segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sonho n.7 A Aldeia histórica ano 2006

                             
Estávamos viajando, eu e minha mulher, à procura de “ igrejas e capelas ”, quando
encontrámos uma aldeia.
Era uma aldeia um pouco estranha, pois era todo construída  com as pedras, que tinham pertencido a uma época passada.
Vimos  nas casas, na igreja e em várias capelas, achados arqueológicos pertencentes
à era romana, visigótica e árabe.
Era como se os romanos tivessem destruído aquilo que tinham encontrado, para
depois reconstruírem à sua maneira; e depois, tinham feito o mesmo os visigodos,
os árabes e os portugueses .
Ficámos impressionados.
Se antes tínhamos pensado fazer umas tantas fotografias e partir para casa, agora,
depois do que viramos, pensámos ficar pelo menos mais um dia.
Não encontrando nem hotéis nem pensões, perguntámos onde poderíamos dormir
aquela noite e disseram-nos para nos dirigirmos ao Presidente do Centro para 
Anciãos. 
Assim fizemos; fomos acolhidos calorosamente e foi-nos oferecido um quarto para todo o tempo que quiséssemos, e ainda por cima, não quis que pagássemos o alojamento.
No dia seguinte era sábado e estava programada uma festa com música e danças
folclóricas.
A festa era em honra de Nossa Senhora e terminava no domingo à noite com fogo
de artifício.
Decidimos ficar para a festa.
Estava tudo pronto: tinham já montado o palco para o espectáculo.
Só que...na manhã seguinte, começou a chover; passou o dia e não chegou ninguém
para fazer o espectáculo: foi uma desilusão total.
Nós, não podendo passear, ficámos no Centro a fazer companhia aos velhotes.
No domingo fomos à Igreja para assistir à Missa.
Não obstante, no ar havia qualquer coisa de estranho (como se, reunidos para a função, não estivesse só o povo da aldeia, mas os espíritos daqueles que os tinham precedido), os fiéis estavam recolhidos, e algumas mulheres rezavam silenciosamente.
Na Igreja havia um velho órgão, mas não havia ninguém a tocar.
Maria sentou-se no banco, olhou para as partituras, e começou a tocar.
Mas como? Não se sabe...
Era uma música dedicada a Nossa Senhora.
Depois ela começou a cantar, eu segui-a e pouco depois também os fiéis cantavam.
No final da Missa, eu cantei a Ave Maria de Shubert com voz de barítono.  
Ao almoço, no Centro, o Presidente deu-nos os parabéns e  perguntou-nos se podíamos alegrar a festa com os nossos cantos, visto que não tinham vindo os convidados para o espectáculo. Acrescentou também que nos pagaria o incómodo.
Respondemos que o faríamos de boa vontade, para retribuir a hospitalidade.
Perto das 16 horas, foi levado, para o palco, o órgão da igreja. 
Já lá  estavam também  várias  pessoas com diversos instrumentos.
Pouco depois, com as partituras que tínhamos encontrado, tocou-se, cantou-se,
algumas mulheres e alguns velhotes cantaram canções populares e exibiram-se em
danças locais.
Cantei muitas canções italianas melódicas e  de operetas.
Toquei trompete (como foi, não sei), mas exibi-me tocando “ O silêncio “ e a “ A montanhesa”.
Foi um sucesso; até porque de tarde tinha deixado de chover e tinha-se reunido muita gente.
Depois da ceia, no final da festa, houve o fogo de artifício.
No dia seguinte estando bom tempo, andámos às voltas para completar as fotos, e
por onde passávamos, as pessoas davam-nos os parabéns, e ofereciam-nos de beber.
Nas nossas voltas, passámos diante de uma loja de antiguidades e, na montra, vi
uma ocarina; disse a Maria para esperar por mim.
Entrei na loja e pedi ao dono para me mostrar a ocarina.
Depois de tê-la limpado do pó, levei-a à boca e... milagre! saiu uma melodia.
Nunca tinha tocado nela; mas bastava-me soprar e ela tocava coisas que não conhecia; tocava sozinha.
Perguntei o preço, e o dono disse não querer nada; sentiu-se pago com a música que
eu tinha tocado.
Saindo da loja, Maria perguntou-me quem tinha tocado aquela linda música.
Mostrei-lhe a ocarina, dizendo-lhe o que tinha feito.  
Não queria acreditar.
Disse-lhe para experimentar soprar; ela assim fez e imediatamente saiu uma música.   
