sábado, 1 de agosto de 2015

Sonho n.8 E...O Tempo Passou


  
Voltava de Roma onde tinha ido visitar o meu pai.
Fui sozinho, pois Maria tinha uma exposição e por isso não me acompanhou.
Como disse  antes, voltava de Roma.
Em Fiumicino subi para o avião, no horário, e sentei-me ao lado de uma rapariga .
Não era italiana, nem espanhola, nem portuguesa ou brasileira ( se não percebia-a ); falava com outras  duas ( talvez amigas ) numa outra  língua que não compreendia , ( para mim era árabe ): não sabia se era árabe ou não, mas em Itália, tudo aquilo
que não se percebe é árabe, modo de dizer!...
O avião partiu à hora certa e, no horário previsto, chegou a Lisboa.
Só que...tínhamos um atraso de cinco anos!  Como era possível?
Quando isto nos foi anunciado, ninguém queria acreditar.
O avião,  uma vez aterrado, foi guiado para um hangar e, quando descemos todos, fomos sujeitos a consultas médicas; fizeram-nos inúmeras perguntas, a que nenhum
de nós sabia responder.
Para nós tudo se tinha passado no mesmo tempo de tantas outras viagens iguais.
Tínhamos comido, tínhamos visto a televisão, falado ( os outros pelo menos),lido 
os jornais ( italianos e estrangeiros )...
Em resumo, para nós fora tudo normal !
Só o que de anormal, pelos vistos, eram os cinco anos pelo meio.
Viémos a saber que muitas mulheres tinham dado à luz, como a rapariga que
estava a meu lado e as outras duas ( amigas ).
Onde ? E os filhos, onde estavam ?
Foi uma confusão que nunca mais acabava.
Havia quem chorasse, quem brincasse com isso, e quem estivesse preocupado
com os negócios desfeitos.
Eu pensava na minha mulher. Como estaria ?
Cinco anos...
Era mesmo de não acreditar; mas o certo é que eram passados cinco anos.
Como passou veloz o tempo fora do avião!...
Naqueles cinco anos muitas coisas me tinham sucedido: o cartão do Multibanco
tinha acabado o prazo de validade ( assim não podia levantar dinheiro; o Bilhete
de Identidade italiano  também estava fora de prazo; voltando para casa, a minha mulher tinha-me substituído por um  ucraniano; a pensão de reforma tinha sido suspensa; o meu pai tinha morrido  e a minha parte  da herança tinha sido dividida entre os meus filhos.
Por sorte, depois da minha pressuposta morte, o meu pai tinha depositado na conta
da minha mulher 50.000 euros.
Minha mulher sentia-se bem com o ucraniano, e não o teria deixado por mim;
assim, naquela casa que uma vez tinha sido a minha casa, agora era um hóspede
um pouco incómodo.
Não é que me importasse muito; aquilo que eu sempre quis era a felicidade da
minha mulher.
Só que, para viver, eu precisava da minha pensão.
Fui a Lisboa à Embaixada Italiana, para demonstrar que não tinha morrido ( no
desastre aéreo, como tinham noticiado os jornais e a televisão), mas que estava
vivo, vivíssimo.
A funcionária do gabinete consular, não era Simonetta, mas uma nova que não
me conhecia; e embora lhe mostrasse , com o documento, a minha identidade,
disse que por lei eu estava morto, e que, se queria a pensão de volta, tinha que ir
a Roma para me fazerem o reconhecimento.
Num lindo sarilho me tinham posto aqueles misteriosos cinco anos !
Voltei para casa e pedi 1.000 euros  para ir a Itália. Maria disse que me daria
tudo o que restava dos 50.000 euros dados por meu pai.
Respondi-lhe que me bastavam 1.000 euros; em Roma ficaria em casa do meu
irmão ou da minha irmã Lídia.
Fomos a Santarém , onde levantou 1.000 euros , e deu-mos.
No dia seguinte fui à estação, onde apanhei o combóio para Lisboa- Santa
Apolónia e dali para o aeroporto.
Enquanto esperava na fila do balcão da Alitália, aproximou-se um desconhecido
que, em perfeito italiano me disse.:" Vorreste sapere cosa successe durante i
cinque anni? (  Quer saber o que sucedeu durante os cinco anos ?) , ao que eu
respondi que, mesmo que quisesse saber, não mudaria nada .
O tempo... não volta para trás!
 
Não foi um sonho leve, foi um pesadelo.
 

 

                                                                   
 

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