio; tinha ficado na polícia (para
pagar a conta do restaurante
ou
talvez como recordação...) Assim, nem sequer podia saber as horas.
O
meu estômago dizia que era meio dia ou uma.
Tinha,
por força, de encontrar alguém que me oferecesse de comer; e realmente,
ali
na estrada, não podia pôr-me a pedir esmola aos automobilistas; até porque nem
sequer parariam.
Assim, abandonei a estrada e
fui pelos campos.
Já caminhava há algum tempo ( e que azar, nem uma só
árvore de fruta) ; quando
vi
uma casa.
Disse
para os meus botões:” Se há uma casa, haverá alguém que certamente não
se recusará a dar-me um prato
de sopa.”
Havia
porém o problema da língua: se falavam de modo estranho, não nos teríamos
entendido: e voltaria tudo à mesma
Veio-me uma ideia; fazer de
surdo-mudo.
Bati à porta, e dado que não "ouvia",
continuei a bater até que a porta se abriu.
Abriu um homem, não posso
dizer velho, mas estava perto.
Começou a gritar; mas dado
que não percebia aquilo que ele dizia, e também porque era surdo, deixei-o desabafar quanto
quis, sem reagir.
Quando reparou que eu não
respondia, parou de gritar.
Fazendo os gestos que já tinha visto fazer aos surdo -
mudos, dei a perceber que tinha fome e de não ter dinheiro; acenando a um
assalto .
O
homem fez-me entrar em casa e sentar à sua mesa; pôs diante de mim um prato que
encheu com o que estava no meio da mesa.
Naquela casa havia também uma mulher (certamente sua
esposa), também ela mais ou menos da mesma idade.
Quando acabei de comer, quis lavar a loiça suja; impediram-no e fiquei
sentado
a olhar para eles.
A
um certo momento, devo ter adormecido pois quando acordei estava numa cama e
estava escuro.
Continuei
a dormir até de manhã.
Quando
me levantei, eles já estavam em pé: devem ter-me dado os bons dias, ao que eu,
acenando, retribuí.
Deram-me leite e café e pão
escuro.
Acabada a refeição, mostrei a
minha cara; tinha uma barba de pelo menos três dias.
O homem fez-me sinal para o
acompanhar à casa de banho, depois indicou-me a
espuma de barbear; mas quando
procurei a gilete, não a encontrei; no seu lugar havia
uma navalha de antigamente.
Com aquilo podia cortar a
goela, não a barba!...
Com a cara ensaboada, voltei
à cozinha e mostrando a navalha dei a perceber que
não a sabia usar.
O homem fez-me sentar numa
cadeira e pôs-me à frente uma toalha; depois num
bater de olhos e com a
mestria de um velho barbeiro, rasou-me bem.
Devia agradecer-lhe de
qualquer maneira.
Por
detrás da casa, para além do campo, havia uma horta que precisava duma
cavadela;
procurei o que me servia, e limpei as plantas de todas as ervas daninhas.
Trabalhei
toda a manhã, parei quando me chamaram para o almoço.
Durante o almoço, disseram-me qualquer coisa, que não
percebi (não ouvi!) por gestos pedi um papel e qualquer coisa para escrever.
Depois como fiz na esquadra, apontei para mim e escrevo “ ITALIANO” ,depois
desenhando uma casa escrevi “ PORTUGAL. Puseram-se a discutir entre eles, de
seguida o homem foi buscar um casaco (não era novo, mas à noite fazia frio e eu
só tinha a camisa); pôs-mo sobre os ombros dando-me a entender que mo dava.
Estava
comovido; não sabia que dizer (até porque era surdo-mudo).
Agradeci-lhe
sacudindo-lhe a mão para cima e para baixo.
Não me queria ir embora antes de ter acabado de
arranjar a horta; por isso deixei o casaco e, com a enxada, voltei para o
trabalho.
Mais uma vez dormi lá em casa
deles e de manhã, depois do pequeno almoço, o
homem acompanhou-me até
estrada; ali perto estava a paragem do autocarro.
Esperámos um pouco, mas
depois chegou um autocarro; assim que parou, o homem
subiu,
disse não sei o quê ao motorista, deu-lhe qualquer coisa, (certamente
dinheiro); depois disse para
eu subir.
Tomei-lhe a mão e, apertando-lha, sacudi-a para
cima e para baixo como saudação. Disse-lhe adeus enquanto o autocarro se afastava.
Tinha vestido uma camisa
lavada e um casaco (que podia querer mais agora?)
O
autocarro andava, eu olhava pela janela, mas não sabia onde estava, não
conhecia
o
sítio, limitava-me a olhar.
Alguém começou a querer falar
comigo, mas eu fiz sinal que não falava, nem ouvia,
e assim deixaram-me em paz.
A uma paragem, descemos, mas
enquanto todos os outros se dirigiam para o café, eu
fiquei perto do autocarro até
que veio o motorista buscar-me.
Acompanhou-me
ao café, indicou-me a comida que estava exposta, mas eu fiz-lhe
sinal que não tinha dinheiro.
Ele meteu-me a mão no bolso
interno do casaco e tirou uma carteira.
Olhei
para ele e fiz sinal que não era meu; disse que não, com a cabeça, e procurei
afastá-lo de mim.
O
motorista abriu-o e mostrou-me uma fotografia do homem e da mulher que me
tinham
hospedado; estava também escrito qualquer coisa (a sua morada com
certeza), que porém não percebia,
e além da foto estavam 40 euros.
Disse para mim mesmo que um
dia devolver-lhes-ia o casaco, a camisa e a carteira
com dez vezes mais do que aquilo
que lá estava.
Com lágrimas nos olhos, escolhi alguma coisa para comer, mas custava -me a
engolir; tive que ajudar com
uma cerveja.
Com
a ajuda do motorista, mudei duas vezes de autocarro.
Uma noite passei-a num, e depois do terceiro
transbordo, vi uma tabuleta redonda azul e no meio estava escrito: PORTUGAL.
Ao terceiro transbordo já percebi onde estava; estava
na Galiza, vi
Lugo,
a indicação para Santiago de Compostela, Orense, Verin…
Entrei
em Portugal pelo lado de Chaves.
Com o facto de as fronteiras estarem abertas, não
parámos na fronteira; por isso ninguém me pediu a documentação (que aliás não
tinha).
De Chaves, com um outro autocarro, desci em Santarém e,
tendo acabado o dinheiro, passo a passo cheguei a Vale de Figueira.
Quem
me via, olhava admirado para mim (provavelmente, pensavam que tinha morrido).
Não
querendo assustar a minha mulher, parei em casa da nossa vizinha, e pedi--lhe para
avisar a minha mulher com cautela.
Não podeis imaginar quando,
depois de tantas peripécias, pude abraçar de novo
minha mulher, a qual tinha dificuldade
em acreditar nos seus olhos: era eu mesmo, em carne e osso, mesmo depois do voo
do avião!...

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