Maria, olhou de novo para a ocarina, e deu-ma dizendo “ Tem bruxedo ”.
E eu respondi-lhe: ” É como se tivesse armazenado todas as músicas, que o seu antigo proprietário tinha tocado. Depois, por qualquer motivo a nós desconhecido, foi parar àquela loja, quem sabe desde quando, à espera de um novo dono. Eis porque, quando experimentei tocá-la, saiu a música que tu ouviste ”.
Continuámos a nossa volta fotográfica; Maria tirando as fotografias e eu soprando na
ocarina.
Algum tempo depois, Maria disse para olhar para trás: estava um bando de rapazinhos, atraídos pela música da ocarina.
De tarde sucedeu-me uma outra coisa estranha.
Estava sozinho a passear, quando vi três pessoas: duas estavam a tocar guitarra e uma
tinha um banjo, mas não o estava a tocar.
Aproximei-me do terceto e perguntei se podia ver o banjo.
Quando peguei nele e comecei a dedilhar, senti qualquer coisa.
As minhas mãos começaram a mexer-se sozinhas.
Os outros dois viam-se em dificuldade para me acompanharem com as guitarras.
Começámos com blues, pois uniu-se a nós um outro com um trombone e depois um
outro com um saxofone, e assim pusemo-nos a tocar jazz.     
Como  a um sinal, tinha-se juntado quase toda a gente da aldeia e entre eles estava
também a minha mulher. Maria observava-me, e eu, olhando também para ela, fiz-lhe
perceber, que estava a acontecer a mesma coisa do trompete e da ocarina.                                                                                                                                        
Teríamos tocado toda a noite, e quem sabe a que horas iríamos parar.
Mas depois, a música quis dar-nos um pouco de descanso, e tudo acabou com imensos aplausos.
Uma manhã, enquanto fazia a barba, ouvi na rádio uma ária de ópera, e seguindo a
música, pus-me  a cantar; era ” Una furtiva lacrima...”
Não tinha reparado que estava a janela aberta; e quando acabei, ouvi alguém aplaudir; debrucei-me  e uma senhora  chamou-me “ Maestro.”
Expliquei que não era nem Maestro, nem cantor; se cantava era sem querer, era assim
como calhava.
Ela não quis acreditar; e quando saí para dar uma volta, todos me chamavam “Maestro.”
Estavam fazendo troça de mim, mas eu não fiz caso.
Tinha já passado uma semana desde que chegáramos àquela aldeia;  estava na hora de
nos irmos embora e voltar para a nossa casa em Vale de Figueira; por isso começámos a arrumar a bagagem.
Estava a meter a mala no carro, quando se aproximaram várias pessoas, entre as quais o Presidente do Centro e o Presidente da Junta de Freguesia daquela estranha aldeia.
Perguntaram-nos porque íamos embora; respondemos que a nossa casa não era ali, mas sim um pouco mais longe.
O Presidente da Junta fez-nos então uma proposta:
Oferecia-nos uma casa com muito terreno.
Recusámos.
Ele pediu que a víssemos antes de recusar a oferta.
A casa tinha um primeiro andar, estava vazia, sem mobília, era em pedra e quando
entrámos ficámos presos pela casa; tanto que, mesmo que quiséssemos sair, não éramos capazes; a casa queria que nós ficássemos como novos habitantes.
Olhámos um para o outro e... não fomos nós a decidir.
Foi a aldeia a decidir por nós.
E respondemos simultaneamente: ” Aceitamos”.

                                                                                    

                                                        

Sonho n.6 A casa no campo ano 2006

 
Quando dávamos uma volta de carro pelo Norte, de noite, fomos apanhados por
um temporal.
Chovia torrencialmente, tanto que os limpa - brisas não conseguiam tirar toda a água; e a visibilidade era muito reduzida.
Queríamos parar; mas, onde nos encontrávamos, parecia um rio, tanta era a água que corria.
Deveríamos encontrar um lugar habitado e possivelmente num alto.
De repente, vi à direita uma estrada ligeiramente em subida.
Deixámos a estrada nacional e metemos por aquela.
Andámos, andámos, até que a subida acabou e aonde chegámos vimos uma casa.
Era uma casa isolada, mas sempre uma casa.
Aproximámo-nos da porta de entrada e, deixando a minha mulher no carro, fui lá bater. Ninguém respondeu.
Debaixo da porta vislumbrava-se um clarão, sinal de que era habitada.
Voltei a bater com mais força...e a porta abriu-se.
A porta abriu-se, mas ninguém a abriu.
