sábado, 1 de agosto de 2015

Sonho n.9 A Carta do Notário



Uma manhã, na caixa do correio, encontrei uma carta endereçada a mim .
Olhei bem; não era uma normal carta de vendas por correspondência.
O envelope era branco, o meu nome escrito à máquina e no alto , à esquerda o remetente: Cartório  Ferrarin, Avenida da Liberdade 123- Lisboa.
Mostrei-a a Maria, minha mulher.
O que é que  o Estúdio Legal Ferrarin queria de mim?
Para sabê-lo bastava abrir o envelope e ver o que esse Cartório Ferrarin queria.
A carta não dizia nada de especial;  convidava-me  a apresentar-me  o mais breve possível no Cartório nomeado,  para uma comunicação que me dizia respeito.
As perguntas que vinham à cabeça eram muitas, mas respostas...
Era só ir a Lisboa. Fomos no dia seguinte.
O notário, Luís Ferrarin, era um homem jovem; quando me apresentei, quis que
lhe mostrasse um documento de identificação, para se certificar da minha
identidade .
Perguntei-lhe o que queria de mim( se era dinheiro, comigo estava mal).
Disse-me que, para me encontrar, a procura tinha sido longa, quis saber se eu c
onhecia um certo Italo Di Nardo.
Respondi-lhe;” Pelo apelido deve ser parente da minha mãe; porém eu , não
me parece que o conheça”. 
Disse que vivia na América e que, morrendo, me tinha deixado uma herança.
Ao ouvir a palavra” herança”, recordei-me de um certo filme que tinha visto na
Itália que, se não erro, se chamava “ I magliari” (nome dos empregados das
fábricas de malhas), ou um nome semelhante.
Chamei a minha mulher de parte e disse-lhe do filme e das burlas que faziam,
com heranças fingidas.
Voltei para junto do notário e perguntei-lhe que devia fazer para ter acesso à
herança.
Disse-me para assinar um papel, que me apresentou, para aceitação da herança
e pagar 5.000 € para as despesas.
Voltando-me para Maria disse-lhe:” O que é que te tinha dito?”
E para o notário.” E quem me assegura que não é uma burla?
O notário ofendeu-se e disse:” Por quem me tomam?”
Mesmo como no filme!
E depois continuou:” Se querem aceder à herança, devem assinar e pagar, senão, assinem para renunciar à herança”.
Que devo fazer?
E se fosse verdade?
Sinceramente perder 5.000 € não tinha vontade; mas também não tinha vontade
de perder a herança. E depois quem sabe qual era o montante...
E se a herança fossem só dívidas?
Disse-lhe que não tinha  o dinheiro que me pedia e ninguém a quem pedir; ao
banco nem pensar,  já lhes tinha pedido e durante dez anos devia só pagar.
O notário, vendo-me assim acabrunhado, veio ao meu encontro fazendo-me uma proposta: no momento não pagava nada, assinaria um vale; e se a herança fosse superior a 5.000 €, pagar-lhe-ia 10.000 €; se fosse inferior pagaria só 10%.
Concluído o acordo, assinei a aceitação da herança e o notário entregou-me um envelope, que vinha da Embaixada de Itália em New York.
No interior estava a cópia do testamento do senhor Italo de Nardo.
Italo de Nardo deixava todos os seus bens a todos os sobrinhos que se chamas-sem Italo.
Para receber a minha parte, devia ir à América, ao Cartório de New York  até uma
data já marcada.   
Com o dinheiro que tínhamos, resolvemos, que à América iria sozinho
Restavam-me só dez dias até à data limite fixada, tinha que me despachar, não
podia perder tempo.
Tinha que ter o Visto de entrada, para poder comprar o bilhete para a viagem.
Consegui arranjar tudo em sete dias.
Ainda bem que há aviões, se eu tivesse que ir de barco... adeus herança!
Correu tudo bem; com o meu mau inglês misturado com  espanhol, português e italiano consegui fazer-me compreender.
Na América descobri que no cartório, à leitura do testamento estávamos dez com
o nome de Italo, assim a herança foi dividida por dez.
O “Tio da América” era imensamente rico, mais que um marajá.
A minha parte da herança foi de  18.748.230.421.684.870 dólares, uma quantia
que me fez tonturas.