Dado que água continuava a cair a cântaros, fiz sinal a Maria para sair do carro e entrar em casa.
Teríamos esperado os donos, abrigados do mau tempo.
Dentro havia uma lareira acesa, da qual emanava um bom calor; no meio da casa, havia uma mesa posta (simplesmente) para dois; por isso supusemos que naquela casa viviam duas pessoas.
No meio da mesa estava uma panelinha de onde saía um cheirinho, que abria o
apetite.
Fazendo de mal educado, levantei a tampa e vi uma sopa não sei de quê, mas que parecia dizer: come-me...come-me...
Esperámos ainda um pouco mais, pela chegada dos donos da casa.
Como não chegou ninguém, decidimos comer um pouco de sopa.
Comemos, mas ao mesmo tempo com temor da reacção dos donos.
Acabámos de comer e pensámos partir.
Tinha parado de chover e o céu tinha aclarado.
Deixei 10€ sobre a mesa a entrámos no carro.
Meti a chave, mas o motor fazia vuu, vuu, vuu, mas não trabalhava.
Experimentei mais que uma vez até que o motor se afogou.
E agora?
Fazia frio e não tínhamos nada para nos cobrir.
A única coisa a fazer era voltar àquela casa.
Tornámos a entrar. A mesa estava levantada, havia uma toalha e no meio...os meus 10€.
Quando tínhamos voltado para o carro, tinham voltado os donos.
Mas onde estavam agora?
Chamámos, chamámos; ninguém respondeu.
Naquela casa havia dois quartos de dormir, ambos com cama de casal.
Se ocupássemos um, não daríamos incómodo.
Deitámo-nos e pouco depois adormecemos.
Na manhã seguinte, havia um belo sol (entrevia-se pelas persianas).
Levantámo-nos, lavámo-nos e dirigimo-nos para a cozinha.
Naquela casa havia uma cozinha, dois quartos e uma casa de banho.
Na mesa estavam duas chávenas de café com leite, pão torrado ainda quente e um tigela de marmelada.
A mesa estava preparada para nós; mas por quem? Se não estava lá ninguém!
Maria disse que os donos se deviam ter levantado antes de nós e, depois de nos terem preparado o pequeno almoço, foram trabalhar.
Comemos com prazer, e depois de acabarmos, levantámos a mesa. Maria lavou as chávenas e, antes de sair, deixei 20€.
Saímos, mas...o carro não estava lá.
Mas eu tinha a certeza de o ter deixado diante da porta de entrada.
Onde é que tinha ido parar?
Maria disse:”Certamente foi o dono da casa que o mudou de sítio, e pô-lo protegido debaixo de um alpendre”.
Demos a volta à casa, mas...nem alpendre, nem carro.
Tinham-no-lo roubado!
De novo defronte da casa fiz uma descoberta: não havia estrada.
E no entanto tinha que haver.
Lembrava-me de, embora fosse escuro, ter seguido por uma estrada, que não era asfaltada mas sempre estrada era.
E agora onde é que estava?
Via-se somente erva. Erva, a perder de vista...
Começámos a andar, e afastando-nos aí uns 200 metros, sempre tendo a casa debaixo de olho, demos a volta.
Não se via mais nada; só erva ....era um nunca acabar...
Mas, onde é que tínhamos vindo parar?


                                                                   

Sonho n.5 O voo na águia ano 2006


Estávamos voltando de Roma, quando um passageiro pondo-se no meio do corredor
do avião, disse que aquilo era um desvio, uma mudança de rumo e  naquela  caixa
que tinha na mão, havia explosivos, e que, se não seguíssemos as suas ordens, a faria
explodir e morreríamos todos.
Como já tinha sucedido na América, no 11 de Setembro de 2004, pensei que podia suceder de novo; far-nos-ia andar a bater em quem sabe qual edifício.
Disse para mim mesmo:” Não quero morrer como um carneiro. Morrer por morrer,
morrerei lutando”.
Num momento de distracção do homem, deixei o meu lugar ao lado de minha mulher
e saltei para cima dele, procurando tirar-lhe a caixa das mãos.
Lutando, lutando, não sei como, acabámos fora do avião.
Certamente ou nós ou o piloto tínhamos aberto a porta.
Precipitámo-nos no vazio. Separadamente, por sorte.
Ele mais veloz, porque devia ser mais pesado.
 Eu, se bem que com menos velocidade, seguia-o.
A certa altura caí sobre qualquer coisa.
Parecia estranho ter já chegado à terra ou ao mar.
Não se via nada.
Havia muito vento, por isso agarrei-me com força a qualquer coisa, não sabia o quê.
Aquela coisa era macia, parecia feita de penas.  
O que era?  
Agarrei-me com a maior força possível, para não ser arrastado pelo vento.
Depois de não sei quanto tempo, aquilo que pensava fosse nevoeiro, dissolveu-se e vi...
Não estava na terra , mas sim … sobre uma grande águia.
Mas, o que é que eu fazia em cima de uma águia?
Provavelmente, enquanto eu me precipitava do avião, passou a águia e caí em cima dela.
E agora? Como acabará?
A águia levava-me para o seu ninho e era devorado em companhia dos filhotes...
Em vez disso, a águia tendo chegado a breve distância da terra, empinou-se e atirou-
-me para fora.
Nem sequer lhe pude agradecer pela boleia, porque voou, foi-se embora...
Encontrei-me num terreno herbáceo; pelo ar frio que sentia, devia ser na montanha.
Olhei em volta para me orientar. Não via ninguém.
Fazendo o cálculo do tempo decorrido, desde que tínhamos partido de Roma, até àquilo que me tinha sucedido, deveria encontrar-me em Espanha.
Mas em que parte da Espanha?
A única coisa a fazer era começar a andar, até encontrar uma estrada, casas ou alguém
a quem perguntar.
Caminho e torno a caminhar nem me recordo quanto andei...
Devia ter caído numa Serra. Mas em qual Serra?
Em Espanha, recordava-me de duas serras, a Serra Nevada e a Serra Morena; mas, e se havia outras? Vá lá saber-se; de qualquer modo eu estava na montanha.                                                                                                                            
Seguia um caminho no meio de um bosque: subia e descia, subia e descia… parecia não ter fim.
Mas… acabou.
Estava ainda na montanha, a uma certa altura, mas lá em baixo, já via... certamente uma cidade!
Havia muitas casas.
Continuei a caminhar, descendo do sítio onde me encontrava.
Encontrei uma estrada.
Pelo tráfego, devia ser uma estrada importante.
Para ir para Portugal, devia andar à direita ou à esquerda?
De qualquer maneira, convinha-me primeiro que tudo, chegar à cidade, que tinha
visto lá de cima.
Quando chegasse, logo veria de que cidade se tratava (era bom que fosse Madrid); depois, procurar ajuda para voltar para casa, ter-me-ia bastado um telefone para chamar Maria e dizer-lhe que estava vivo, onde me encontrava e que brevemente estaríamos juntos de novo.
Quando cheguei, vi uma tabuleta com um nome em letras grandes; era certamente o
nome da cidade; só que eu não conhecia aquele nome.
Pensava em Madrid, Toledo, Granada, Sevilha, Burgos, etc...etc...em todos os nomes
que conhecia e que me teria ajudado a perceber onde estava; mas assim...nada, aquele nome não me dizia nada de nada.
Entrei na cidade até encontrar uma loja.
Era um bar; entrei, aproximei-me do balcão, e perguntei ao empregado em que parte
da Espanha nos encontrávamos.
Olhou para mim desconfiado, e disse qualquer coisa que não percebi.
Mas que raio de língua espanhola estava a falar?
Era melhor procurar um guarda.
Muitas vezes são ignorantes (ou eram, no passado), mas pode-se sempre encontrar
algum mais inteligente...
Mas, quando precisas de um polícia, pode cair o mundo que não o encontras!
Que devo fazer? 
Além disso agora, começava a ter fome.
Quando vi um restaurante (não estava escrito Restaurante) mas vendo as mesas postas devia sê-lo.
Entrei, sentei-me e quando veio o criado com o menú, indiquei-lhe: isto e isto.
Comi e bebi.
No final pedi a conta.
Embora não me percebessem, apresentaram-me um papel com uma cifra.
Fiz o gesto de meter a mão na algibeira do casaco, mas... não tinha o casaco.
O casaco onde é que foi parar?
Olhei para a cadeira; nada, o casaco não estava lá.
Mas onde é que ele foi parar?
De repente lembrei-me do avião.
Certamente tinha-o tirado quando estava sentado ao lado da minha mulher.
E agora?  
Como fazer para pagar a conta?
Acabava ali: ou me davam uma tareia, ou me punham a lavar pratos ou chamavam a polícia.
Felizmente foi o que fizeram.
Mas ele devia muito à inteligência.
Falava, falava numa língua que eu não compreendia e ele também não percebia quando lhe dizia que era italiano.