Era toda minha, porque estavam já pagas todas as despesas.
Não podendo levá-la para Portugal, abri uma conta no Banco de América e
Portugal. Levei comigo só 1.000 dólares para as pequenas despesas.
Voltando para casa deixei Maria adivinhar de quanto era a herança.
Começou com 1.000 dólares.” As duas primeiras cifras começam por 18”.
Ele disse:” 18.000 dólares”
“Mais, mais...”  Mais de 18.000 dólares não podia crer!
Mostrei-lhe a caderneta de depósito e ela não conseguia ler a inteira quantia...
E agora que faço com todo este dinheiro?
Penso, penso e torno a pensar...até que me veio uma idéia: Crearei “O meu
Império”.
Tive sempre o desejo de ajudar os trabalhadores das empresas falidas.
Comprá-las-ia e tê-los-ia  readmitido ao serviço .
Mas antes de mais, precisava de uma Sede e precisamente de um prédio.
Procurei uma Agência Imobiliária, a maior e mais cara de todas, onde dei a
conhecer o que me servia.
Depois, para gerir o Império precisava de advogados, consultores financeiros
e uma ou mais empresa de publicidade.
Com dinheiro obtém-se tudo ou quase.
De qualquer modo, dada a pressa de começar, e não ligando à despesa, num mês,
tinha o meu prédio novinho em folha! 
O último andar era destinado à Presidência e ao salão de reuniões.
Sendo muito meticuloso em certas coisas, admiti só gente referenciada, cujas
referências eram controladas pelos meus investigadores.
Quando todas as secções estavam prontas e completas de pessoal, dei o sinal de
partida para me procurarem fábricas em falência e seus produtos comerciais.
Assim, reabri fábricas, de cimento e seus derivados, de tijolos e derivados, de
têxteis, e de laboração de pelagens.
Onde não as havia eu criava-as.
Com o dinheiro que tinha, untando as engrenagens certas ( como em Itália),
comprei no Alentejo um território agrícola, onde mandei construir uma pequena cidade,  a  que dei o nome de Roma.
Foi construída  com tudo aquilo, que produziam as minhas fábricas, dando
por isso, trabalho a muita gente portuguesa e estrangeira, mas, que quisessem
trabalhar.
Mandei construir casas, (que vendi  a um preço acessível a todos ), Escolas ,
Casas de Saúde, Casas de Repouso , Lares para idosos, que deixava  usar
gratuitamente  a todos os residentes, isto tudo sem  ajuda do Estado.
Havia também um Hospital, cujo pessoal era todo pago por mim, e os tratamentos eram pagos segundo o rendimento de cada um.
Tinha fábricas de produtos diversos, alimentares e não só , cujo nome era Bianchi o Ital Portugal se eram em Portugal, Ital Espanha ou Ital de outros Estados Europeus, segundo o local em que  se encontravam.
Tinha uma cadeia de Centros Comerciais onde, os arrendamentos eram baixos ,
e além disso , se vendiam os meus produtos a preços competitivos ( menos do
que os espanhóis ou chineses).
Os empregados ou trabalhadores assalariados  tinham contratos anuais , que
eram renovados segundo a sua produtividade.
A gerir tudo isto, estavam os meus amigos ou conhecidos, nos quais sabia que
podia confiar como em mim mesmo; eram os Directores Gerais.
Sabendo que não podia viver eternamente, com os dependentes das várias
fábricas, tinha feito um acordo compromisso escrito: à minha morte, eles mesmos
se tornavam proprietários do seu lugar de trabalho. Assim descarregava o meu
futuro sobre as suas costas.
Depois começaram os problemas.
Fizeram-me guerra ; os chineses, os japoneses. e todos aqueles a quem não
agradavam os meus preços.
Houve atentados e assaltados , que nunca mais acabavam…
Sinceramente a carta do notário tinha-me dado a possibilidade de ajudar tanta
gente desempregada, que graças a mim, voltava a produzir  e a estar  melhor  do
que anteriormente.
Se por um lado eu estava feliz, por outro , não me davam tréguas; tinha às costas
tantas pessoas que dependiam de mim e do meu dinheiro…
Pensando  bem, estava mais tranquilo antes de receber a Carta do Notário.