Por fim pegou-me no braço, (com mau modo) e levou-me ao posto da Polícia. Esperava encontrar algum agente, oxalá um superior que falasse outras línguas que não só a sua. Enganei-me redondamente. 
Certamente faziam-me perguntas, mas na língua deles que eu não percebia; podíamos
continuar assim in aeternum: eu não compreendia o que eles me diziam e eles não
entendiam o que eu lhes dizia; a que ponto chegaríamos?
Perguntei: “ Parlez –vous français? Sprechen Sie deutsch? Do you speak english?
Portugueses? “ Qual quê! Nada de nada, mas que raça de língua estavam falando?
Não nos tendo conseguido compreender, aquela noite fui seu hóspede, numa cela.
Pelo menos não a dividia com ninguém; e depois também sem dinheiro, onde é que
poderia dormir?!...
Na manhã seguinte ofereceram-me o pequeno almoço (também os presos comem),
depois retomaram o interrogatório.
Eles falavam, falavam e eu não percebia nem uma só palavra; eu falava, falava e eles
não me percebiam.
Pedi um mapa; era como falar com o vento.
A uma dada altura, peguei numa caneta e escrevi:” Eu (e com o dedo me indiquei a
mim mesmo) italiano, casa (fiz o desenho de uma casa) Portugal.
A guarda que estava atrás da escrivaninha (certamente um Superior) pegou no
papel e mostrando-o aos outros, começou a falar tão depressa, que dificilmente
consegui perceber a palavra Portugal.
Aquele que comandava acompanhou-me à porta e, apontando para a direita disse:
“Portugal” disse-o de uma maneira estranha, mas o que é certo é que me mostrava de
que  lado estava Portugal.
Apertando-me a mão, (parecia até que a esmigalhava), e agitando-a para cima e
para  baixo, fez o gesto para me ir embora.
A verdade, é que me pareceu ter-me mandado àquela parte; ao que eu respondi com um gesto :” vá você...” e dirigi-me para a direcção indicada.
E...retomei a viagem a pé.
Tinha-me cansado de levantar o braço a pedir boleia; mas também com o aspecto
que tinha (com a barba por fazer...) tomavam-me por um delinquente!
Já não tinha o relógio; tinha ficado na polícia (para pagar a conta do restaurante
ou talvez como recordação...) Assim, nem sequer podia saber as horas.
O meu estômago dizia que era meio dia ou uma.
Tinha, por força, de encontrar alguém que me oferecesse de comer; e realmente,
ali na estrada, não podia pôr-me a pedir esmola aos automobilistas; até porque nem
sequer parariam.
Assim, abandonei a estrada e fui pelos campos.
Já caminhava há algum tempo ( e que azar, nem uma só árvore de fruta) ; quando
vi uma casa.
Disse para os meus botões:” Se há uma casa, haverá alguém que certamente não
se recusará a dar-me um prato de sopa.”
Havia porém o problema da língua: se falavam de modo estranho, não nos teríamos entendido: e voltaria tudo à mesma
Veio-me uma ideia; fazer de surdo-mudo.
Bati à porta, e dado que não "ouvia", continuei a bater até que a porta se abriu.
Abriu um homem, não posso dizer velho, mas estava perto.
Começou a gritar; mas dado que não percebia aquilo que ele dizia, e também  porque era surdo, deixei-o desabafar quanto quis, sem reagir.
Quando reparou que eu não respondia, parou de gritar.
Fazendo os gestos que já tinha visto fazer aos surdo - mudos, dei a perceber que tinha fome e de não ter dinheiro; acenando a um assalto .
O homem fez-me entrar em casa e sentar à sua mesa; pôs diante de mim um prato que encheu com o que estava no meio da mesa.
Naquela casa havia também uma mulher (certamente sua esposa), também ela mais ou menos da mesma idade.
Quando acabei de comer, quis  lavar a loiça suja; impediram-no e fiquei
sentado a olhar para eles.
A um certo momento, devo ter adormecido pois quando acordei estava numa cama e estava escuro.
Continuei a dormir até de manhã.
Quando me levantei, eles já estavam em pé: devem ter-me dado os bons dias, ao que eu, acenando, retribuí.
Deram-me leite e café e pão escuro.
Acabada a refeição, mostrei a minha cara; tinha uma barba de pelo menos três dias.
O homem fez-me sinal para o acompanhar à casa de banho, depois indicou-me a
espuma de barbear; mas quando procurei a gilete, não a encontrei; no seu lugar havia
uma navalha de antigamente.
Com aquilo podia cortar a goela, não a barba!...
Com a cara ensaboada, voltei à cozinha e mostrando a navalha dei a perceber que
não a sabia usar.
O homem fez-me sentar numa cadeira e pôs-me à frente uma toalha; depois num
bater de olhos e com a mestria de um velho barbeiro, rasou-me bem.
Devia agradecer-lhe de qualquer maneira.
Por detrás da casa, para além do campo, havia uma horta que precisava duma
cavadela; procurei o que me servia, e limpei as plantas de todas as ervas daninhas.
Trabalhei toda a manhã, parei quando me chamaram para o almoço.
Durante o almoço, disseram-me qualquer coisa, que não percebi (não ouvi!) por gestos pedi um papel e qualquer coisa para escrever. Depois como fiz na esquadra, apontei para mim e escrevo “ ITALIANO” ,depois desenhando uma casa escrevi “ PORTUGAL. Puseram-se a discutir entre eles, de seguida o homem foi buscar um casaco (não era novo, mas à noite fazia frio e eu só tinha a camisa); pôs-mo sobre os ombros dando-me a entender que mo dava.
Estava comovido; não sabia que dizer (até porque era surdo-mudo).
Agradeci-lhe sacudindo-lhe a mão para cima e para baixo.
Não me queria ir embora antes de ter acabado de arranjar a horta; por isso deixei o casaco e, com a enxada, voltei para o trabalho.
Mais uma vez dormi lá em casa deles e de manhã, depois do pequeno almoço, o
homem acompanhou-me até estrada; ali perto estava a paragem do autocarro.
Esperámos um pouco, mas depois chegou um autocarro; assim que parou, o homem
subiu, disse não sei o quê ao motorista, deu-lhe qualquer coisa, (certamente
dinheiro); depois disse para eu subir.
 Tomei-lhe a mão e, apertando-lha, sacudi-a para cima e para baixo como saudação. Disse-lhe adeus enquanto o autocarro se afastava.
Tinha vestido uma camisa lavada e um casaco (que podia querer mais agora?)
O autocarro andava, eu olhava pela janela, mas não sabia onde estava, não conhecia
o sítio, limitava-me a olhar.
Alguém começou a querer falar comigo, mas eu fiz sinal que não falava, nem ouvia,
e assim deixaram-me em paz.
A uma paragem, descemos, mas enquanto todos os outros se dirigiam para o café, eu
fiquei perto do autocarro até que veio o motorista buscar-me.
Acompanhou-me ao café, indicou-me a comida que estava exposta, mas eu fiz-lhe
sinal que não tinha dinheiro.
Ele meteu-me a mão no bolso interno do casaco e tirou uma carteira.
Olhei para ele e fiz sinal que não era meu; disse que não, com a cabeça, e procurei afastá-lo de mim.
O motorista abriu-o e mostrou-me uma fotografia do homem e da mulher que me
tinham hospedado; estava também escrito qualquer coisa (a sua morada com  
certeza), que porém não percebia, e além da foto estavam 40 euros.
Disse para mim mesmo que um dia devolver-lhes-ia o casaco, a camisa e a carteira
com dez vezes mais do que aquilo que lá estava.
Com  lágrimas nos olhos, escolhi  alguma coisa para comer, mas  custava -me a
engolir; tive que ajudar com uma cerveja.
Com a ajuda do motorista, mudei duas vezes de autocarro.
Uma noite passei-a num, e depois do terceiro transbordo, vi uma tabuleta redonda azul e no meio estava escrito: PORTUGAL.
Ao terceiro transbordo já percebi onde estava; estava na Galiza, vi 
Lugo, a indicação para Santiago de Compostela, Orense, Verin…
Entrei em Portugal pelo lado de Chaves.
Com o facto de as fronteiras estarem abertas, não parámos na fronteira; por isso ninguém me pediu a documentação (que aliás não tinha).
De Chaves, com um outro autocarro, desci em Santarém e, tendo acabado o dinheiro, passo a passo cheguei a Vale de Figueira.
Quem me via, olhava admirado para mim (provavelmente, pensavam que tinha morrido).
Não querendo assustar a minha mulher, parei em casa da nossa vizinha, e pedi--lhe para avisar a minha mulher com cautela.
Não podeis imaginar quando, depois de tantas peripécias, pude abraçar de novo
minha mulher, a qual tinha dificuldade em acreditar nos seus olhos: era eu mesmo, em carne e osso, mesmo depois do voo do avião!...