 Não foi um sonho, mas sim um pesadelo!!!

 

                                                                       
 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                         

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                     

  

 

Sonho n.8 E...O Tempo Passou


  
Voltava de Roma onde tinha ido visitar o meu pai.
Fui sozinho, pois Maria tinha uma exposição e por isso não me acompanhou.
Como disse  antes, voltava de Roma.
Em Fiumicino subi para o avião, no horário, e sentei-me ao lado de uma rapariga .
Não era italiana, nem espanhola, nem portuguesa ou brasileira ( se não percebia-a ); falava com outras  duas ( talvez amigas ) numa outra  língua que não compreendia , ( para mim era árabe ): não sabia se era árabe ou não, mas em Itália, tudo aquilo
que não se percebe é árabe, modo de dizer!...
O avião partiu à hora certa e, no horário previsto, chegou a Lisboa.
Só que...tínhamos um atraso de cinco anos!  Como era possível?
Quando isto nos foi anunciado, ninguém queria acreditar.
O avião,  uma vez aterrado, foi guiado para um hangar e, quando descemos todos, fomos sujeitos a consultas médicas; fizeram-nos inúmeras perguntas, a que nenhum
de nós sabia responder.
Para nós tudo se tinha passado no mesmo tempo de tantas outras viagens iguais.
Tínhamos comido, tínhamos visto a televisão, falado ( os outros pelo menos),lido 
os jornais ( italianos e estrangeiros )...
Em resumo, para nós fora tudo normal !
Só o que de anormal, pelos vistos, eram os cinco anos pelo meio.
Viémos a saber que muitas mulheres tinham dado à luz, como a rapariga que
estava a meu lado e as outras duas ( amigas ).
Onde ? E os filhos, onde estavam ?
Foi uma confusão que nunca mais acabava.
Havia quem chorasse, quem brincasse com isso, e quem estivesse preocupado
com os negócios desfeitos.
Eu pensava na minha mulher. Como estaria ?
Cinco anos...
Era mesmo de não acreditar; mas o certo é que eram passados cinco anos.
Como passou veloz o tempo fora do avião!...
Naqueles cinco anos muitas coisas me tinham sucedido: o cartão do Multibanco
tinha acabado o prazo de validade ( assim não podia levantar dinheiro; o Bilhete
de Identidade italiano  também estava fora de prazo; voltando para casa, a minha mulher tinha-me substituído por um  ucraniano; a pensão de reforma tinha sido suspensa; o meu pai tinha morrido  e a minha parte  da herança tinha sido dividida entre os meus filhos.
Por sorte, depois da minha pressuposta morte, o meu pai tinha depositado na conta
da minha mulher 50.000 euros.
Minha mulher sentia-se bem com o ucraniano, e não o teria deixado por mim;
assim, naquela casa que uma vez tinha sido a minha casa, agora era um hóspede
um pouco incómodo.
Não é que me importasse muito; aquilo que eu sempre quis era a felicidade da
minha mulher.
Só que, para viver, eu precisava da minha pensão.
Fui a Lisboa à Embaixada Italiana, para demonstrar que não tinha morrido ( no
desastre aéreo, como tinham noticiado os jornais e a televisão), mas que estava
vivo, vivíssimo.
A funcionária do gabinete consular, não era Simonetta, mas uma nova que não
me conhecia; e embora lhe mostrasse , com o documento, a minha identidade,
disse que por lei eu estava morto, e que, se queria a pensão de volta, tinha que ir
a Roma para me fazerem o reconhecimento.
Num lindo sarilho me tinham posto aqueles misteriosos cinco anos !
Voltei para casa e pedi 1.000 euros  para ir a Itália. Maria disse que me daria
tudo o que restava dos 50.000 euros dados por meu pai.
Respondi-lhe que me bastavam 1.000 euros; em Roma ficaria em casa do meu
irmão ou da minha irmã Lídia.
Fomos a Santarém , onde levantou 1.000 euros , e deu-mos.
No dia seguinte fui à estação, onde apanhei o combóio para Lisboa- Santa
Apolónia e dali para o aeroporto.
Enquanto esperava na fila do balcão da Alitália, aproximou-se um desconhecido
que, em perfeito italiano me disse.:" Vorreste sapere cosa successe durante i
cinque anni? (  Quer saber o que sucedeu durante os cinco anos ?) , ao que eu
respondi que, mesmo que quisesse saber, não mudaria nada .
O tempo... não volta para trás!
 
Não foi um sonho leve, foi um pesadelo.